Lista de Poemas

O PRIMEIRO DIA

Era um dia igual
aos dias de todas as vidas

o rosto era-te igual
a todos os rostos que esperam

entrançavas sorrisos
com gestos suados
as mãos roxas de ansiedade
os olhos frenéticos
a boca madura

o céu tinha o azul
amarrado a um canto
tinha o encanto dos pássaros no ninho
e juras das mais variadas cores

abracei-te, ponte a unir
as margens do desejo

disse-te de um sopro
os versos que me inspiras
e as tuas pétalas abriram-se

continuas sem saber resistir
a esta minha vontade de te ter.
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O TEMPO E OS PEIXES

Ao solitário o amor
ou a chama que resiste
sob a cinza apagada.

Ao estéril a esperança
ou a voz do mar que canta
segredos com palavras novas.

Ao fraco a paciência
ou o saber de quem flutua
num vazio de horas funestas.

A nós os dias de inverno
ou o bailar nas mil memórias
da espera abstrata.

E o quarto
a cama, o rio, lençol 
de águas azuis, sedosas
e os nossos dedos, peixes a nadar 
na transparência dos corpos.
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CARTA

Diz-me, amor
onde guardaste o cordão de sorrisos que te dei.
Esses que procuras quando me aproximo 
e tu estremeces, pálido como os pensamentos
que me levam fora de horas ao lugar errado.

Diz-me onde escondeste 
o verde humedecido dos teus olhos
tão verdes e tão vivos
como a bruma amanhecida nas folhas de malva. 

A quem enviaste as cartas que escreveste?
Páginas cheias de recados por mim ditados
que tu sorvias como quem guarda 
o profundo e abstrato da incógnita.

Longa vai a noite e nós acordados
à procura de sentidos novos para velhas palavras
as mesmas de sempre, já sem sangue.

Isto que nos aflige são ânsias.
Suspiros febris que rugem
como a linha de fogo que ameaça nos longes,
que parece detida no impossível 
mas que nos alcança num sopro.

Nunca saberei dizer-te 
que na tua ausência me sobram lamentos.
Que sucumbo a todos os pecados.
Que ignoro a alvorada e os pássaros e os canteiros
e tudo o mais que a vida me nega.

Amor, amor… Morreremos no sonho 
se não nos desejarmos com a mesma raiva 
que o vento chicoteia as noites de inverno.
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SABEDORIA

É preciso beijar a vida
como quem tropeça no azul das coisas.
Sorver a delicadeza das manhãs
mergulhar nos silêncios da cidade
e deixar-se levar pelo palrar do corvo
para lá do risco cinzento 
que os aviões desenham no infinito.

É preciso abrir a janela
arejar gavetas, alumiar sombras
e cantar os dias como quem faz um filho
ou como quem celebra o fim de um amor proibido.

É preciso inverter os passos vãos
dos soldados que tombam
sorrir para o vazio transparente dos vivos
e dizer-lhes que não
que a morte não pode ser o fim das dores.

É preciso saber tropeçar no azul das coisas.
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