Lista de Poemas
Doa a quem doa, o doer …

Doa a quem doa, o doer
Diz-se que quem não se sente – “não é boa gente”, gente não sou, nem de bons costumes nem excessivamente afeiçoado a ditados populares, ditaduras impopulares, sentimentos ousados, rosados ou pintados, mas sei que convivo com uma pitoresca “popularesca” francamente insensível, má soldadesca de rede social em part-time, de chiqueiro … esta. O que aparentemente não me valoriza nem me perdoa, apenas me desgasta, emporcalha, por outro lado inspira-me, pois tudo quanto não nos mata, enfatiza-nos, valoriza-nos. Sou um respeitoso desdenhador, mas também desenhador de notações fálicas, enfáticas e acima de tudo sou pouco simpático de cara, sorumbático de rosto, embora afável no que diz respeito a relações cutâneas externas e extremas, tendo em conta que a espontaneidade e o gosto, estão para a escrita, mesmo a fictícia quanto a sensibilidade na formatação do carácter e na cara, na cor que escolhemos e que vestimos para sair à rua logo de manhãzinha cedo, o tom das pantufas de quarto por exemplo.
Não creio que importe a forma exacta, realista como expomos a nossa intencionalidade e racionalidade, não somos tímidas iguanas paralíticas, seguimos o impulso parasitário, eu por exemplo detesto a inercia e a reles insignificância frásica, mas acima de tudo a vileza e a sordidez instituídas, mexem-me com os tímpanos centrais meridionais, não que a opinião alheia me interesse ou gratifique, estou ciente da minha fraca vantagem ou desvantagem face a muitos que não simples actores situacionistas, não há escalas de valores fiduciários na escrita, há sim uma escola de valores gerais, um poeta pode amar o amanhecer e é nessa escala, nessa trincheira que valoriza o som das palavras cheirando a mundo, a inocência das copas nas árvores das florestas, dos céus trigueiros em festa, do grafitti urbano e do alcatrão derretido e não a indecência brejeira, corriqueira do diz que disse, do fez que fez, espalhafatosos e doentios, absurdos de papo cheio, de bate papo banal, merdoso, fraldiqueiro de triste realidade social, do pretensioso dedo mindinho em riste que não no chá das cinco e trinta e cinco, há que saber esgrimir até com tijolos e pedras, mas sempre acima da linha da cintura e à altura dos olhos na testa … azuis claros.
A negação oca, gratuita, o “bullying” é inconjugável, é ácido, cancerígeno e gera metástases, sofrimento, é criminoso na intenção dolosa, doentia de quebrar o que de mais divino possuímos, a autoestima básica, tão importante para todo e qualquer individuo, actuando patologicamente, doentiamente onde se supõe que se albergam as nossas resolutas sensações de individualidade.
A usurpação do orgulho individual e da autoimagem, da autoestima, apenas poderá dar prazer a um ser ordinário, sem identidade, a um individuo malévolo, a alguém profundamente doente, à imitação de qualquer carcereiro, carrasco algoz de Auschwitz, Treblinka tendo um orgasmo e uma ereção, à medida que despe e tosquia meninas virgens para as colocar no forno crematório, no churrasco, ainda em vida. Há metáforas menos reais e felizmente mais felizes que esta na nossa pouco integra imaginação, nos recantos sórdidos das nossas loucas, conscientes congeminações de bestas de carga, de animais de charrua, de feias carantonhas de proa, onde vamos buscar e rebuscar a nossa realidade oca, ultra sedimentária e a outra, nua magra e crua.
Doa a quem doa, o doer sem privilégio de negociação frouxa, manca ou inválida …
Jorge Santos (Novembro 2022)
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👁️ 19
Do que eu sofro

Do que eu sofro
Eu sofro da patologia cósmica dos gansos,
Sou como o mundo pois serei
O que sempre fui e sei apenas
Ser, inflexível insubordinado, fulano gasto,
Pardo até no papel em que manso me sinto
Por imposição forçado a ser, ou eu
Mesmo ou um outro, senão o maior, mais básico
Engano entre mim e eu próprio,
Por vezes odeio-me sem ter muita
Consciência disso ou o espírito crítico
De que abdiquei e que me assola, assusta
D’novo como fosse ess’outra alma
Minha, alheia deste mundo, a mola e a bainha,
Embora vivas, fundas obscuras, sem
A definição simples que damos a esta
Vida escalavrada, vivida d’dentro pra fora,
Razoável, de minguas escolhas, migalhas.
