Lista de Poemas
Ida e volta

"Ida e volta"
O mar que não tem a lua,
É real não tanto quant'eu,
Nela me vejo aquando se preenche
Em lua-grande e aí perco a dimensão
Do real da lua, que praias
Nem tem, nem areal serei eu,
Sou alguém que se esconde,
A pluma e o medo do escuro
Que presumo teve algum
Cosmonauta num fato preso,
Tanto me pesa ser súbdito
De um mundo em, que à 1ª vista,
Nada tem "que-se-diga" ser meu,
Ou só minha, quanto a maré
Da lua é, em toda a volta eu e
Só eu, um mar sem luta, ateu
O mar que não tem a lua, nem
Porto-seguro pra nau d'fumo
Em que viajo, sem ter partido
Do areal onde fundeei meu reino
Em lua-meia, defunto me acho
Mas não me sinto morto ao
Olhar na lua a porta, apenas duvido
Que me conheço se real sou,
"Ida e volta" ..."volta e ida"
Joel Matos (04/2018)
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👁️ 338
(Demente em contra-mão)

(Demente em contra-mão)
Pra mim o inferno
é onde toda'luz é rara,
Dispersa a névoa,
Suspensa no dia,
Em que tud'é pó
E no que me fizer então,
Pra mim o paraíso
é aí e só falta beber
A ira d'est'alma torda,
Que me conjura e dói,
Como o instinto aceso,
Dum louco no verão,
Pra mim o inferno
é onde me sento,
Timoneiro de cento
E um torpedeiros e penso
Se amanhã serei eu pó
Em contra-luz, eu não,
Apenas céu e vento lento,
Minh'alma sem ralho,
Bocejo de "gajo" manso,
Disperso, infeliz "à sorte"
De fruta podre e tão só...
(Demente em contra-mão)
Jorge Santos (05/2018)
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👁️ 351
Fabuloso, fictício ou fábula ...

Fabuloso, fictício ou fábula ...
Visto o que da natureza é bruma,
O mais completo que o sentir
Natural sente, é humana a outra,
Visto a que não é real na relação
Entre ambos, completamo-nos
Visto que somos natureza útera
A real, a fictícia e a fábula, todas
Duma mesma casca ou escama una,
Põe flores no meu túmulo ou não,
Nenhuma me é indiferente nem o dia.
A ilusão, visto que nem real a nobreza
Usa, nem igual o meu manto rubro,
Há-o de Sultão, magnífico mas d'ouro
Não quero que me contemplem,
Não sou tesouro pra se contemplar,
Monarca-asceta, bêbado de sarjeta,
Visto que a natureza é Brâmane
Dá toda a paz que sinto em mim
E o vazio sem nada que possa desejar,
Mais complexo que o sentir de quanto
Não, nem nunca terei de fabuloso,
Fictício ou fábula ...
Joel Matos (05/2018)
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👁️ 343
Nada me faz encanto

Nada se faz cantando
Nada acontece -a única veleidade é no que digo,
Importância -a falácia menos feliz fútil do mundo,
A felicidade -uma incongruência ilógica, falsa,
De certos loucos, nada me faz encanto,
Excepto a certeza na minha ínfima percepção de fim,
Sinto o que vejo tal como um escaravelho
Empurrando uma anónima vida passada
Como que por engano, sem cura. Ternura ou medo
São elementos consumíveis tal como um cabelo,
Um milhão de velas acesas não evita uma guerra
Nuclear tal como um prego não serve de casquilho,
Frente a frente a realidade é bizarra e bizantina
Tal como toda a liga que não se liga a nada
"Is this the end", Nada se faz cantando,nada me faz
Cantar, é um prazer que não volta, gozo não
É cura para o que sinto, baço sonho e efeito.
Apalpo o destino como num tempo outro, antes
De acabarem os Deuses, antes mesmo de haver nada,
E é com isso que lido por loucura ou medo,
Constipa-me a deslocação do ar e o mínimo
Bocejo me contenta, nada muda o que basta,
Nada se faz cantando, quando pouco falta para
O fim do mundo, acima fica o que sinto,
Já nada se faz sentindo, tudo me faz cansaço ...
(Nada faz sentido)
Jorge Santos (04/2018)
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👁️ 417
Cinza cinza ...

Cinza cinza ...
Extraio coisas tão pequenas,
Que nem ausência possuem,
Quando apenas nuvens, antes
De se integrarem no que devem
Ser e são em mim peculiares,
Assombrosas velhas/vestes, sonho
O Evereste e só de pensar o
Destruo, ao que me parece
Acanhado e estranho, despido
Tal e qual um peixe-triste,
Extraio coisas tão pequenas,
Quantas o mundo me deixe,
Ecos sem qualquer crença,
Ou semelhança no fundo
Ao sentido que se diz "ser tudo",
Meu próprio papel e embrulho,
Me convenço depois de nada ser,
Apenas ausência de claro/escuro
Que tod'a presença em mim possui,
Excepto cinza, cinza e escuro,
Nunca tive a arte da tinta fresca,
a alquimia da cor certa, estimula-me
O cinzento, embora consiga pensar
A preto nos mundos que criei, improviso,
Pinto cinza inclusive a luz do sol,
Inevitávelmente a nudez humana,
Cinza o que não me fizeram ser,
As avessas do meu ver,
Coisas tão pequenas, a repetição
Dos dias sempre iguais, a competição
De um relógio parado, com a parede
Em frente, cinza escuro.
Jorge Santos (04/2018)
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👁️ 253
Meu coração é lei

