Lista de Poemas
A essência do uso é o abuso,

A essência do uso é o abuso,
O atributo é insignificante, real
É a ideia e o curso dos meus
Sonhos, não a utilidade nem “o ser”,
Sabendo que tenho um fim,
Não preciso dum profundo
Propósito, sou céptico, no fundo
Um descrente d’tudo, onde
Tod’agente outra m’acontece
Com espontaneidade, se digo
Que fui então eu sou sem
Dúvida quem o outro já foi,
Sou naturalmente Íntimo e
Próximo d’quem me confesso,
Um desconfigurado original,
Ouso dizer coisas sem fim
Nem meio, sem jugular
Nem conteúdo inédito,chato
Monocordo até no pensar,
Acordo com a sensação
De continuar dormindo
E quando durmo tod’uma
Nação me pertence, assim
Pudesse olhar-me d’frente
Eu, sonho esquecido entre
Mim e eu, verdade falsa
Aquela em que toco e olho
P’la minh’alma sem vigia,
Pensando ver um mar a sério,
Mar sem fundo nem margens,
Minha realidade é ar, não
Dest’mas d’outro esquecido
Reino sem rei, reinado, amantes
Submissas mas sem vassalagem.
Assim me foi proposto, minha
Coroa, meu Ceptro que não uso
Por fidelidade a um outro
Monarca e Rei deposto
Sen’glória, cuja sombra s/historia
É sem dúvida a minha,
Me espezinha, me retalha
Na cara, nos braços pernas
Corpo e flancos.
Jorge Santos( 21 Novembro 2023)
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👁️ 137
Cada passo que dou

Cada passo que dou, uma cruz,
A negação é o meu hemisfério,
Misturo delírio e discurso de guerra,
Como fosse o mundo inteiro,
Inteiramente novo, “a sério”,
Sem qualquer relevo clínico,
Cem planícies planas em roda,
Cada passo me dói, igual outro
E outros mil, meço-os p’lo meu
Passar e p’lo que fica pra ficar,
Parado e em ponto de cruz,
Cada passo que dou, não me
Avança, apenas atrasa, traçado
De outra e outra vez, em viés
Ou em movimento d’pendulo,
Enviesado e manso, sem peso
Ou luz, desejo parido na alma,
Que a gente perde de alcançar,
Cada passo damos completa,
Uma pirueta e a impressão
De cadência que sentimos,
Nas pernas, passando uma p’la
Outra, parecendo tocar-se ,
Podendo ser outra coisa, a julgar
P’lo que deixei de viver em
Cada passo que dei, ponto d’cruz
Sem pés. Cada passo que dou,
Uma f’rida “ao tempo”, breve
E um novo sentido para uma vida
Que fede, e que é definido
P’los passos que não dou. O sucesso
Não é aquilo que parece “servir
À partida”, antes uma maldição
Pedestre, o “perder de vista”,
Numa suave, mal parida mentira,
Dos sentidos de General em greve.
Joel Matos (Fevereiro 2023)
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👁️ 117
A dança continua

A dança continua,
A poesia não morre,
“Nem que a matem”,
Contudo pode ser f’rida
De morte durante o sono,
Com uma bala de prata,
Ou uma vulgar estaca
No lugar do coração,
Tal como faca de abate,
Sem gume, mal afiada.
Desfigurada no rosto,
Sob a máscara da morte,
Não deixará de sair dela
Meu paliativo, minha culpa
De ferimentos, graves
Golpes e da vulgar cura
“Do costume”, não punitiva
Mas bonita na forma prenha
De copo, taça ou de cálice,
Gamo negro, gazela fêmea, fonte
De bruma, poesia não morre,
Não se abate, nem se encosta
À parede, não se consome,
Com os músculos da face, nos
Gestos do rosto redor dos ossos
Considerados breves, brancos
Como ermitas em mármore e aço.
Poesia não morre, “nem que
A matem”.
Jorge Santos ( Fevereiro 2023)
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👁️ 120
Do que tenho dito …