Mas tudo isso é um “aparte”, pois no mínimo
Eu sofro de patologia própria, crónica
Tal como o louco que não sabe, supõe
O mal que sofre ao sábado, sendo
Domingo ou então feriado municipal, dia santo
Ou de ramos, convencido d’estar
Calçado, investido de caminhante
E nu, descalço num precipício ou no fio da navalha,
O que eu sofro é um vício manco que
Me causa dissabores nos rins e
Na vesícula me arde, quebro o nariz
Na ressaca porque sim, dor e medo
Fazem parte de quem ainda há em
Mim mas tampouco o relembro, inflexível
Insubordinado, sem cura ou pouca …
Joel Matos (Outubro 2022)
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👁️ 152
Eis a Glande

Eis a glande
Eis a inflamada, a grande e mais infame raiva d’sempre,
As pedras de calçada podem nem ter nome, religião,
Trás ou frente mas possuem cólera tal como gente,
raiva, não fingem ser cegas, são cegas, mesmo cegas
Por profissão, fé, seja o que for, dois olhos sem nascença
Nem descendência de nobre infante, eis a glande vesga,
Pedra polmes branda, branca igual a cal da sé na parede,
Eis a grande confissão do pároco, a farsa do confidente,
Recluso de batina frouxa assim como essa coisa ruim, roxa
Que é a benção ou o perdão que espaço não tem em mim,
Caso perdoasse alguém não seria ao espirito Santo, eis a séria,
A grande, a maior hipocrisia de sempre, a mágoa de haver
Sido Santo ou Pai sem sentido de estado, a humilhação
Dos mansos no primeiro acto, como um reprovável revólver
Apontado à cabeça, a quem chamaremos de Deus para
Vigiar as portas da reitoria, as sombras veladas, a boca
Fechada e a glande inflamada dum frade sem forma,
Eis a grande farsa, nunca uma vara direita uniu dois
Pontos opostos, o servo e o dono da cela, o manso
E o jactante, sete pedras curvas e grossas numa mão …
Joel Matos ( Janeiro 2022)
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👁️ 150
(Não hei, porque não tento)

(Não hei, porque não tento)
Coragem,
Não te-hei, porque não te tento,
E eu tenho do que não há, tendo
Não me-hei, porque não entendo
A mim mesmo, embora eu tente
Ter tanto mais do que não tenho,
De entendimento, ou de humano
O receio pelo que nem tento criar
Novo, invulgar, arrojado-corajoso,
Não me-hei porque não me tento
Ou não tenho voracidade, talento
Habilidade, equilíbrio de acrobata
Circense, “lata” vulgar pr’afirmar
Que possuo um pouco por’engano,
Temendo jamais ter valor qualquer
Coisa d’que penso escrevo a índigo
(Não sei, porque nem pouco tento)
Daqui prá frente não falarei d’mim
Mas d’outros, dos bravos da força
“bravo” dos quais eu sou desertor,
Embora não m’considere covarde
Fraco, ou gordo frouxo, que acuse
De crueldade as dores de ouvido,
Ou o ruído do público que pateia,
Finalmente da plateia ao 3º balcão,
Confundem porventura abdicação,
Com falta d’argumento, manifesto
De pura ficção e o actor complexo,
Versus alucinação, lucidez integral
Mas desconecta, descrentes são em
Maior número, não sei porque tento
Trocar o tom na escrita pela dúvida
Indiscutível e essa sim, só minha
Valente e meia, a mística dos deuses
É dita e escrita a forte, encardida
E em índigo, imunda, indigna e feia …
(Não a hei porque não a tento)
Jorge Santos (Novembro 2022)
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👁️ 86
Meu mar eu sou

Teu mar eu sou, igual a ti
Jogo em bruto parábolas dentro, no fundo
Dou ao mar a dor a meias, sou/nasci
Da solidão q’vem em rocha e cisão
Dentro dele, no cais das
Redes de há-de-mar-sem-rumo
De-haver mar, vou ou fujo sério
Se mar cão houver, não vou.
