Lista de Poemas
Despertar é desilusão

Não há silêncio que se doe...
Não há silêncio que se doe,
Nem voz que me determine
Quanto dói o doer, contudo
Nem abafa a dor quem cala
Nem aquele que mal sente e
A fala, não há silêncio que
Se doe nem palavra que
Pague o que sinto eu, seja
O que for, alegria pode nem ser
Dor, nem liberdade terminar
Em prisão, assim sendo
O desamor é feito do mesmo
E a fé, o ódio que se derrama...
Não há silêncio que se doe
Ou amor que não se acabe
Tal como aquilo que nos une
E dá vida o ar, existe pra
Soprar nele a voz sem um
Ou outro pensarem nisso,
É o que define o sentir
Um desejo sem fronteiras
Pois sonhos são de todos
Quer se dêem que me doam
Ditos alto ou falando baixo
Não há silêncio que se doe
Nem palavra que me pague
Ter é perder possuir e não
Dar, despertar é desilusão
Embora não doa tanto a dor
Quanto este, doce me fala
Ou ouço, não há silêncio
Que termine o falar, nem dor
Que valha algo de pouco valor,
Assim acontece que me ouço a
Pensar e esqueço o desejo
Da fala, me dói o silêncio,
Falar é ilusão ... pretexto.
Joel Matos (04/2018)
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Tod’a poesia acaba em silêncio

Toda a poesia acaba em silêncio,
Porque nasci ou como morro ignoro,
Não consigo definir começo ou fim,
Ind'a assim deixo descrito o lento voo
De uma ave de pena e louça que
Dentro trago, ainda que seja desculpa
Pra não levantar voo como quereria,
Assim também a mim ele me mente
Tal como um objecto abandonado
Sem vontade dentro, assim me sinto,
Preso aos sapatos e ao ponderável
Peso terreno, onde moro desde que
Me conheço, capaz de escutar o silêncio
De um baloiço, ver magia onde tem feitiço
De galinha morta, ouriço no meio da rua
Me lembra afago, suave tudo quanto oiço
E o silêncio num búzio lembra-me mar,
Não sei que ideia esta de mansidão,
Pedaço de espelho quebrado que mente
Cortado p'la metade, terça-parte é céu,
Tod'a poesia acaba em silêncio, o meu
Começa onde esta se cala, pois me continuo
No que não tenho, luar ou uma estrela
Tão vaga quanto o meu passar passou,
Suave quanto o que me ouço, nada
Que seja meu, imito apenas do silêncio o som,
Pois o céu é na Terra e o quem sou
Não interessa, pena, louça e culpa ...
Joel Matos (03/2018)
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👁️ 457
Cedo serei, sou …

Por vezes não sei
Por onde ando, se no campo da batalha
Onde quem não m'lembra sou
Ou aonde crês tu ser agente secreto
Do que passa e passou - sem se mover,
Crês tu poeta ser, convence-te
Que a lembrança é passar e ver,
Convém ser o que passou pra ser,
Pra que fique do que penso o que sou
E pra que me lembres poeta, ou
Vento sendo, sou poeta, improfícuo
Eu sou, és tu meu solo infértil ou não,
Comecei cedo sendo faúlha,
Agora sou vento, bravio como convém,
Cedo serei mais além que desta vida,
Às vezes sou nem lembro o quê ou quem,
Entender-me cansa, sonhar menos,
As vezes as faúlhas queimam,
o estandarte e sujo-o de terra e hulha
Mas o vento ao passar como
Um rio, lava-me a consciência
E volto a ser criança brincando
Aos soldadinhos de chumbo,
Até rebentar outra terrível
Guerra do fogo mal apagado,
As vezes as faúlhas queimam
o estandarte e sujo-o de cinza
Eterna nos azuis montes
Por onde ando e faz frio e aí
Passo a ser eu, de novo Ivan,
Por vezes nem sei ao que vou
Preso, se à graça eterna ou apenas
Ao peso de um pedaço de carvão
E terra infértil, o artificio de um mendigo
É o instinto, em mim tão pacato
Que nem o sinto mover ou se por mim
Passou cem vezes sem duvidar que me divido,
Entre quem sou e quem nem serei ...
Joel Matos (03/2018)
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👁️ 471
Sublime, suprema arte …