Do que tenho dito …
Assim não é viver,
Como girassóis desfiando
O Sol desd’o começo ao início,
Até não haver mais postiço céu
Ou horizonte branco cor d’visco,
Assim não é viver,
Mistura chão de terra
Com desejo e esperança desfraldada
Mas banal, aliança absoluta
Humana de facto, desperdício
Ter do que os outros têm
Tido, o mesmo suposto
Inútil, o fútil vulgar vício fictício,
O incontido, o mestiço pensamento
D’ametade, do que tenho dito …
“Sem contar da’verdade”,
Duvido dos rins, do fígado
E, como vinha dizendo
Do umbigo que me alberga
Não totalmente, mas “en’parte”.
Viver não é visto como a natureza
Das coisas violentas, terríveis
Mas do seu lado atraente e belo
De paixões emotivas, medidas
Do quadril à garganta.
Joel Matos (Dezembro 2022)
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👁️ 145
São como nossas as lágrimas

São como nossas, as lágrimas,
São como gente, as nossas lágrimas
Lentes criadas de inevitável, esculpidas
Em vida, em almas são, como só elas
Levitáveis, entre o fim e o todo, entre
Mim e o fundo de mim próprio, serão
Sensações conscientes como são sempre,
Ou a promessa frágil de quem naufraga
Nas mesmas estéreis lágrimas com que
Me lavo, imundo e inviável como o mundo,
E julgo eu que se pode lá caminhar, mudar
De rumo, afundar rente ao porto, comum
Na muralha da minha dividida atenção.
São como nossas as lágrimas dos outros,
Acima da linha dos ombros, sonhos serão
Sempre sonhos, cardeais fidalgos, pontos
Finais, parágrafos de uma aristocracia
Parada e fria, assim como o brilho de
Um farol distante e a maresia do mar
Pouco amigo, indiferente digo eu fechando
Os olhos e perdendo a realidade concreta
No que digo ou no que sou “levado-a-ver”,
Nas lavradas lágrimas dos outros.
Joel Matos (Março 2023)
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👁️ 114
Se eu fosse eu

Se não fosse eu,
Sentiria a sensação de ser outro,
Dando a possibilidade de eu não ser
Dono d’minha veracidade, em ter
Um modo inconsciente d’mim, eu
Mesmo baço d’trás da minha vista,
Dos meus olhos, interior anexo
Da minha cabeça sobretudo curva
No que pensa acerca do Mundo,
Da realidade real, independente
De outra onde afirma ser eu outro
De corpo ausente, embora ainda
Pressinta não ter paralelo do lado
Real, inda que me esforce por ser
Eu mesmo, aqui ao lado, não doutro
Como divisão externa de ser mesmo
Eu próprio e não outro, por ordem
Diversa de vizinhança, sendo isso
Uma realidade atribuível por mim,
Não o contrário do que é suposto
Ser, eu o contexto e não o cenário,
Eu em papelão molhado, moldado
Feito à imagem e semelhança das
Coisas fáceis de moldar, em cartão
Canelado, sem verdadeira realidade
Calibrada, e real quanto a vida nunca
Poderá dar-me, nem eu me explicar
Perante mim, e muito menos face a
Todos, aos quais não partilho muito,
E muito menos a minha intimidade
Falsa, excepto dum hábil suposto,
Se eu fosse eu.
Joel Matos (15 Janeiro 2023)
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👁️ 107
No meu espírito chove sempre,