Sou quem de mar sujo
Se veste, cego eu jogo e afundo
Palavras nele, o voo
Me devolve ao mar, fuga
Ou paixão ou só mar, em volta
Mar sou, blindado peixe morto
Do mais profundo e negro/gordo
Que ianque vão/ingrato, porco
E desse outro modo que não eu,
Eu meu mar sou e a falta
Me sabe a sal a meu o mundo,
Mal é ter gaivotas algas pretas, gosto
Na língua de orar, ciumenta a
Areia quando me peso de ideias cheio
Do que do mar é mar caiado
E meu, me falta murar o que penso
A mar e em volta e eu cayac, infame a
Perca de mar lavado, impresso
Meu berço a sal embalado … exilado
Embala-o as ondas vagas largas,
Meu medo a ser lavado em falso,
Hoje amanhã cedo, trovão galgo
Quando do mar, grego o fogo,
O cenário da guerra, óleo sujo e a terra,
Vermelho azul “inhaque”, cimento
Ou o branco escorço da proa
Lança, “bivoac” ou chapéu canário
De palha aceso e eu ingrato, inchado
Descanso no mar que aqueceu, acendeu
Inflamado o mar Egeu, amargo de
Cianeto, castrado o Santo, o Sapo
E os Infantes prisioneiros das balsas
Dos servis, jangadas de Pedra e ossos…
Jorge Santos (Março 2022)
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👁️ 166
Incêndio é uma palavra galga

Incêndio é uma palavra gasta
Mas que permanece, pelo que
Devemos limitar as horas da cólera
Ao fora delas, como coisas graves
Que se rejeitam, a respeito
De labaredas, estas não me
Dizem nada, crepitam apenas,
Os outros sentidos, tão carnais
Quanto basta no que me toca,
Incêndio uma palavra banal, falsa
Quando morta de grandeza
E de facto palha, faísca acesa
Incenso, papel jornal centelha,
Nada me dizem apenas indicam
Estados de alma, movimentam
Os lábios, “um-tudo-nada” chamado
Desassossego, Inquietação detrás
Prá frente, enredo ficção em negro,
Incêndio é uma palavra, basta descer
Os olhos pra ignorar da narrativa
A linhagem que simula e a facilidade
Do fogo na origem do mundo, eu me
Expresso pela vista, nunca pelas
Paixões que me dão vida, assim como
O fogo eterno é solene, permanece
Como que passando por mim mil
Vezes sem que me cure do prazer
Que é estar vivo, talvez a última
Versão seja essa, dar a outros ilusão
De ter na alma verdes labaredas
E no coração os mortais desejos
De quem dorme quieto, assim como
Uma vela acesa ou o silêncio branco,
Incerto e sem os galgos argumentos
Possuídos por todos e tantos outros
Cegos…
Jorge Santos (Janeiro 2022)
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👁️ 117
Do avesso

Do avesso
Uma aldeia, (que de roupa ela me vista), o fogo
Leva-me da raiz da minha vista “ao monte” travesso,
Sopra-me a inquietação dessa ideia de xisto negro
E poejo, onde o pensar é cego, o beijo longo, longo
E o meu olhar, um legado alado, logro é engano
Como tudo o que e em que me revisto, sangro
Da roupa que’en minh’aldeia é ser gente, o dote
È o sossego de sonhar acordando e vendo o ontem,
Com olhos “à maneira que os ponho” alavancados,
Elevam-me da raiz à minha origem de congro,
À minha infância de recato e regato, o ombro tolerante
Nas fontes, em frente do mato bravo o verde manso,
Da ponte fluvial à velha guarita, do alto monte, do corgo
Ao calvo escombro ardido, mais que poema ou esforço
È o meu grito rouco, a dor de ter perdido meu rosto,
A aldeia, o burel de que me vestia completo desd’o berço,
Parido descaço, colado à via que havia, escura sinistra,
Menor o grau da escada que a cansada estrada, desafio-a
Já que César nunca serei, eu fui das minhas sensações
O próprio veneno, campos rústicos de trigo, o umbigo
Do que havia plantado há apenas alguns dias, humilde
O milho sem proprietário dono, erva daninha è trigo
Triste e a minha aldeia não existe senão na ideia que dela
Um dia tive, ao virar meu coração de cima abaixo
E do avesso … cantando encantado.
