Escritas

Cárcere

Gisele Leite
Havia sofrimento impresso nas paredes
Nas frestas exalando solidão e tristeza
Havia mistério desenhado nas sombras
E medo estampado nos olhos


A porta era um umbral inatingível
A chave era milagrosa
sorvia o abismo e o instante
Engolia toda minha esperança


E me sorria ao som do tilintar
Havia apenas penumbras e escaras
na pele, na alma e nos sapatos


O desconforto não era sentir,
perceber e esconder
sob o silêncio dos olhos
o tom hepático e amargo da dor.


A compulsiva dor corrosiva
a dilacerar tudo, boas lembranças,
esperanças e até mesmo o amanhã...


No cárcere os dias não passam
Apenas falecem num monastério oculto
O sol é negro e está de luto.


No cárcere as noites não terminam
Apenas se tornam latentes
e são estranhamente esculpidas
na escuridão da sala.


As janelas, as grades e a impossibilidade de fugir
É apenas mais uma estratégia da loucura,
embalsamada na angústia de perder
a capacidade de amar,


De perder um tempo vivido
e que nunca voltará


No cárcere, o tempo é castigo.
O espaço é inútil
E as palavras azedam bolorentas
Pois foram guardadas dentro do livro
do ressentimento.


No cárcere, a chave não é solução
É a pequena ponta do abismo
a desafiar nossa imaginação e permitir
alguns instantes de ilusão de liberdade...

Por onde a alma vagueia...
Por onde entranham os ventos
Por onde se esfregam
até largar o cheiro...


O cheiro de cárcere
Preso às vestes
e atado aos destinos.


No cárcere o número é
a fantasia do finito.


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Comentários (1)

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joao_euzebio
2011-12-21

Os teus poemas seguem fluindo como aguas de um rio que corre para o mar e nos dá a fantasia enchendo nos de prazeres sem fim, esperando que nunca amanheça e deixe que está noite magica se prolongue por ai. Muito bonito.