Lista de Poemas

DEIXAI QUE CHOVAM DESAFIOS

Neste mundo novo que me espreita
Pego em mim e vou abrir caminhos
Sem olhar para trás, sem vacilar
Se é que a vida se faz de tempestades
Então deixa que chovam desafios
E o mais que ela tiver para me atirar

Neste mundo novo que me espreita
O que importa é ter olhos de ver
E olhar de cima para o que me rodeia
O que importa é não ter medo
De fechar os olhos e pular
Para lá do pôr-do-sol da minha aldeia
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A IDADE ETERNIZOU-NOS NO INTERIOR DAS HORAS

Sorvo esta convicção
de que todas as ruas me levam a ti.
Que és a ponte para todas as margens,
sereia que (en)canta em todos os mares.

O trânsito parou nos labirintos da procura.
A idade eternizou-nos no interior das horas,
felicidade cinzelada no mais puro mármore
num relógio do tempo feito à nossa medida.

Há nos nossos beijos de fim de tarde
a robustez de um campo de papoulas
debruando-nos o azul dos lábios
com raios de sol poente e sabor a vinho novo.
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ESTADO DE GRAÇA

Eis-nos
na bênção da aventura
cachos de uvas ruivas no regaço
um véu de colibris a cobrir-nos a pele dos segredos.

Eis-nos
no céu dos escolhidos
todo o sol que irradias me ilumina
todo o amor que canto te pertence.
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A MAIS ALEGRE DE TODAS AS PALAVRAS TRISTES

Não é por isto ou por aquilo que te falo.
Falo-te porque sim. Porque é
falando-te que purgo este sentir.
Sei que mais falta me faz falar-te
do que a ti escutar-me,
mas é da alma que te falo, e nas coisas da alma
nem tudo tem de ser medido.

Hoje venho falar-te na mais alegre
de todas as palavras tristes: A saudade.
Alegre porque é uma graça senti-la
- felizes os que a sentem, porque viveram.
Triste quem não guardou na alma rosas em botão
para desfolhar ao entardecer da vida
que seja por veredas de saudade.
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TUDO ME SERVE PARA TE AMAR

Desbravo caminhos
nos beijos que me negas

Os meus olhos fazem amor
com a tua sombra
os meus lábios
com o teu cheiro
a minha alma
com o teu desdém

Provoco-te com beijos
rabiscados no vento
Tu, a mim, apenas recusas

Pensarás que não sei dos teus desejos
- framboesa, melancia, romã
bruma fresca, maré viva, algodão doce

Tudo te serve para me provocar
Tudo me serve para te amar.
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QUE SERÁ DE NÓS?

Alma aberta em chama
corpo aberto em prece
dos lábios rugidos firmes
gritos de guerras perdidas
a voz da sapiência que brada
mil e uma razões para recusar
o cálice de vida que se oferece.

Que é do amor escondido
nas entrelinhas das cartas rasgadas
qual das mãos algemadas
secará as gotas de cio
na pele dolorida da renúncia?

E de nós, que será de nós,
que sem sermos amantes
tememos a dor do amor acabado?

Tecelões à procura do novelo azul
azul ou pardo como os gatos da noite
os lábios sedentos de mel e hortelã
e a flor dos cardos a pingar-nos no ventre
a seiva húmida e quente dos beijos sonhados.

Entretanto é dia, e de dia
os gatos são transparentes e lúcidos.
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NO LIMITE

Eis-me, no limite de tudo
alma espartida entre a vida e a morte
entre riso e o choro

entre a vida e a morte
sublime momento em que tudo falta
e tudo sobra. Tudo, menos eu.
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CATIVO

Nas tuas mãos
o poder obliquo da carne
qual destino que passa
sem passar por nós.

Os dois no café
a mesa vazia de certezas
o clarão do teu olhar a incendiar-me.

Vais e vens
entre palavras fugazes
e eu fujo ao toque da pele que delira
como a morrer de rosas.

Assim quero morrer.
Sobre nós cantarei ao universo
trovas de um amor sonhado.

Sobre os meus olhos direi
que foram presas fáceis
à magia dos teus.
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POR VEZES

Por vezes
via um traço de cor na noite dos teus olhos.
Um fio azul que os escancarava e te expunha
feito de mãos, braços e bocas irrequietas
como se o mundo inteiro te habitasse.

Por vezes
atiçavas o Evereste dos teus medos.
A voz bailava-te nas entranhas do desassossego
e sonhavas em surdina, rabiscando suspiros
no nevoeiro das madrugadas abismais.

Por vezes
eras tudo. De tudo um pouco te fazias,
a contrariar a sorte de seres tão pouco, do muito que querias ser.
Amado apenas! Retribuindo a graça de um sorriso,
voo de gaivota, pinho verde, flor de tangerina, felicidade.
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A GALOPE ENGULO OS DIAS

Esmago palavras
nas minhas mãos fechadas.
Escorre-me pelos dedos
a seiva acre de poemas
que não ouso escrever.

A galope engulo os dias.
Ardo por dentro. E os pés
em brasa tatuam pegadas
na estrada da solidão.

O ventre da terra
desfaz-se em horas ocas.
O rio ruma à nascente, buscando
uma brecha para recomeçar.
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