Lista de Poemas

ESQUECESTE DE SER TUA

Na tua alma faz-se luto
cada vez que a porta se fecha
e os seus passos se perdem
na imensidão da noite

vestes a pele de sentinela
nas madrugadas caladas
a porta do quarto entreaberta
a sua cama vazia...

esqueceste o nome que tinhas
antes de seres quem és
esqueceste a cintura fina
os seios rijos, o rosto viçoso

perdeste a altivez no andar
porque o sol rompeu
a alvorada dos teus dias
e tu toda vergaste ao seu esplendor

esqueceste de ser tua
pertences a todos menos a ti
não sorris sem temer o castigo
não abraças o canto sem temer o pranto

és doente crónica 
sofres desse mal chamado amor
que as dores do parto são para a vida inteira

esqueceste o nome que tinhas
antes de seres mãe.
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GRITO DE GUERRA

Fosses tu palavra
perdida no verso apagado
e eu papoula florida
em lava ardente
e nenhum de nós seria poema

mas és pétala agreste
no girassol de agosto
musa, lágrima,
loucura expelida
dos confins do pranto
e eu sou o protótipo
de um poeta em construção
alma fustigada
pela voragem dos sentidos

e assim, no rubro do sangue
na angústia, no desejo
faço-te trova, hino
grito da guerra que nos invade.
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AMÊNDOA AMARGA

Rasguei com as minhas mãos
todas as promessas

abri as portas
vesti-me de vento
a afastar de mim o teu perfume

pintei-me com o roxo das dores
com o vazio dos dias

provei o fel do desencanto
minha amêndoa amarga.
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ANTES QUE O OUTONO ACABE

O tempo é como as casas 
que nunca mudam de cor

é um velho
de olhar absorto e casmurro
a lembrar as nuvens cinzentas e gordas
debruçadas em prédios da mesma cor
assombrando as vidas das pessoas
cinzentas e gordas
que se arrastam pelos passeios.

é um velho 
que se perde nas listras das passadeiras
para não alcançar a vida que lhe acena
do outro lado da rua.
pele tricotada pelo sol das searas
pés gretados pelo pó dos caminhos
peito oprimido pela incerteza das horas
olhos secos pela longevidade dos dias

o tempo é como as casas 
que nunca mudam de cor
é parede baça que urge pintar
antes que o outono acabe
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DESPEDIDA

Escrevo-te ao canto da sala
de uma casa mal construída
e desarrumada.

São seis da manhã. 
O relógio de parede demitiu-se do seu propósito
mas lá fora os galos avisam que o dia acordou.

Espreito pela janela 
e deixo o olhar estilhaçar-se 
contra o desalento das árvores nuas de dezembro.
Seus troncos disformes
parecem ruínas, escombros pintados
da cor dos amantes perdidos
na incompatibilidade da carne.

Vê como sorriem os homens desta história
tímidos como os pássaros 
que procuram refúgio nas árvores nuas.
Vê-os sentados à beira do destino
remendando as brechas da sua miséria.
Falta-lhes tempo para chorar a sorte.
Sobra-lhes pernas, mas falta-lhes chão.

Observo-os, barquinhos azuis
ancorados no rio que banha a minha aldeia,
águas que correm e escorrem o sangue
a tantas promessas que a vida lhes fez...

Não sei há quanto tempo 
não crescem cidades na minha cabeça.
Urge resgatar as memórias que o tempo comeu.
Romper estradas, plantar jardins
desenhar a lua no céu apagado
e estrelas a saltitar por cima dos prédios.
Urge pintar os barcos de outras cores
pois nem só no azul se constroem sonhos.

Escrevo-te porque abri a janela
rasurei a timidez dos pássaros 
e eles cresceram dentro de mim.
Quando voltares já eu terei voado, sorridente
como o petiz que se despede do baloiço da infância
na hora de mudar para uma ilusão ainda maior.
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ALVORADA

Alvorece
as gaivotas acordam a cidade
os sinos cantam ao desafio
com os sonhos interrompidos
a maré lambisca a margem
os raios de sol diluem a bruma
e os meus lábios fogosos
engomam as rugas do teu corpo
com a mesma devoção
com que a natureza regenera.
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DOR

A dor fecunda o poema
a alma dita-o
a mão talha-o

pintam-se de sangue
páginas brancas
enchem-se de fé
peitos vazios

há seiva açucarada
no sangue dos poemas

cada verso
é um resquício
do que partiu
cada palavra
uma lágrima
do que ficou

é da dor
que se alimentam os poetas.
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OS MEUS OLHOS

Quando a noite
pousar sobre ti o negro manto
e sentires que as estrelas te perseguem
que dançam ao teu redor, em burburinho
não tenhas medo meu amor
o que ouves são os meus olhos
que no escuro te acompanham
para salpicar de luz o teu caminho
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INTANGÍVEL

Guardei-te na gaveta das coisas novas,
arrumadas, qual gaivota que sobrevoa
a praia, antes de fechar a porta da tarde.

Guardei as razões que me deste
para te eleger. O teu gracejar constante
e aquele sorriso de inspirar poetas.

É tarde. A vitrola acusa cansaço
e os versos repetem-se na folha vazia.
Rendo-me à alegria de te sonhar

tão azul e tão presente como antes.
Sempre te soube interdito e breve.
Tão intangível, que magoa.
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EM TUDO TE APRENDO

Pé ante pé, descubro os sinais
que os teus olhos pintam nas casas,
nas montras, nas mesas dos cafés.

Recados que me deixas
espalhados pelos cantos da vida,
como quem escreve cartas à lua
ou testamenta o oiro que há de vir.

Essa voz que rasga caminhos também é tua.
Sigo-a, até onde perco e recupero sentidos,
semeando promessas entre os dedos
das quatro mãos abertas.

Contigo aprendo os trevos, os pampilhos,
o voo dos flamingos, o ranger das bicicletas...
Em tudo te aprendo e me vejo sorrir.
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