Lista de Poemas
Encalho,agacho,acobardo e morro.
Sou consciente do que penso e procuro,
-Procuro-me tão-somente,
No conhecimento, mas inconsciente
D'o não haver, onde tanto o procuro,
Ainda que houvesse, um farol faroleiro
Do sentir do meu pensamento,
O afastaria de mim, estaria oculto
Quanto, sob intenso nevoeiro...
Pensar...pensar tão-só, quanto o pensar
Mente e se encobre, n'algum ser ou coisa
Inconsciente, como pensar que nem se pensa,
Embora seja ela, a causadora aparente do pensar.
Sou consciente de que procuro,
Um inédito conceito do real, ainda por pensar,
Porque sem o peso da memória, não terei logradouro,
Nem este vil cais, me irá ver morto, embarcar.
Talvez como eu, seja aquela puta, sem opção,
De bar em bar, repartindo o cadáver morto,
Mas sonhando-se prenha, d'algum Nobel da ficção,
Que a penetrou fundo, por um gol d'absinto.
Sou ciente do pensar que procuro,
Ser mais venal, que o comum pecado,
Mais impuro, que o despudor, em estado puro,
Mas num mar de bruma m'encalho, agacho, acobardo...
(E Morro)
(E Morro)
Joel Matos (12/2013)
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E o sonho ter-me-á sonhado.
Com a noite, tudo fica calmo, (e frio)
Foge a consciência, do sítio
Definido, p’lo dia pleno.
Soubesse eu, trancar o encanto
Em mim, por de dentro
E suspender o fio
Que divide a noite e o dia,
Em termo,
E mito…
Com a noite, tudo fica calmo e fixo,
Indefinido o real,
E o que posso não explicar,
Nem ver.
Soubesse eu, soltar o encanto
De verdade e sentir,
De mil maneiras,
O ar espesso,
De vales arestes e íngremes ladeiras,
Nas manhãs lavadas,
Renunciaria ao feitiço,
Das trevas,
Feiticeiras ou fadas…
Soubesse eu, d’mil maneiras,
Sentir tudo, sem sentir nada,
Sonharia de dia,
Pois sendo noite cerrada,
-O sonho ter-me-á sonhado-
(Com a noite tudo fica calmo)
Jorge Santos (12/2013
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Nunca darei notícias
Nunca darei notícias, contudo
Virei sedento, do que vi por dentro
E do que trouxe do silêncio,
Das esquinas caiadas, de prata e nata.
Visto que morei na rua, nunca darei notícias,
Aos que quero tanto,
Virei com vontade atenta,
E lembranças na pele, do trajecto.
Virei com a lembrança da cal na boca,
Virei do encontro no espelho, com o nada,
Virarei ruas, cidades e ruas sem idade,
Vinhas de religiosas terras, iras e paixões.
Vi os lugares inclinarem-se-me e as estradas,
Vivi as terras, vi estrelas e profanei equívocos,
Nos serões normais, fiquei comigo, e nas paisagens do trigo.
Visto que sonho demais, nunca darei notícias,
Meus passos serão como os deles, lajedos puídos
Mas o meu coração estará descalço, longe,
Ainda que perto, das coisas simples, formais,
Fugindo de um corpo encantado.
A chave do dia será o pensamento,
A volúpia do singelo e o variável,
O sobressalto da escada, sem corrimão,
-Vi uma dessas em parte alguma, na lua
E na soma dos instantes, do passo lento
E o longe simulará o perto ou a aparência, o incerto.
-Nunca mais voltarei a rasgar desesperos
E a fingir que atravessei continentes…
Joel Matos (12/2013)
Joel Matos (12/2013)
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Embriaguem-se porra.
Embriaguem-se, de orgulho puro, da quilha à proa, de estandartes retalhados
Embriaguem-se de verbos duros , como se fossem mortalhas de curtumes,
Embriaguem-se lá fora, no beco, na rua, embriaguem-se... "porra",
Embriaguem-se com a alegria, das crianças, mesmo sem côdea e sem tecto,
Embriaguem-se e, se porventura pensarem perder-se da razão
Embriaguem-se repetidamente até que de novo se encontrem , nos olhos chãos,
Dos inocentes, nos bairros pobres ou dos lunáticos e utópicos.
Embriaguem-se da vergonha vesga e da solidão, dos nossos subúrbios cercos,
Nos Ghettos da gentalha, nas mantas dos sem-abrigo, aos milhões,
Embriaguem-se, em noites de estrelas roxas e ideais barbudos.
Incendiai, segai pavios, dai às mãos dos gentios, a metralha,
Embriagai-vos de liberdade e que as vossas mães derrotadas jamais sejam violadas,
Nos trabalhos mal pagos, nos degraus dos parlamentos e das opressões,
Nas arcadas dos ministérios, das esquadras, dos grilhões
E das algemas, encerrem as masmorras com as pedras arrancadas na calçada.
Embriaguem-se, contra as governações, testas de ferro
Dos saqueadores e da corrupção, da escuridão e do medo,
Contra os ferozes e os algozes de serviço, dos gordos coronéis,
Destes reinos beras de genocidas a soldo, bem mais que os cruéis,
D'outrora, embriaguem-se e cantem, excluídos e esfolados,
D'agora, cantem sem descanso, até caírem pro lado,
Enquanto bebem, o vício de serem livres, em lugar de acossados,
Por crime d'ajuntamento, até caírem os ferrolhos e as paredes dos cruéis,
Dos bancos, com capitéis d'ouro e caixas fortes, dele acumulado,
Quando acordarem, por fim, os perros dos arrecadadores, será tarde
A bebedeira será global e... transmissível,...soará a corneta
Dum tempo novo, fundado plos bêbedos, deste mundo esguelha.
Pois que vertam, sangue e vinho, na sarjeta e no soalho nobre, do rico...
Embriaguem-se Porra...EMBRIAGUEM-SE ...
Jorge Santos (12/2013)
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👁️ 969
São como nossas as lágrimas

