Escritas

Lista de Poemas

Morte anunciada













Morrer secretamente.



Silenciosamente.



De forma frígida e sem dor







O corpo guarda a obturação



do destino



As amálgamas de prata ou de medo



Encobrindo o espasmo da vida.







Estou aprendendo a morrer



Como se tivesse vivido



Passo as folhas do álbum



Da memória



E as imagens parecem rotas



Ou inverídicas







Quem é aquela que vejo?



De quem é o semblante triste?



Os olhos que não sorriem



E plasmados contemplo o horizonte



Como se fosse abismo...







Morrer assim secretamente



Por entre florestas virgens



Por entre metáforas indecifráveis



Por entre os últimos fonemas



De dor ou melancolia



Morrer no passadiço da escada



Entre um degrau e outro...



Morrer no alto da torre



A esperar a simbólica redenção







Morrer, silenciar



E cair horizontalmente no berço



Das emoções



Sufocadas por culpa ou vergonha.







Depois de minha morte.



A missa...



O silêncio ritual das preces



Sob olhares dos

sobreviventes



A nau emborcada da igreja,



o átrio e a claraboia



conspiram avaliando meu pleito.



E, afinal a despedida dita



em coro: amém .







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Civilidade

Matamos o mosquito
Eliminamos matas e florestas
Diminuímos a vida do planeta
Desarticulamos ecossistemas

Crueldades e tragédias tornam-se banais
Como o bater de portas ou janelas,
Vulcões em erupção, terremotos e
tsunamis

O mundo se revolta com o poder humano
E força da natureza lhe sussurra a sentença
animal,,,

Matamos insetos e o vizinho
Providenciamos guerras santas
Por razões bastardas
Entramos nas cabeças humanas
como trepanação
Lavamos suas idéias, opiniões e
olhos

E, diante da mais absoluta cegueira
Poupamos a luz, como se tudo
já não fosse treva ou ilusão

Poupamos o caminho, como se tudo não
já fosse vácuo
Poupamos afeto
Como se tudo não fosse indiferença.
Desumanizamo-nos.
Trancados no mais caro patamar da
civilidade.
O veneno intragável de não poder ser
apenas natural.
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Esses Versos

Há nesses versos muito de mim
De meu hálito, suor e sangue
Mas principalmente
lágrimas

Em especial,
as que não derramei
Há um cais vazio e repleto
Mutilado por navios perdidos

Há luz e escuridão
Há pausa e o dínamo
Veloz e eloqüente

Do pensamento poético
A percorrer os perímetros possíveis
E irrazoáveis da paixão humana.

Há o alvorecer silente do outono
Há uma Guernica em chamas
Gritando por misericórdia
Que ninguém entende.

E, pior que ninguém atende.
Há uma soleira branca
A espera do primeiro passo

Há uma janela entreaberta
A espera do primeiro raio de sol
E mesmo que não haja sol

Há nesses versos
Miríades de estrelas cadentes
Pontuando segredos,
publicando idéias inconfessáveis

Há na chuva a redenção da água
Lavando tudo, enxaguando tudo
E ainda assim, resta o resíduo de mim

Nesses versos sem rima e com algum lirismo
Suicidas compulsivos
Se jogam numa rede e sem serem
pescados

São garimpados dormentes e permanecem
Vivos pelos suspiros e reticências de quem
Os lê...

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Cárcere

Havia sofrimento impresso nas paredes
Nas frestas exalando solidão e tristeza
Havia mistério desenhado nas sombras
E medo estampado nos olhos


A porta era um umbral inatingível
A chave era milagrosa
sorvia o abismo e o instante
Engolia toda minha esperança


E me sorria ao som do tilintar
Havia apenas penumbras e escaras
na pele, na alma e nos sapatos


O desconforto não era sentir,
perceber e esconder
sob o silêncio dos olhos
o tom hepático e amargo da dor.


A compulsiva dor corrosiva
a dilacerar tudo, boas lembranças,
esperanças e até mesmo o amanhã...


No cárcere os dias não passam
Apenas falecem num monastério oculto
O sol é negro e está de luto.


No cárcere as noites não terminam
Apenas se tornam latentes
e são estranhamente esculpidas
na escuridão da sala.


As janelas, as grades e a impossibilidade de fugir
É apenas mais uma estratégia da loucura,
embalsamada na angústia de perder
a capacidade de amar,


De perder um tempo vivido
e que nunca voltará


No cárcere, o tempo é castigo.
O espaço é inútil
E as palavras azedam bolorentas
Pois foram guardadas dentro do livro
do ressentimento.


No cárcere, a chave não é solução
É a pequena ponta do abismo
a desafiar nossa imaginação e permitir
alguns instantes de ilusão de liberdade...

Por onde a alma vagueia...
Por onde entranham os ventos
Por onde se esfregam
até largar o cheiro...


O cheiro de cárcere
Preso às vestes
e atado aos destinos.


No cárcere o número é
a fantasia do finito.