Joel Matos ( Setembro 2022)
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👁️ 169
Restolho Ardido…

Será na morte que os Homens se distinguem
Dos indistintos e de todas as vidas de causas
Poucas, indivisas quanto o espaço é apenas
Ígneo ou aço, d’resto é corpo ao rés do vidro
Baço, essa sim a perfeita realidade e o “para
Sempre” quando incendiado, será obra d’arte
Alusiva aos que nunca foram ou serão apenas
Corpos retidos na Terra, imortais etéreos
E extensos são os que se distinguem nos dedos
Das impressões e nos cotos, no esgar do s’tranho
Rosto revestid’a loucura e a desassossego, comum
Restolho é fogo posto, assim girassóis no verão,
Será na morte que se distinguem os Homens
Que despertam per’si próprios na obesa forma de
Ferozes criaturas, perigosas Anacondas do mato,
Tubarões do mar alto, Furões Centopeias Descalças
Por castidade volumétrica ou paridade geométrica
Nos ângulos catetos, o esboço que define a valia do
Posteriormente sobre a do fundo dum antigo fosso
Quantas vezes mais casto que enganoso o lodo
Ou o logro do entrudo que a verdade velhaca,
Quantas vezes ancoreta mais vil e gasto decomposto
Que marujo Malaio, sabujo e pé sujo-de-asceta,
Polichinelo de modo algum seria Arauto, Cavaleiro
Real da corte ou Escudeiro de Sua visigótica Alteza,
O Bobo todavia é realmente quem é, sem engodo,
Enganosa a majestade, soberanode caráter minúsculo,
Sem testículos nem barba farta, é uma afronta chamar
Dádiva Legitimidade divina, ao roubo, ao calote
À má fé “Generala” num Império de aroma Medievo
E pés-de-galinha, metal fedendo a má consciência.
Parsifal é o herói da gesta e Atenas caiu anteontem
Em ruínas, rest’o teatro dos parêntesis, o uniforme
De Wagner plissado, o palco, o que finge por grosso
A razão que não há em tudo, até no restolho avaro,
Ardido e pisado, o chão, o fosso, o fraco, o coxo.
Joel Matos (23 Junho 2022)
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👁️ 139
Espírito de andante ...

Espírito de andante
Aconteceu em Cuba e o que sucede em Cuba por lá “se queda”, sem remorso, culpa ou ideologia reformulada, desenrola-se não muito depois do rescaldo da crise dos mísseis da mesma ilha e em resposta à instalação de armas nucleares na Turquia, Inglaterra e Itália em Abril/Maio de 61, foi no início duma jornada Juvenil da Internacional Socialista, ainda me encontrava hospedado em Habana, no núcleo das “Comissiones Obreras”, daí partiria para a segunda maior cidade de Cuba, Santiago, na qual representei o Movimento de Esquerda Juvenil, pimpolho de lenço vermelho ao pescoço como mais dois camaradas “de armas” da recém criada Juventude Comunista, nessa altura acompanhava-nos como não podia deixar de ser, devido à nossa pouca idade e experiência revolucionária, um saudoso “Pai” Cunhal, bem mais velho ou antes “avô” político e o falecido muito recentemente, com 101 anos de prestável juventude, Jaime Serra, em nome da comissão política do comité central e posterior Co/fundador do MDP/CDE, movimento precursor do futuro Bloco de Esquerda, com o José Manuel Tengarrinha, nesse tempo ainda membro do Partido Comunista Português, assim como posteriormente o compositor António Vitorino de Almeida, mais tarde ele candidato à Presidência da Republica Portuguesa. Podia sentir que vinha uma tempestade a caminho, o céu estava fumado a negro cor de chumbo, as aves procuravam abrigo nos velhos beirais, o cheiro inconfundível a ozono estava por todo o lado, na pele e mesmo no quarto sujo desarrumado, antiquado e com vista privilegiada para um Mar das Caraíbas cor de Cobalto enegrecido e negro, com gaivotas gritando no parapeito na tentativa de entrarem pelo quarto adentro sem demora e de qualquer jeito, lembrei uma pensão que havia na vila alentejana onde nasci, Grândola – Vila Morena, embora longe do mar ouvia-se nos búzios, encostando ao ouvido o ar que do mar trazia o ruído das ondas, era a “Pensão Fim do Mundo”, mais tarde num segundo ou terceiro encontro furtuito e mais demorado, haveria de contar ao Luís esta sensação de fim do mundo que senti em Havana e que caberia “que nem uma luva” para descrever a solidão da Patagónia Austral Chilena.
