Lista de Poemas

A PRIMEIRA VEZ

Troquei contigo
olhares de inquietação
e tu, brisa e seda
roçaste-me ao ouvido
murmúrios de certeza.
Fez-se calmaria
e tudo ao meu redor floriu.
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ÉS A PRIMAVERA QUE PROCURO

Peguei na paleta e nos pincéis
para pintar a primavera no céu de dezembro.
Quis pintar o mar do meu país
mas os teus olhos tinham roubado o azul.
Quis pintar canteiros de rosas
mas os teus lábios tinham bebido o vermelho.
Quis pintar a magia do entardecer
mas o oiro do sol poente estava todo no teu rosto.
Percebi então que se trazes nos olhos o mar
nos lábios as rosas
e no rosto o entardecer
és a primavera que procuro
e nos teus braços nunca mais será inverno.
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SE EU PUDESSE

Se eu mandasse
a arte de sonhar seria disciplina 
obrigatória em todas as escolas da vida. 

Se eu pudesse 
embrulhava os sonhos num véu de escumilha
sussurrava-lhes ao ouvido um destinatário
e soltava-os, presos a um papagaio azul.
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INCOERÊNCIAS

Corremos na vida 
como se a meta se fizesse 
de palavras nunca antes ditas 
ou de sonhos nunca sonhados 
e no entanto o mundo compõe-se 
de projetos inacabados.
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NO FUNDO EU SÓ QUERIA UM SORRISO

O vento apartou de mim 
as folhas caídas e pude por fim ver 
o rosto do meu corpo em êxtase.

Resignei-me ao destino
de colher no regaço estrelas luzentes
mas nunca soube de onde me vinha o privilégio.
Limitei-me a olhar-me de longe e a sorrir
como sorriam os cachopos na pradaria, a sorver
esguichos de leite quente do úbere das vacas.

Depois deitava-me e sonhava
penitenciando-me pela ousadia de sonhar.
Castigava-me com a ferocidade das nortadas
que chicoteiam os milheirais de agosto
como se o sonhar estivesse apenas destinado 
aos que nasceram na outra margem. 

No fundo eu só queria um sorriso
um par de olhos, uma boca, duas mãos 
para comigo viverem e morrerem.
O que demais vedes veio por erro no destinatário.

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O FOGO DA CARNE

Zarpemos na jangada azul
ao encontro da joia prometida

bebamos da taça exposta no altar do sangue
vertendo prata sobre os mais primários impulsos

morremos e entramos no céu dos amantes
quando mergulhamos no fogo da carne
e descobrimos os segredos que nos queimam

e com as nossas mãos construímos 
a noite, a casa e a cama 
onde nos rendemos à fúria do desejo.
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OIÇO-TE

Oiço-te
voz de água fresca
que me escorre, fugaz
pelos socalcos da pele

sussurro de vento
a amaciar-me
a inquietação da carne

ternura, ensejo
de pássaro que alvora
ao adormecer da lua

oiço-te
bocejo sorrisos
e adormeço.
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SUBLIME FEITIÇO

O teu abraço
é rio em maré cheia 
a correr-me pelas veias.
Inunda-me a frescura 
dos teus olhos d´água.

Então (sublime feitiço)
tudo em meu corpo 
é musgo e bruma 
e o nosso amor 
trevo em terra fértil.
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DESEJANDO SER-TE O PROMETIDO

O deleite ardente que procuro
traz-me sempre ao teu regaço
qual pássaro imolado a renascer
qual fogo adormecido mas atento
desejando ser-te o prometido.

E eu assim te quero, aurora minha
assim, como a bruma envolve os lírios
como o azul da lua envolve o mar Egeu
assim eu te envolvo e te venero
desejando ser-te o prometido.
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NO OLHAR TRAGO-TE A LUA

Trago-te um regaço de limões
maduros e perfumados.
No olhar trago-te a lua
bordada nas memórias da minha meninice.
E na hora de adormecermos os segredos
essa ditosa hora em que os sonhos flutuam
entre a terra e o céu, entre o corpo e a alma
dar-te-ei o melhor de mim:
esta graça de te sorrir, rendido
ao sublime império da paixão que me habita.
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