Sublime, suprema arte ...
A vida é uma curta aberta
Entre tempestades, é a bonança,
No entanto cabem nela,
Todos os comuns sonhos,
E outros menos normais
De ermitas e simples gente,
Pra quem a vida é arte
Sublime, suprema, não tão
Pequena quanto a nossa,
Se é que ela existe como
Conta-corrente eu nado-morto,
Miragem no deserto,
A vida é uma curta aberta,
E eu acabo por ignorar,
As estrelas que do céu
Me vêm pouco e sem tempo
Entre as tempestade, a bonança
Entre morte e renascimento,
Quem me dera ser monge
Ou camponês, pra ter estrelas
A apontar do céu pra mim,
Mesmo na noite mais escura
Que o breu e fazer da morte,
Instante menor que vida ultra,
Sublime, suprema arte,
A vida é uma vala-comum aberta,
Por onde passam destinos
Soberbos e sobejos humanos,
Despojos desiguais, uns mais
Intensos mais nobres que de Roma,
Os centuriões guerreiros das guerras
Púnicas, outros que a gente perde
Pra morte...
Joel Matos (01/2018)
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(Busco a eternidade-num-saco-vazio)

Só basta a eternidade a mim,
Só me basta a eternidade,
Não quero ficar "pra-história",
Apenas por falar "falas-de-bruxo",
Nunca ninguém houve "em-tempos",
Nem teve por nome "chamar-se-eu-mesmo" isto,
Como eu me-chamo de-místico,
Só me basta a eternidade,
Pois que nada me é precioso demais,
Sonhar não é preciso, se o que faço é desperto,
Dormir é o paraíso, porque não dormir
Eu pra sempre,
E aquilo que sonhasse,
Fosse eterno,
Só basta a eternidade a mim,
Continuado já eu me suponho e prolongo
Nisso que digo sem esforço,
É como soltar o ar dos pulmões...
Como sentir o peso do cabelo,
Não o sinto, nem os sonhos pesam,
Penteiam-me os cabelos,
Assim a eternidade é uma condição
Que não me pesa, pois não a tenho,
Não a sinto sob a fronha,
No entanto brinca comigo
E com o meu desejo,
Só basta a eternidade,
A mim que a todo o momento morrerei
De enganos, disfarçado em dia
Que dá luz a tudo e até aos ombros
E aos passos que dei,
Acima de tudo sabendo
Que um dia morrerei, como tudo
Que se parte e se foi,
É isso que os poetas tendem
A ser, parecidos ou iguais ao que flui,
O que me resta é guardar o tempo
Bem dentro, assim como uma flor seca
Se guarda num livro que não se lê,
Soltar o ar e seguir o vento,
Pra parte alguma,
Quanto basta pra ser eterno ...
(Busco a eternidade-num-saco-vazio)
Jorge Santos(01/2018)
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👁️ 674
(Meu reino é um prado morto)

A minha mão não cobre o mundo todo,
Mas a sombra assusta os passageiros
Viajantes que no meu albergue entram,
Venho de candeio na mão... bruxuleando,
Apetece-me também eu partir quando chove
Mas dita o destino,-de que não sou dono-
Criar bem dentro uma espécie de abismo
Tutelado por uma outra dimensão de mim próprio,
Sonho de que sou eu mesmo a quem
Obedece a trovoada e o mar oceano
Revolto, acordo com a serenidade de um seixo
Que tem qualquer outra pessoa sem ter rosto,
Igual a eles em tudo e até a morte receio,
Sobretudo eu, de que serve ser do sonho
Autoridade ou rei príncipe se não mando
Sequer nos vencidos, tanto quanto eu sou
Quando acordo, terreno e ilucido, viajando
De noite sou rei dos bruxos, acordado sou
Insignificante baixo, seixo cego, sargo morto
Assim como tu, que não és nada nem ninguém
E nem eu encubro e luz dum todo, esta ou outra,
A ciência ou a metafísica, Venho de candeia na mão
Como se os meus pensamentos fossem
Realmente vitais p'ras dimensões que tem a Terra
No universo, às vezes deixo-me possuír
P'lo logro, outro modo de ser quem sou
E sonho que posso içar palavras em tribuna
Alta, adaptada a mim mesmo e acender a vela,
Como se tivesse atravessado eu um braseiro
Agnóstico e místico, sem rosto pra que me esqueçam,
Apenas sussurro e arvoredo, venho de candeio na mão,
Cedo é e a paisagem o desenho geométrico mais antigo
Do mundo, eu pra o abrir, cego descubro que
(meu reino é um prado morto)
Joel Matos (01/2018)
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👁️ 622
Finjo compreender os outros …