Meu coração é lei,
Só eu sei, qual a ruim lei,
Quase nem outra tem,
Meu coração sem dor
Nem boca, mas dói rindo,
Só eu sei não, o porquê
Nem o como, de tal dor,
Que não se paga por lei,
Da vontade, nem é humana,
Tanto outra, nem real esta
A seja eu sei, só eu sei,
Meu mal é ser eu e eu só
Heis o quão leal à ruim lei,
É o rei coração meu, rindo
Me dói, chorar me mata,
Só não sei se isso basta
Pra apagar a dor em mim,
Que me bata Santo ofício,
Pau, aguilhão de manada,
Corno de boi, só eu sei quanto
De mim hei-de doar ao céu,
Meu coração é lei, porque não
Pode ser outra coisa em vida,
Me dói partido, foge de mim
Quando inteiro, mata dentro
De mim quando comparo no peso
De um saco vazio ao que fui e
Sou, rindo me dói, dormindo
Me traz à memória uma perdida
Praia na foz de "Búzio-meio"...
Joel Matos (04/2018)
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👁️ 374
O triunfo dos relógios ...

O tempo,
Sempre melhor o que passou
Por mim, todos os sonhos, habituais
Profissões e talentos, familiares
Que nunca vi, pensar que vivi
É realmente um mistério e o tempo,
Sempre melhor o que passou,
Assim como a impressão de claustro
Que sempre existe no fim de cada
Cela, em mim a mesma e igual sombra,
Um mesmo coração cheio de vidros
E dor, o triunfo dos relógios, das
Sensações sem precisão demais...
O despontar de ridículos remorsos,
Um prazer intimo de sermos quem
Não somos tal como é a obediência
A estranhos que passam por nós fazendo
A respiração pela boca, sempre
Melhor quem passou que quem fica
Como que se apaga o que sou sem ser,
Tão vago, magra visão ou modo de olhar
O tempo.
Joel Matos (04/2018)
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👁️ 383
Sonho d'Midas ...

Sonho d'Midas ...
Leve o sonho i'nda
Que m'tire do sono,
Dest'ida sen'como,
Dano ou beleza, nau
Inacabada o despertar
E eu por me acabar,
Só porque troquei,
A poeira P'la estrada
A vaidade p'lo ouro,
De verdade não sei
Distinguir treva de
Breu, estrela de céu,
(Nem sequer o vejo),
Suor de calafrio,
Sonho de Midas
Escrito em Basco
Sou eu só, eu sou ...
Desdenhei um trono
E é nele que me torno,
Tornarei também noutro
Tosco tronco e assento,
Perdido no sonho d'ida
Sem a certeza de voltar,
Me persegui a vida inteira,
Como se fosse minha
Sombra falsa ou a máscara
Da própria má sorte ...
Joel Matos (04/2018)
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👁️ 420
A música pára a vida

Música
Pára a vida, evidente que não
Mas que toca em nós quanto
Manhãs de sol frio é certo,
Mas só música certa e o deserto
Ao entardecer, de facto também
Param tão tanto quant'o vento
E o que eu sofro não tanto
Por ser humano, mas por ter
Dentro do peito, um coração
D'engano para a vida toda
E a música parecer eterna
Quando toca o meu ouvido,
O rosto e as mãos e me dá
Esperança, vida e só eu sinta,
Quando o coração bate incerto,
Por não haver depois, o resto é
Silêncio e calma, sensação
De bruma que passa e esquece
Tal musica que me acontece
Vidente que real nem sou,
Esqueço-me do que me faz
Esquecer, o súbito e o poente
Pra que sofra eu, não tanto
Quanto me toca o mudo cantar
Do mundo, como se cantasse
Alguém com forma de paisagem,
Que não nem nunca terei ...
Joel Matos (04/2018)
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👁️ 353
(Meu lar é uma taberna)

Qualquer brisa de ar me serve,
Mas balouçar no trigo o olhar,
Minh'alma não consegue,
Nem este obedece ao qu'digo,
O mistério são as fontes,
E o que penso a sós comigo,
Sopra-as "Ítalo", o vento grosso
Ou a sombra rente ao chão,
Minha catedral é uma
Caverna escura, loucura
A crença que nem a religião
Daquela forma suspensa,
Sem vestes me veste, largo
Um coração que trago,
Amargo, amarrado junto
Ao crâneo que não é mágico
Quanto o de "Shakespeare",
Evoco um Rei deposto oculto,
Certo que voltarei um outro
Rosto, aposto à luz ou ao luar,
Qualquer brisa breve serve,
Meu sonhar amarelo-pálido
Trigo, leve minh'alma sofre
Um sofrer que não vem só,
Mas obedece ao castigo divino,
Assim seara ceifada a foice,
Como fosse erva da mina,
Ou de uma velha seca fonte.
(Meu lar é uma taberna)
Jorge Santos (04/2018)
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Comentários (4)
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nilza_azzi
2019-08-22
É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.
namastibet
2019-01-09
obrigado a todos que me leram
ricardoc
2018-04-23
Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.
131992
2017-10-26
muito intenso seus poemas, adorei.
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