São como nossas, as lágrimas,
São como gente, as nossas lágrimas
Lentes criadas de inevitável, esculpidas
Em vida, em almas são, como só elas
Levitáveis, entre o fim e o todo, entre
Mim e o fundo de mim próprio, serão
Sensações conscientes como são sempre,
Ou a promessa frágil de quem naufraga
Nas mesmas estéreis lágrimas com que
Me lavo, imundo e inviável como o mundo,
E julgo eu que se pode lá caminhar, mudar
De rumo, afundar rente ao porto, comum
Na muralha da minha dividida atenção.
São como nossas as lágrimas dos outros,
Acima da linha dos ombros, sonhos serão
Sempre sonhos, cardeais fidalgos, pontos
Finais, parágrafos de uma aristocracia
Parada e fria, assim como o brilho de
Um farol distante e a maresia do mar
Pouco amigo, indiferente digo eu fechando
Os olhos e perdendo a realidade concreta
No que digo ou no que sou “levado-a-ver”,
Nas lavradas lágrimas dos outros.
Joel Matos (Março 2023)
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Vamos falar de mapas

Ler-te, é como ter ao meu lado,
Um sonho de que vou sarando,
E a paz do mais profundo campo,
E naquilo que sonhe, sonhasse
Seguindo o meu instinto, mas não
Vamos falar outra vez de mapas,
Antes que me faça caminho,
Desses que levam a toda
E a qualquer outra ignorada parte,
Que não seja o desatino ao vivo
Que me falta nos calos dos dedos,
Nos cabelos grisalhos do peito,
No centeio abrindo um trilho,
No milho moldando ao vento.
(Estranhos recrutas cegos)
Hoje falamos de mapas, forma
Promulgada do que outros veem
Como mutilação, ilusão de margens
De um mundo exterior ao seu,
A julgar pelas linhas da mão ao tempo,
E até onde a vida poderá ir, senão
Fingindo que as sei ler, quando
Lhes dou um momento da minha
Particular atenção …
Jorge Santos (Março 2023)
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👁️ 126
Insha’Allah

Insha’Allah
Sinto falta de me insurgir,
Da Intifada, da porrada
Do tudo ou nada, da pedrada,
Do sangue quente, da paliçada
Sinto falta do Maio 13, da M14,
Dos paranoicos raciocínios,
Dos encontros secretos
Em Marraquexe ou seria
Casa Blanca, chuva fria
Gabardine e Ingrid Bogart,
Da Primavera de 68 barricado,
Do sangue quente brotando, de facto
Como fossem santas fontes,
Sinto falta do mudar do vento,
Pro outro lado menor, mais lunar
Que este, me rasgo, por vezes
Me fendo ao meio, em forma
Exacta de granada, morteiro meia
Lua, não me rendo a opiniões
Mal paridas, nem haverá bala
Que me seja estranha e f’rida
Não temo, nem tremo perante a morte
D’Cristo, sei de que matéria é feito
O garrote, Pátria ou Morte
Jurarei, juro que já não me calo,
Perante o rescaldo de Ramallah,
Insurreição armada, amanhã é hoje
Palestina livre grita, Insha’Allah,
Insha’Allah, …
Joel Matos (Outubro 2023)
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👁️ 149
O Homem é um animal “púbico”

