Escritas

Lista de Poemas

Lágrima de cristal

quero a lágrima de cristal

percorrendo

um rosto esculpido em pedra-sabão

perfeita então



quero descubrir esses monumentos

que hoje, somente hoje,

me comoveram tanto...



o belisco,

a Praça Paris,

o teatro municipal plagiado do francês



a marselhesa da Piaf...

tudo hoje me comove tanto

que chega me

sufocar...

aonde entro, em qualquer lugar

as emoções transbordam e,



jorram em meus olhos

contínua e lentamente...

de repente me ocorre

uma estúpida lucidez de tudo

mais tão nítida que me assusta...

fico

perto da morte,

e me imagino no meu próprio velório



vejo a montanha de

artigos que escrevi,

as poesias que desenhei,

os quadros que pintei



todo meu legado é exatamente o quê?

uma lágrima de cristal esculpida num

rosto de pedra-sabão



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Proibido

 Proibido.

Devia ser proibido ser pobre.
Devia ser proibido ser miserável.
Devia ser proibido ser gordo mórbido.
Devia ser proibido ser magro esquelético.
Devia ser proibido ser feio.
Devia ser proibido ser inadequado.

 

Mal-educado ou grosseiro.
Só que não é.
Então, aprenda viver com as diversidades.
Aprenda montar o mosaico durante a sobrevivência.

 

Deixe de ser patético,
preconceituoso ou elitista.
Deixe de ser instável
e sórdido.

 

Procure aceitar para ser aceito.
Procure entender para ser entendido.
Procure perdoar para ser perdoado.
Procure dar para receber.
Devia ser proibido discriminar.

 

Racismo é crime.
Homofobia é crime.
Lesar a honra alheia é crime.

 

Procure não ser criminoso

e respeitar a dignidade humana.

Respeitar o outro.


 

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Trapos & teias

A lágrima de cristal.
A palavra de prata.
A rima de bronze.
O silêncio de ouro.

O homem de ferro.
A mulher invisível.
A eterna criança.
O jovem idoso.

 

A primavera notória.
O verão abrasador.
O outono dos ventos.

O inverno da escória;

 

Trapos.
Tramas.
Farrapos.
Teias

 

Dramas

Arquitetados nos polígonos do poder.

 

A lágrima de cristal
arranhava a alma por dentro.
A palavra de prata brilhava no breu
A rima de bronze que premiava o brejo.
E, o silêncio de ouro dependurado na pulseira.

Oscilava em homenagem ao ateu.

E, tudo parecia apenas ser transcendental.

 


 

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Saudades

Saudade daquele sol de manhã.

Da brisa e do orvalho na roseira

Do despertador barulhento.

De ter fé terçã.

 

Saudade do uniforme.

Da saia plissada e o cinto forrado.

Da estrela em forma de broche.
Colocada na blusa.

Deixando-me condecorado.

 

Adorava ser normalista.

Aliás, a escola era o segundo lar.

A bibliotecca um pequena paraíso.

Na conturbada vida lá fora.

Nos livros, tudo era possível.

Inclusive o direito de ser ímpar.

 
No trânsito barulhento.

No ônibus lotado.

No suor amaldiçoado.

E. na pressa infinita.

Num viver açodado.

 

Minha memória arquiva

saudades infinitas

e se esquiva

das dores de crescer.

 

Saudades do apontador de lápis.

De escrever alinhadamente.

Minhas pobres poesias

Que rimavam com alegrias

ínfimas.

 

Saudades de ter saudade.

De suspirar em reticências

De observar as essências

se misturarem, evoluírem

e, deixar tudo em plena liberdade

 

Para nascer, crescer e morrer.

E, ter dignidade.

Porque somos finitos.

Porque somos incompletos.

Principalmente, os prematuros

Que nasceram e expulsaram-se

do ventre materno

na sede de vida,

na sede infinita

de sobreviver.

 


 

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Segundo poema dadaísta

.


Eu e você nesse enorme universo.
Multiverso cheio

de meandros e ausências.


Há silêncios semânticos.

Há ondas de demências.
Há palavras vazias.
Olhares psicografados.
Textos encriptados.

 

Enigmas sem esfinges.