👁️ 440

Refém

Capturei sua alma
dentro da essência deste perfume
nesse vidro minúsculo
Embora soubesse que sua alma é imensa

Capturei sua alma
Nos quadros que retratam sóis, chuvas, mar e
embarcações vazias a deriva no horizonte
Sinaletes de sua presença
Atentos a denunciar-lhe na sala
Capturei sua alma
Na trama dos tecidos,
Na teia emboscada das esquinas
No texto de sua lavra
Que vai esgotando tudo,
Sorvendo tudo,
E com seu toque
Humanizando os impossíveis limites
da realidade.
Capture sua alma
Contemporânea
Em cena medieval e romântica
rompendo preconceitos,
rituais e mitos
Por amor à causa.
Ou por causa do amor.
Sua alma é refém de minha poesia,
de meu coração
Somente eu literalmente a possuo
Pois você, não a reconhece
Pois você, não se libertou de seu ego
Dos excessos risíveis...
Somente eu, após libertar sua alma
Poderei fazer com que conheça a liberdade ou
então, a vaga sensação de tontura
Pois a altura lhe dá vertigem
ou será o desconhecido?
E nada é, o que apenas parece ser
Ir além, é um sequestro
Ir além, é livrar-se de ser refém
Correndo todos os riscos e assumindo o visgo
de viver impunemente.
de viver o viés da vida.
👁️ 539

intertício

A palavra

A eterna prisão de signos

e semântica



As cordas presas do consciente

Os labirintos incompletos do inconsciente

A fonética diafragmática

A corruptela da dor e lágrima

O silêncio nostálgico dos corredores



O alarido das folhas ao vento

O rufar dos tambores

A prenunciar a sentença

Cabeças rolando junto com os pensamentos



E, o perdão surgiu como um tropeção

Como um cadafalso a espreita de sua vítima

Nada faz mais sentido

A dor, a palavra ou sentimento.



Só essa pausa.

Essa única pausa.

Intertício de passado e futuro.

👁️ 514

ser o outro

Não se apressem a responder

as perguntas

Não se apressem a sanar

as dúvidas

Pois estas permanecerão

São mais eternas que os homens

Mais perenes que os sentimentos,

Que todas as lembranças ou memórias

Diante das perguntas

Há um segundo de silêncio e de inquietação

Há angústia plasmada na saliva

Que lubrifica a palavra

Que recheia a boca e a digestão

Não se apressem a ter o que dizer

O que sentir,

O que fazer ...

Pois os discursos, as emoções e os atos

São finitos, limitados, circunstanciados,

Paridos e premidos pelo momento,

Pela genética, pelo inconsciente

Que traiçoeiro

Deixa você responder

Aquilo que jamais pensou

Cogitou, ou revelou diante do imenso

abismo que existe entre dois seres.

O intransponível lugar do outro.

Ser o outro é a única maneira

de dar a resposta

exata.

Na proporção e na ótica correta...

Ser o outro, sem abandonar-se ou renegar-se

Ser o outro por alteridade e compaixão.

Ser o outro apenas para impedir que o silêncio

Mumifique o eterno.

Ou que transforme toda consciência em pó.
👁️ 554

amor fatal

Tenho a alma rachada e trincada

Rolou rimbanceira abaixo

E se pendurou na beira do abismo

Minha alma descuidada

vive a viajar ao sabor dos ventos

E morre de frio em invernos imaginários

Sob o sol inclemente da tarde moribundaHá cacos de mim, espalhados em quadros pintados à óleo,

Em partituras, nos teclados e nas palavras

Escolhidas na salada dos momentos

Hoje na fonética miúda dos monossílabos

Só falei não...Ver e sentir por vezes é corrosivo e cruel demais

É melhor apenas imaginar e sonhar

Do que tocar nas sancas da crueldade

Que rodeiam a realidade.Não há arte em viver sem consciência
👁️ 511

Pássaros





Os pássaros estão presos



na gaiola do tempo



Eles voam no presente



pensando no passado



As nuvens fazem parte



do passado



São gasosas e

espessas



Esperam as lágrimas



para inundar de tristeza



a reflexão







Os pássaros cantam



E mentem sobre o dia, pois de manhã



Com o horizonte ainda em chamas



Anunciam um dia que



mesmo assim poderá ser chuvoso.







As vezes podemos esquecer....



As vezes podemos lembrar



É tudo é em flash,



É um átimo



Segundos mágicos que



Trazem à memória



a imagem do que

foi...







Das lembranças restam apenas



Fagulhas,



Cinzas,



Resquícios



embriagados de lirismo



ou nostalgia.







A ciranda,



A rosa no jardim,



O sino da igreja



O sapato novo



A bicicleta e a conquista



E a velha angústia no peito



De saber que os caminhos



Já foram traçados...







Vou rasgar o rascunho da verdade



E criar a ficção com a fantasia



Recolhida



de um baile de máscara.



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Explícita

Tenho a alma rachada e trincada

Rolou rimbanceira abaixo

E se pendurou na beira do abismo

Minha alma descuidada

vive a viajar ao sabor dos ventos

E morre de frio em invernos imaginários

Sob o sol inclemente da tarde moribundaHá cacos de mim, espalhados em quadros pintados à óleo,

Em partituras, nos teclados e nas palavras

Escolhidas na salada dos momentos

Hoje na fonética miúda dos monossílabos

Só falei não...Ver e sentir por vezes é corrosivo e cruel demais

É melhor apenas imaginar e sonhar

Do que tocar nas sancas da crueldade

Que rodeiam a realidade.Não há arte em viver sem consciência
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