Luís Sepúlveda não fazia parte deste encontro de ideologia Marxista, já nessa época era dissidente dos ideais Comunistas, ombreei por acaso com o escritor num lobregue boteco em Habana, na mesma praça onde Trotsky, no exílio teria passeado com os seus podengos no entender de uns quantos, ou galgos segundo alguns outros, cortei-lhe o passo pouco antes do autocarro que se haveria de atrasar um pouco na partida para a outra urbe onde se realizaria o Congresso, olhou-me demoradamente por alguns segundos como se quisesse revelar algum segredo guardado no interior dos fundos olhos cinzentos/verdes, destacava-se pelo porte imponente, de certa forma autoritário mas manso, dir-se-ia de um Escobar magnífico e pacifista, penso que por esse tempo ainda era amigo pessoal de Fidel Castro embora fosse considerado “persona non grata” da “Nomenklatura” Bolchevique ainda vigente e vicejante na URSS, já o conhecia, de capa e conteúdo, pelas “crónicas de Pedro Nadie”, um dos primeiros livros deste apaixonante autor, notável pela simplicidade pungente, realista que imprimia nos contos que escrevia, limite-me a cumprimentar com um leve aceno de cabeça a que ele respondeu educadamente na mesma maneira, quando me sentei, no lugar da mesa corrida que esta ocupara antes, reparei que tinha esquecido um manuscrito, O fim da historia, “El Fin De la Historia”como vi pela capa, tentei devolvê-lo numa rápida corrida porta fora do bar, mas sem sucesso, havia desaparecido do alcance e da minha visão. Mais tarde, no regresso, devorei aquele manuscrito antes de o devolver ao editor e o que para mim seria a obra prima do escritor, o Patagónia Express, adquiri-o ali mesmo, no “hall” de entrada do hotel (foi a minha passagem, o meu bilhete privilegiado de peregrino Andino e em primeira classe para uma aventura austral sobre duas rodas, uma quimera qual viria a encenar algumas décadas mais tarde e que terminou menos mal em Ushuaia, desde Santiago Do Chile pela jamais inacabada Via Austral Andina) lembro-me tão bem como fosse ontem, li-o de uma assentada, em Castelhano, sem bocejar, no cair da noite, o livro era curto, cabia na mão meia aberta, enquanto repousava no outro braço a cabeça, ao varandim das antigas e mutiladas Cortes de Espanha em Quito, transformadas séculos depois em hotel decadente e em que ele descrevia, sentado naquele mesmo balcão sujo e branco, com esmero caracteristico de bom observador a Plaza Grande ou “Plaza de La Independência” de Quito, tão real que quase me entrava pelo olhos dentro enquanto assistia aos grupos de musica tradicional e carteiristas “surripiando” imodestamente e à pouca luz, pobres e incautos “campezinos” que se aglomeravam ingénuos perante músicos quiçá cumplices de faina. Encontrei-o posteriormente por sorte, penso que por volta da primavera de 1988 ou 89 numa aldeia remota, parada no tempo, nas chamadas terras Altas Andinas, em Unt Pastaza ou em Nankauk, não lembro muito bem qual delas, porventura ainda hoje habitadas pelos indómitos guerreiros Shuaras ou Achuaras, Jívaros como habitualmente chamados e famosos pela tradição ritual de encolhimento de cabeças como troféu de guerra. Entretanto este autor e de certa forma já o considerava quase um amigo de longa data ou jornada, escrevia outro inequivocamente belo romance, Do Velho que lia Romances de Amor, ficcionado na floresta húmida e de conteúdo magistral de muito bem descrito, talvez nem tanto como Gabriel Garcia Marques a pintalga de místicos e significantes sombreados nos Cem anos de Solidão mas com mérito também de mestria e de quem comunga um espaço e uma região inspiradora e inigualável como esta, um bem comum da humanidade em tons verdes e em sons benignos.
Bebíamos todas as monótonas tardes como num ritual mágico inspirador, a formosa “Caxiri” e a “Ayahuasca” pura, vinho da alma ou “cipó de morto”, bebidas que permitem o acesso ao mundo sobrenatural dos mortos, durante o qual nos transformávamos em “entidades sobrenaturais”, presentes na cosmologia indígena. O povo da aldeia chamava-nos de Apaches ou estrangeiros, há coisas que não se esquecem, a personalidade galante e magnética com o contraste agreste e agressivo da vocação Sandinista deste, que me confidenciou depois de algumas semanas de contacto diário nos dois meses e meio que fielmente convivemos em “Pastanza” com este povo admirável e heroico, também ele eleito de luís Sepúlveda foram uma mais valia para a minha simples existência e sem dúvida na minha produtividade como “arremedador” de outros escritores porventura mais prestáveis e eles sim verídicos pensadores, penso apenas que fui ao de leve agraciado, acarinhado de longe pelos deuses nesta minha demanda terrestre e prosaica por antigas atitudes espiritas tentando decifrar o que faço aqui e a razão simétrica que leva a desconhecer-me quanto mais aumenta em mim e por outro lado “um outro eu” de conhecimento menos empírico e que vem de dentro de mim mesmo e no meu antigo espirito de andante sem destino.