Esfinges sem enigmas.

E, eu estupefato.

Suspiro por um lirismo acabado.

 

Há uma ressalva implícita.
Há uma ofensa sub-reptícia.
Há uma blasfêmia ínsita.

 

A culpa na sombra dos passos.

Os passos perseguindo a culpa.

 

Não posso adorar deuses.
E, cultuar a morte.
Não posso idolatrar mitos.
E, ofender a realidade de estar aqui.

Contundentemente aqui.

Enraizada e cheia de benesses.

 

Meu degredo nessa plateia.
Percebe sua solidão

e, inquieta vai plasmando gestos,
gostos e valores.

Pranteia com sofreguidão.

 

 

Destruímos a arte.
Destruímos a humanidade.
Não tenho pátria, nem matéria.
Sou etérea e abstrata.

Sou fruto do descarte.


Há significado nonsense.
Minha loucura ofende a burguesia
que só deseja lucrar.
E, eu, só desejo mandar tudo às favas...


O abismo da falta de empatia 
transformará esse planeta num 
enorme deserto.
E, só sobrará essa poesia dadaísta.

A gritar, sem simpatia, avisando

do apocalipse.
Ou será apenas um eclipse?

 


 

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Não saber

Nossa ignorância
Procuramos definições nas sombras
Nas esquinas

 

Nossa ignorância
diante da noite estrelada.

Ínsita em estranhas químicas.

 

Lá atrás, houve um caminho.
Existiram dias, anos e séculos...


Quanto tempo ainda há para percorrer?
E, quando o punho se fechar sobre você?
Ou quando da hora do soco surgir,

tenha  se agachado.
Numa covardia íntima explícita.

Ninguém quer sofrer...

 

Qual palavra pronunciar se
o sono não vier...?
Quando os sonhos não flutuarem.

E, a chuva guiar-se sem chofer.

 

 

Pedimos para ficar só mais um dia.
Só mais um pouco.
Deve haver algum sentido.

No labirinto deve haver alguma alegria.

 


Deve haver um vetor-chave.
Um significado colado no peito.
Deve haver uma bússola movida a sinapse.

 

Deve haver uma resposta
Para os enigmas do silêncio.
Para os que calam e gemendo
renunciam à vida, com dor e tristeza.

 

Qual será a derradeira palavra?
Qual será a última sentença?
O último devaneio da alma
que o capitão da nau irá ter...

E se a carranca não sobreviver...

 

Quando chegar ao porto.
Um ponto perdido no infinito
Fora dos mapas e dos sentidos.


Um porto perdido onde a âncora
vai dormir na ânsia de ser erguida.
E, novamente desbravar o desconhecido.

Dentro desse perfume de cânfora...

 

Quando cessar seu movimento.
A Terra ainda em rotação.
Recitará poesias em sua translação.

 

Enquanto isso, permaneço insone.
Diante da mão que me oferta o afeto.
E, a renúncia de tudo.
A abdicação de todos os tronos.
A ideia cindir-se em sonhos imortais.

Libertando-se da verve de inseto.

 

Em afagos inesquecíveis.
E, a manhã infinita que traz todos os
dias novamente. 

Onde há ignorâncias invencíveis...

 


 

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Enxergar-se

Enxergar-se.


Olho para mim, nem me enxergo.
Não há espelho nem reflexo

que me revele ou desnude.
Tenho a mania de pensar.
Repensar e sair de mim
e passear por umbrais desconhecidos.

 

O oxigênio que respiro está poluído.
As palavras que pronuncio está infectada
de fonética e ortoepia peculiar.
Meu modo de existir exala uma fragrância.
Ou um flagrante delito.
De existir impunemente.


Essa água sorvia por minha boca
não sacia minha sede.
Nunca hei de deixar de ser sedenta.
Por respostas, razões ou simples misericórdia.


As sensações pesam sobre os ombros como
se fossem ombreiras


Há um luto reverencial ao entardecer,
os raios sangram até morrer.
e, o horizonte empalidece até mergulhar
no breu da noite.

 

Ou será no silêncio da alma?

 

Julgo-me diariamente diante
do tribunal da consciência
que vive a me acusar e deferir culpas.