O Homem é um animal “púbico”,
Quem disser o contrário “é besta”,
Não disfarçando desta vez o voraz instinto,
A crença superior da fera, entre o caçador
Lúdico, o guerreiro e a pudica presa,
O publico é a consciência rasa, não a razão
Da peça, apenas um espelho mais que polido
E apolítico, por isso se diz por’í, ser o Homem
Um animal político, se adapta à bíblia dos mancos,
À opinião dos tolos, dos patetas, nem todos,
Tal como os pelos púbicos e a vulgar vulva,
Outros salivam duma outra divisão da alma,
Pecam sem castigo e por mandato divino,
São obstetras, marcham como assombrações,
Sonham signos, setas direções, mandam
Pra puta que pariu fulano e beltrano,
Pelo ânus e porque não pela vulgar cloaca
Dum pombo, ovelha negra, assumida sarda
Na nádega de um anjo que se assume demónio
Ou o lúcifer das emoções estrangeiras, feias
Tão feias quanto a indiferença em dizer,
Do medo que é falar, confessar em público
Meias verdades que vão de minha sarja,
Ao meu fraco pelo …
Joel Matos (Março 2023)
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👁️ 61
Os destinos mil de mim mesmo.

Os destinos mil de mim mesmo.
A minha história é cheia de ângulos invisíveis e de coisas incertas, arestas
Rasas, cegas tal como folhas movidas pelos ventos,
Que sou levado a crer serem movimentos circulatórios,
Acidental a disposição delas e a minha, circulam indecifráveis
Nesta ou em outra área mais dobrada do parque,
Num alegre, bucólico canteiro de flores ou no alpendre de uma casa térrea,
Igual a esta onde me limito ao poder diminutivo das horas,
À tolerância constância dos dias.
É neste esvoaçar constante, lento,
Que residem as lembrança, e acaso o eterno,
Como se a vida não fosse um abissal eco,
Uma vertente com cantos inclinados,
Quais fingimos amar seguindo regras não escritas,
Impostas à partida, estritas e apregoadas até à exaustão,
Aos quatro ventos.
Sinto-me um insólito inverno, um intruso indiscreto,
Um melancólico desconhecido até para mim mesmo,
Como tivesse sido sequestrado por uma sombra esguia, vazia,
Com a aparência dum inútil artefacto que renego e carrego no peito,
Mas do qual e de facto já faço parte e qual amiúde suprimo de merecer-me,
Desmereço-me despejando os olhos exaustos pelo chão dos vivos,
Dos que vivem exactos e sem esforço.
Considero-me acima de tudo uma criatura ausente, sem interesses maiores
Que interessem a alguém se nem a mim mesmo,
A natural sombra de mim próprio e não a dos outros que se salientam.
Fui esse que ainda sou, eu mesmo sem brilho
Ou a fase mais escura da lua e do céu que em sombra dobrou o sol
Em três, frente e atrás, para depois ficar quase, quase breu.
A frágil intenção tornou-se a causa certa,
E o quarto onde paira um silencio tóxico que me silencia,
Assim como mordaça ou uma bandeira branca erguida, desfraldada
P’los meus olhos dentro, paredes hermética
Aos destinos mil de mim mesmo.
Joel Matos (23 Novembro 2023)
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👁️ 164
A essência do uso é o abuso,

A essência do uso é o abuso,
O atributo é insignificante, real
É a ideia e o curso dos meus
Sonhos, não a utilidade nem “o ser”,
Sabendo que tenho um fim,
Não preciso dum profundo
Propósito, sou céptico, no fundo
Um descrente d’tudo, onde
Tod’agente outra m’acontece
Com espontaneidade, se digo
Que fui então eu sou sem
Dúvida quem o outro já foi,
Sou naturalmente Íntimo e
Próximo d’quem me confesso,
Um desconfigurado original,
Ouso dizer coisas sem fim
Nem meio, sem jugular
Nem conteúdo inédito,chato
Monocordo até no pensar,
Acordo com a sensação
De continuar dormindo
E quando durmo tod’uma
Nação me pertence, assim
Pudesse olhar-me d’frente
Eu, sonho esquecido entre
Mim e eu, verdade falsa
Aquela em que toco e olho
P’la minh’alma sem vigia,
Pensando ver um mar a sério,
Mar sem fundo nem margens,
Minha realidade é ar, não
Dest’mas d’outro esquecido
Reino sem rei, reinado, amantes
Submissas mas sem vassalagem.
Assim me foi proposto, minha
Coroa, meu Ceptro que não uso
Por fidelidade a um outro
Monarca e Rei deposto
Sen’glória, cuja sombra s/historia
É sem dúvida a minha,
Me espezinha, me retalha
Na cara, nos braços pernas
Corpo e flancos.
Jorge Santos( 21 Novembro 2023)
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Comentários (4)
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nilza_azzi
2019-08-22
É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.
namastibet
2019-01-09
obrigado a todos que me leram
ricardoc
2018-04-23
Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.
131992
2017-10-26
muito intenso seus poemas, adorei.
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