Claro que o que conto não é ficção gratuita, embora garantidamente não seja tudo – “bem-de-verdade” – e nem apenas Hoffmann e Jules Verne foram únicos a contar historias sensacionais, pitorescas fantásticas, muito pra’lém das mil e uma cenas da persa Xerazade, uma tempestade com Percas do Nilo só lembraria à Agatha Christie tendo um conto de Hoffman dado Origem ao Quebra nozes do Russo Tchaikovski , nada mais nada menos que um Camundongo cinzento cossaco e negro, um horrível ratinho feio dependendo da perspectiva e do autor, se era no Verão ou de Inverno e o Czar usava sobretudo ou casaco, mas um autor, um contista nunca pode dissociar da ficção a típica realidade dos locais por onde passa ou passou, a verdade é acima de tudo uma utopia que mentimos a nós próprios todas as noites e todos os dias nas nossas antípodas vidas, os sonhos são bem mais antigos e arcaicos que o testemunho que lhes prestamos, meros rudes contadores de histórias, simples água sem fonte ou artificio que subjugue à continuação do sonho na noite seguinte e seguintes, a nora não pode ser uma ilusão ela tem de girar e chiar como a original para que seja um pouco mais real a ficção e fique perto da origem do sonhado para que o sonhador seja um facto ficcionado, ele próprio parte dum sonho íntimo, privado e original. A LSD é em parte cerebral e outro cunho, o de um cereal granuloso, é um fungo importante para a nossa sobrevivência, convive connosco há milhares de anos, domesticámos a cevada e a glicerina, o Cocktail Molotov foi inventado com etanol, a gasolina e alcatrão, à heroína chamou-se de liberdade, aos tumultos de Paris “barricada”, a “estrada dos ossos” è mais longa do que parece vista do céu e totalmente meu o amor pelo chão que piso, o que penso do paraíso é muito pródigo de licitações ventriculares mas só a mim próprio diz respeito, não é um postulado, a rainha não terá de usar véu no cabelo ou um penteado perfeito nem chamar-se de Cleópatra, falar p’los cotovelos, três dedos de testa, “ao menos” dois membros trôpegos do mesmo lado, tropeçando no mesmo genérico e genético “calhau” de tempo em tempo, em nome de todo “o nada” e em nome do nada, mudo idiota-tolo e surdo.
Joel Matos em Abril 2022
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👁️ 178
Nunca tive facilidade d’agradecer nad’a ninguém,

Nunca tive facilidade d’agradecer nad’a ninguém,
Nem uma dor de dentes constitui pra mim
Uma aflição exagerada, sinto como um Lama
Do Tibete, não preciso agradar nem reprovo
Em absoluto, amo a tranquilidade como um recluso,
Uma obra de arte legítima, espiritual, privilegio
A intenção acima de tudo como uma cereja
Sobre um muro, coerente com o mundo
E consigo mesma, num todo a nossa substância
É igual, um resumo de matéria negra, ocultamos
Um caroço duro de roer sob a polpa lesada, a essência.
Eu nunca tive opiniões que me bastassem, no fundo
A aptidão em mim é silente, não vale quase nada
Nem interrompe o que penso assim como numa
Cidade deserta de funcionários, o silêncio também
É mudo assim como a pedra, som nenhum sai dela,
Nem o encanto é uma esquina por onde a tarde
Se evade, se esconde e eu nela, plagio o lusco-fusco
Sem pressuposto contacto físico ou um outro
Menos lícito, o assédio é uma terrível doença,
Na expressão de sentimentos cultivo a arte de
Despertar o que me incomoda, o que não acredito
Ou o que não tem solução, não quero o que não
Quero por uma questão de equilíbrio ou covardia
Perante o destino, assumo-me mercenário, por vezes
Mesmo num cenário às avessas, ao invés de cultivar
O esforço, pensá-lo sonhando – sonho-me pensando,
Pois a incapacidade de viver aparentemente cansa,
Cansa mais que viver abdicando de sentir pleno,
Caso seja uma sensação minha, um sinal de vida…
Reduzem ao mínimo as sombras vazias de conteúdo
Dos demónios da realidade que m’povoam desd’sempre …
Joel Matos ( 07 Janeiro 2022)
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Comentários (4)
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nilza_azzi
2019-08-22
É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.
namastibet
2019-01-09
obrigado a todos que me leram
ricardoc
2018-04-23
Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.
131992
2017-10-26
muito intenso seus poemas, adorei.