Finjo compreender os outros
Sobretudo os mortos, minha memória
Tanto faz lembrarem quando me for,
Se nada fiz de bom a ninguém,
Nem a mim tampouco, indiferente
Ao circo, a indiferença é um cinzel
Que me iguala aos outros nos cantos,
Reduz arestas, sobretudo aos mortos
Das campas rasas como estas daqui,
chuva é detergente, erva não cresce,
Finjo entender dos outros sobretudo
A poesia, não faço parte do publico
Fraudulento estragado, não me apraz
Ser enterrado no vão de um buraco
Feito no chão, igual aos outros mortos,
Aos quais o inútil não destrói, a mim
Me dói tanto que me transforma em
Lívido, eu que era do tom das alvoradas,
De total silencio, de quando tudo é mudo,
Finjo compreender os outros qb,
Sobretudo os mortos da praça Camões,
Do numero dez em diante, incenso branco
Sentimento de culto, Pascoaes,
Finjo compreender nos outros,
O comum comigo no exterior,
Olhos e ouvidos, o resto são males de sono,
Tão brancos, breves quanto alucinações
De louco, fujo de compreender isso
Quase tudo, sobretudo nos poetas mortos
Despidos da matéria, sonho o absoluto
Em quadrantes de sombra e lua,
Imortal a poeira antes de ser ouro puro,
Tudo o resto males e marés de esforço,
Olhos e ouvidos comuns a um umbigo
Dos outros comigo...
Finjo compreender outros, esses.
Joel Matos (09/2017)
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👁️ 790
A dor é púrpura …

(A dor é púrpura, não ...)
A dor é púrpura, e
O que me doi é
A imensidão, sei
"De cór" a tristeza,
Não vejo o fim à
Dor nem à culpa,
Não creias em mim,
A dor nem púrpura é
Nem eu o tal "poeta"
Que possas chorar,
Se nem conheço
O original a preto
E branco ou vermelho
Sangue e o orvalho
Apenas seca
Quando as folhas
Debotam o chão
De amarelo seco
E isso apenas eu
Sei, me dói sê-lo, sabê-lo
Me doi imenso,
A floresta púrpura,
O silencio e o eco
Não sei, nem donde vem,
Mas meu não é,
Nem é o teu,
Mas do medo
Que sempre terei,
De ouvir soprar na porta,
A oscilação do ar
No outono, a dor é pura,
Oscila entre o céu e a dura terra,
Púrpuro será meu coração,
Não sei bem, de nada serve
Saber, não o sinto bater...
-A dor é púrpura, minto ...
Joel Matos (01/2018)
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👁️ 739
Travisto-me de aplauso

Travisto-me de aplauso,
Prego aplausos, emprego
Aplausos em artes visuais,
Construo palácios com eles,
Excepto às Segundas-Feiras de cinzas,
Quando preciso alimentar
A sensibilidade em silêncio
E fazer o que deveras quero,
Ouvir o vento, basta isso,
Pra que me complete e
Contente ... ah, de palmas
Também e dessa tal gente
Despida de gestos que os
Meus são comuns lugares,
A razão porque tanto desconheço
É ver tão perto quando me penso
Barro, argila ou ferro fundido,
Travisto-me de tudo quanto do
Mundo me separa o corpo real,
Travestir-me de público ou "nu-rei",
É raro, excepto nas Sextas-Feiras Santas,
Quando a alma é mais negra e cega
Que carvão em pedra,
O que deveras quero é silencio ...
Joel Matos (01/2018)
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👁️ 589
A lucidez na loucura ou os cabelos de Berenice

( A lucidez na loucura)
Tenho pensamentos quasi'venais
Nos beiços, na língua, no queixo, em braille
Nos cotovelos, nos quasi'brancos cabelos
Com'a Berenice tem, belos...belos,
Pudesses tu vê-los,sabes... se
Soubesses do que falo, dito
Deixariam d'ter segredos,
Os maciços de nebulosas distas
Das alamedas de lata podre,
Lar das princesas feias, Ogres
Alimento infinito de orgias, vaginais
Meus sonhos de imenso e magias,
Tenho pensares tais e diversos,
Quantos os beirais das vielas sombrias,
Vagas quanto das veredas de terra greda,
As estrelas que avisto no espaço,
Pudesses vela-las tu p'las
Frestas da lona suja, verias fábulas
Dum crédulo, à luz de luz incerta,
Roto e sonhando-me do cosmos,
Mago majestoso em Terra-finda,
Vejo em tudo que brilha,
Ouro, só sal ódio e erva-minga,
Destroços de qualquer cometa,
Bairros de trolhas, imundice
Ratos, puxadas ilegais de luz
Tal e qual cabelos de Berenice,
(A lucidez na loucura)
Não passamos de minhocas,
Que brilham a preto no escuro,
Na textura do espaço/tempo,
Explica-mo-lo a ouro e sinais
De néon no vácuo que ficará
De nós depois do circo ir embora,
Erva gasta e podre, lixo
E um hino de horror à vida
Na Terra nossa gémea, dos cabelos
Verbais que Berenice tem,
Soubessem eles que, realmente
Falo da lucidez na loucura .
Jorge Santos(01/2018)
http://namastibetpoems.blogspot.com
👁️ 642
Comentários (4)
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nilza_azzi
2019-08-22
É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.
namastibet
2019-01-09
obrigado a todos que me leram
ricardoc
2018-04-23
Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.
131992
2017-10-26
muito intenso seus poemas, adorei.
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