Condenada, arrasto os grilhões da existência.
Vivo a catar os cacos de coerência.
Que como qualquer mosaico é
plural, diverso e disperso.

Há uma demência poética

em querer enxergar-se...

 


 

👁️ 38

Bala perdida

Temos a consciência anêmica

Que desconhece a proteína da verdade

É na insônia que se prolongam as horas e

as buscas

É no silêncio da madrugada

Que as palavras se encontram em sintonia

Regem a realidade do alto de suas semânticas

E bailam pelas ironias sutis das mentiras,

Dos contos, das novelas

E das poesias.Temos a consciência anêmica

Não vemos a luz, somente a imaginamos.

Na verdade, não vemos nada.

É a luz que traz à retina o objeto.

O mesmo objeto que descansa sozinho nas trevas

Feudais quimeras onde

há um deus que sabe de tudoAs anemias escorrem entre veias,

almas e sombras

Projetam o pôr-do-sol

Bem em cima da camisa manchada

de sangue e estória

Na tragédia cotidiana

Das flácidas violências...

Estopim da miséria

ou da indiferençaNo ângulo certo, uma bala

Ou, talvez um fuzil podem mirar

o alvo, o ponto exato

E, então diminuir a população,

Majorar estatísticas

Preencher cemitérios...Mas, não responderão as

inquietações...

Como podemos querer viver efetivamente...

Se já estamos mortos?

Mortos pela anemia

Pela apatia e

Pelo esquecimento.

👁️ 378

Desatino



Minhas elipses mentais



Tangenciam o impossível



Brincam de ser trapezistas



De se lançarem ao nada,



Só para encontrar tudo no chão.







Minhas elipses mentais



Abarcam o mundo visível e invisível.



Imaginável e subterrâneo



Entram em frestas, trincas,



Arestas, cavernas e umbrais







Penetram no sólido momento



Da solidão vulgar



Do tempo presente e







As órbitas dessas elipses



Atraem todo tipo de poesia



Poesia de amor,



De tristeza...



A melancolia métrica dos suicidas



A dose extra



de sonífero e veneno







A espoleta,



O gatilho e



Enfim, o desatino.



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Xote ateu



Sou ateu convicto



Não acredito em nada



Nem em mim mesma



Duvido da claridade do sol



Do poder dos anéis de saturno



Da maravilha da tecnologia







Sou ateu profundamente



E, na insólita solidão de não crer



Duvido da própria presença ante ao espelho



Duvido de seu existir no meu caminho.



Aliás, não existe caminho.



Existem passos aleatórios e bêbados



Que rumam em direção ao nada



ou será ao abismo...







O motivo de eu ser tão fielmente ateu



É minha mãe, uma católica fervorosa.



Depois passou a ser espiritualista



Acreditava na vida após a morte



Em Allan Kardec, e ao final ,



ou melhor, sem final...



Quando tomada de Alzheimer



Acreditava estar vivendo em 1971



E, nunca mais saiu mentalmente desse ano.







Seus santos no altar de casa



Olhavam-na estarrecidos a triste figura



a se definhar cada dia mais.







Até que chegou enfim



a misericórdia da

morte.







Também não acredito na morte.



Apenas a matéria se transmuda de forma



E passa a ocupar outras energias...







Então, minha mãe pode estar agora



secretamente no vento, na chuva, no rio



Ou quem sabe,



até em algum animal

doméstico.







Acredito numa única coisa:



O ateísmo...



E, nesse momento me deparo com o paradoxo...



Em duvidar de tudo...



a dúvida é minha única certeza...



É minha crença,



de questionar o inquestionável...



Em fazer perguntas quando



as respostas são múltiplas ou



Simplesmente não há...







Na verdade da humildade presumida



em ajoelhar-se no altar



Existe uma enorme desconfiança.







No tribunal da consciência



Onde a condenação é pretérita



Prescrita pela lembrança e



Banida pelo inconsciente



Inconstante e indomável...







Eu me absolvo o pecado de não ter fé.



Absolvo por ter sido infeliz.



E condeno minha esperança



a uma morte eterna e suprema



Apesar de sorrir aos passarinhos nessa manhã



Enquanto danço



o xote do ateu.







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