Lista de Poemas

QUE IMPORTA?

Que importa
que a alma jaza acre e escura
na lassidão da espera,
se com sonhar-te apenas
tudo se irradia
e por ser-te
tudo se transforma?
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PROCURA

Repetimo-nos nos sonhos
à procura do quadro perfeito.
Buscamos a plenitude das coisas
e por vezes perdemo-nos
na incessante procura
de um azul qualquer.
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HÁ SEMPRE UM AZUL

Só ficou a saudade
naquela gare deserta de afetos.

Tu meteste na bagagem
as palavras que sobraram.
Eu ergui o olhar marejado
ao encontro da chuva que caía
nos ombros de um futuro incerto.

Atravessei a cidade.
As gaivotas regressaram ao rio.
A tarde esmaeceu.
Só o azul dos autocarros
pintava as ruas caladas,
as fachadas dos prédios,
as mesas das esplanadas.

Apesar de tudo
há sempre um azul 
a pintar o rosto das memórias.
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MERGULHO NO AZUL DAS COISAS

Mergulho no vento que amacia as pedras
à procura do enleio perdido nos primórdios.

Mergulho num rendilhado de horas mansas
feitas de palavras sem mácula e sem pressa.

Mergulho na porta aberta do poema
purgando-me dos anos e dos medos.

Mergulho num tempo novo e vasto
onde amar-te cheira a tudo o que quisermos.

Mergulho no azul das coisas
para ver florir a lua nos teus olhos.
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EMÍLIA

Quando o sorrir se impunha
sorrimos, tu e eu
como o raio de sol
que irrompe da negrura.
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DAI-ME UMA PEDRA EM VEZ DE CORAÇÃO

Dai-me a alma dos poetas
mas não a sua sina.
O êxtase da paixão mas não o desencanto.

Deixai-me esculpir vida nas estátuas frias
desenhar paixões a esvoaçar nos varais
ou nos parapeitos das janelas
dos amantes encobertos.
Pintar a tristeza da cegonha
que não migra porque partiu uma asa
ou da mãe que seca o rosto do filho
com os dedos molhados pelo seu próprio pranto.

Dai-me uma pedra em vez de coração!
O coração é pássaro de asa partida
que não migra e anseia a nova primavera
que apenas lhe trará mais solidão.

Dai-me a alma dos poetas
mas não a sua sina.
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ÉDEN

Bato-te à porta
com a certeza de ter chegado a casa.

A tua silhueta balança
na nudez da parede branca.
Uma mão a amparar-te o rosto
a outra no cabelo
e nos olhos a vontade de naufragar
no mar de promessas sussurradas.

Somos Éden
jardim de flores e frutos proibidos.
Dos teus lábios escorre
o roxo das ameixas maduras
e dos dedos pétalas azuis
de uma flor que um dia idearei.

Foi noite nas nossas vidas
até me dares guarida.
Depois pintei um sol para te oferecer.
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CRESCEU-NOS A CAMA

Lentamente
descemos o rio

mudaram as luas
os azuis do céu
e os verdes das margens
até nós mudámos
sem darmos por isso

pouco a pouco
o espelho mostrava-nos
o que viria a seguir
o preço a pagar
pela nossa irreverência

eu deixei de correr
e tu seguiste-me os passos 
até ao ponto de não podermos
mais fugir ao destino

o céu acinzentou
cresceu-nos a cama
e o teu sangue
deixou de saciar-me

diz-me, amor
perdemos a sede
ou secou-se a seiva
que nos corria efervescente
pelas crateras da pele em chama?

cresceu-nos a cama
ou mingaram-nos os braços?
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PRINCÍPIO

Entrar pela
manhã adentro
como a andorinha
que se replica
em lençóis de barro

como o amante
de um corpo inerte
que se consome a resgatá-lo
dos braços da incógnita

escondido na sombra
dos beirais de vidro
de um amor tisnado
e dúbio

tão inconstante
como o azul das mãos.
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UM CARDO DISFARÇADO DE ALFAZEMA


Esta ânsia que sinto
é janela aberta
para um prado
sem cores e sem cheiros.

É uma miragem
um rosto
uma voz nos longes
um roce imaginado
um cardo disfarçado
de alfazema.

Esta ânsia que sinto
é um carreiro estreito
que acaba num muro
mais alto que o sol.

Nele me embrenhei
coração órfão
de gargalhadas roucas
e outros mimos.
Nele me perdi
ânsia de perseguir
sonhos proibidos
e outras sinas.
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