No meu espírito chove sempre,
E justamente como eu quero,
Chuva triste, anónima a chuva,
Anónimo eu, será que existo nela
Ou ela entre mim e eu. Há um fosso
Cavado e eu parado, curvado
Assomo o poço, aceno, sou eu
Por debaixo no rosto da lua feia
No escuso fundo, meu futuro
Uma nau, pavio apagado, navio
Sem pavilhão sem passado, porto
De abrigo sob estandarte inimigo.
No meu espírito sempre choveu,
Chuva forte corpo enlameado, nu
Por fora e por dentro sem vida,
Inda um riso forçado na boca,
Contragosto em forma dúbia,
Indefinido, a ele fiquei preso,
E à dúvida de eu ser eu mesmo,
Quando me mordo ou m’belisco.
Serei deste ou dum mundo outro,
Onde eu entrei sem ser ouvido,
Ou visto a sair, voltei sem partir,
Pois serei quem sempre fui,
Desconhecido justo com’quero,
Brisa ou vento, nuvem sobre
A floresta, por debaixo quem
Me lembra acabará m’esquecendo,
Assim como um caminho rural
Mal calcado, se quer esquecido,
Por não pertencer a ninguém,
Nem vivalma mais por’í seguir,
Quem sabe, por medo …
Jorge Santos (23 Novembro 2023)
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👁️ 137
Maldade
Maldade,
E o quanto me basta essa,
Que ao preservá-la, sinto-a
Verdadeiramente minha,
Fracamente mau, eu que
Habito num pretenso, falso
Ermita s/instituição herança,
E o quanto isso me basta
Pra descrever sen’detalhes
Dest’outra tensa viagem,
Ao longo de mim mesmo,
Da minha vaidade viária,
Na verdade uma criatura
Maldosa que por s’colha
Sou, mau quanto escura
É maldade na Naja preta,
O ferrão da fulva Vespa
Asiática com tod’a fúria
Que o instinto possa ter,
È quanto me basta, essa
Gula a magnânimo canalha
Magnífico e inclemente,
Não por “dá cá aquela
Palha” nem sequer por
Um qualquer delírio de
Grandeza, polui espíritos
Quer a anjos ou demónios
Mas a maldade suprema
Real com vulto e relevo
Eternos, em cabelo, sem
Requintes falsos, sou eu
Esse, esse é o meu mal,
A minha distinção, o “Graal”
Santo, a excelência Maior
Em todo o horrível esplendor
De crueldade que de mim
Advém e em mim tenho.
Joel Matos ( Novembro 2022)
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👁️ 133
Não entortem meu sorriso,

Não m’entortem o sorriso,
Nem me apontem os braços,
Não anotem os riscos,
Traços são riscos marcados,
Que as letras são acção,
Respiram como qualquer um,
Por um par de narinas, “ventas”
Possuem graça,
Fantasias, intenções
Traçadas, caudas cujo lagarto fugiu,
Autoestradas, calculo e áreas.
Não anotem os traços,
Traços são riscos espaçados,
Partindo ar e céu,
Entre tu e tu e eu,
Vêm a mim e saem,
De manso como fossem
Almas de anjos, diabos
Os traços, vesgos como traças,
Percevejos perante luz intensa,
Não apontem os riscos
Que traço sem esquadria
Com o chão,
A s’quadria dos ombros,
Impede-me que volte a cabeça
Ou que olhe pro umbigo,
Pra ver onde foi parar o chão.
É na esquadria dos ombros
Que corro asfixiado pelo fato
Que talhei na linha do solo,
De costas e paralelo a mim.
Não apontem os braços,
Sendo, são o que separa
O inacabado do incompleto
Aquilo que arrisco em memória
Da dobra do cotovelo,
Poiso do que possuo, intenção …
Sobejo despeito.
Joel Matos (21 Junho 2022)
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👁️ 133
“Mea Culpa”

É possível ler na paisagem urbana
Aquilo que é difícil, impossível ver
No meu rosto, o esgar sem esforço
Que nem todos entendem, provo a
Loucura a trepar por igrejas frias, nuas
Pra ver o tísico universo, paciente
Responder a um cego mudo brando,
Eu sou o resultado de algo que nego,
Consequente à minha própria
Inconsequência mecânica,
Por conseguinte exponho na pele
E exponencio na consciência sobretudo
O privilégio régio, magnânimo
Como se fosse vício, delinquência
Galga, quiçá consciente a noção do crime
De pungente mea-culpa,
O aborto métrico, sintético,
O desacato mental genérico,
O pensar mais baixo, mais rude, mais duro,
Resinoso, oscilante e menos pragmático,
Eu sou o mau exemplo, o mau futuro
De tudo aquilo que julgam acerca,
A insanidade mental perfeita,
Com mais defeitos que qualidades,
O pé de atleta, o carbúnculo, o seboso,
O obstetra cego, o nado morto, o gordo,
O gago, enfim o geneticamente cru e cruel,
O amargo na boca, o rabo torto da porca …
Jorge Santos (06/2022)
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👁️ 157
Comentários (4)
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nilza_azzi
2019-08-22
É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.
namastibet
2019-01-09
obrigado a todos que me leram
ricardoc
2018-04-23
Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.
131992
2017-10-26
muito intenso seus poemas, adorei.