Escritas

Lista de Poemas

Naufrágio











Tudo afundando



Lentamente



Num mar de enigmas e silêncios



E sumindo, perdendo a forma



Contornando sinuosas curvas



Da imaginação







Tudo afundando



Em lama, em água



Infiltrando-se em sólidos



Insólitos



Pérfuros-contundentes







Cortando, molhando



Dispersando toda a essência



No mar de inquietude e



angústia







Tudo afundando de forma vertical e



Adernada



Solene e



progressivamente apagando-se



Do limiar do horizonte



O risco do arco-íris,



a promessa do cais aberto



Os punhos em riste



E, a palavra imaculada na garganta



Encravada na madrugada



Só a luz permanecera ali



A pairar sobre o mar,



soberana perante a lua e as vagas







Tudo afundando em sangue



Em vermelho pulsante



E coagulando



Escurecendo



Às vistas perdendo imagens



Como lágrimas







As vistas perdendo imagens



Num branco absurdo e opaco



No absurdo da luz no fim das trevas.







Tudo afundando



Em solidão e se perdendo em



retilíneas vertentes



E, quando as retas chegam ao infinito



Descobrimos com saudades



da geografia,



da etnia,



da melodia



encantada do naufrágio



lirismo imaginário das sereias,



da cor improvável das areias



da realidade encoberta de máscaras



de iniqüidade.







Tudo afundando no raso da tarde



Num copo d'água



A sede, o rancor e o

porre.















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Estações

Quando as palavras faltam...

Sobram as reticências



Quando os ventos

faltam

Sobra um imenso horizonte

Uma nesga de sol a refletir

o final da tarde



Quando os homens faltam,

Sobram desertos quentes ou gelados



Inóspitos,

Repletos de vidas mortas

ou moribundas



Quando as

palavras falham

Os sentidos completam e

Furtam dos gestos a vontade



De ser sutil.



Quando os segredos se esgotam

Os mistérios das mil veredas

Abertas ao mundo,

Abertas nas veias

Abertas em feridas



Esgotadas as lágrimas

Ainda restam as dores



E como posso parar,



Parar,

Estancar o que nem sabe sangrar



Quando as flores murcham



num última primavera

quando as folhas vagam

num último outono



Quando os amores falham

num último verão.



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Palavra

A palavra é minha aia

Minha serva cega e surda

A perseguir laboriosamente

O que devo dizer,



O que devo sentir,

O que devo verbalizar.



Mas há coisas indizíveis



Coisas de silêncio ritual,

Coisas que são substanciais

Absolutas



E condensadas em si.



Como oxigênio

Como suspiro

E poesia

espalhada

no pólen



E levada pelos passarinhos

pelos descaminhos da

vida.



A palavra é minha aia

Nasce com alvorecer

E, mesmo quando

estou rouca



Lá está a palavra incrustada no corpo,

Cristalizada na alma



Como amálgama

Como véu que deixa ver e esconde

Como o vento que

sussurra

Estranhos segredos em silêncio.



Observa a aia.



Reverencie a aia

Seu labor, seu som, sua cor

E sobretudo sua

história.

Conte as palavras mais importantes de

Sua vida.

Serão

crenças,

Serão valores

Será você mesmo picado entre fonemas,

E

disperso no vento.

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