Lista de Poemas
PERDIDOS
Um dia acordamos secos
e órfãos da fonte que nos saciava.
Os choupos cresceram e arderam
indiferentes ao carpir das nossas dores.
A canção que embalava ainda ecoa
mas calou-se a voz que a cantava.
Por vezes soltamo-nos das horas mortas
e cruzamo-nos com os resquícios
da felicidade que julgámos eterna.
Escrevo-te no sótão da casa
que não construí ao fim do caminho.
Ruíram as paredes por erguer
à espera da cor que nunca escolhi.
Felizes os capazes
de inventar um regaço
ou o par de braços abertos
que dificilmente encontrarão
quando a fresta da memória
apenas reflete os sorrisos
das tardes de infância.
e órfãos da fonte que nos saciava.
Os choupos cresceram e arderam
indiferentes ao carpir das nossas dores.
A canção que embalava ainda ecoa
mas calou-se a voz que a cantava.
Por vezes soltamo-nos das horas mortas
e cruzamo-nos com os resquícios
da felicidade que julgámos eterna.
Escrevo-te no sótão da casa
que não construí ao fim do caminho.
Ruíram as paredes por erguer
à espera da cor que nunca escolhi.
Felizes os capazes
de inventar um regaço
ou o par de braços abertos
que dificilmente encontrarão
quando a fresta da memória
apenas reflete os sorrisos
das tardes de infância.
👁️ 39
O QUE FUI REINVENTOU-SE
Dói-me o corpo em brasa
de planar sobre a lava quente
do vulcão que sou, em erupção
o que fui esqueceu-se de o ser
nada mais me habita
do que o prazer de levantar voo
quando outros querem manter-me
de pés amarrados à muralha
o que fui reinventou-se
o que devia ao mundo
paguei-lhe com esta vontade de viver
mesmo quando a vida é um saco de nada
atirado para os fundões da incerteza.
de planar sobre a lava quente
do vulcão que sou, em erupção
o que fui esqueceu-se de o ser
nada mais me habita
do que o prazer de levantar voo
quando outros querem manter-me
de pés amarrados à muralha
o que fui reinventou-se
o que devia ao mundo
paguei-lhe com esta vontade de viver
mesmo quando a vida é um saco de nada
atirado para os fundões da incerteza.
👁️ 22
FASCÍNIO
De grãos de areia
construo a nossa casa.
De frutos ruivos
visto os nossos dias.
Grão a grão, pétala a pétala,
embriago-me do fascínio
que é viver para ti.
construo a nossa casa.
De frutos ruivos
visto os nossos dias.
Grão a grão, pétala a pétala,
embriago-me do fascínio
que é viver para ti.
👁️ 20
ÉS A VIDA A ACONTECER
És a mão que pousa no meu peito
a sossegar-me
qual colo de mãe que embala
a inquietação que chora.
És os dias que correm desvairados
rumando ao fim da estrada
onde me aguardam os mais belos sorrisos
e o cumprir de todas as promessas.
És o azul que me inunda a cama
azul-céu, azul-pele, azul-felicidade
és orgulho a florir em cada esquina
és louvor a cantar por toda a parte.
És a vida a acontecer
envelheço ao som das nortadas
do bater de asas das gaivotas
da lamuria de um mar
órfão de barcos e de homens
qual colo de mãe que chora
órfã de uma inquietação para embalar.
a sossegar-me
qual colo de mãe que embala
a inquietação que chora.
És os dias que correm desvairados
rumando ao fim da estrada
onde me aguardam os mais belos sorrisos
e o cumprir de todas as promessas.
És o azul que me inunda a cama
azul-céu, azul-pele, azul-felicidade
és orgulho a florir em cada esquina
és louvor a cantar por toda a parte.
És a vida a acontecer
envelheço ao som das nortadas
do bater de asas das gaivotas
da lamuria de um mar
órfão de barcos e de homens
qual colo de mãe que chora
órfã de uma inquietação para embalar.
👁️ 16
ÂNSIA
Qual semente esquecida
anseio um raio de sol
uma leiva macia
uma manhã de bruma
o abrigo de um cômoro
uma cama de trevo
onde me deite contigo
até à metamorfose prometida
anseio um raio de sol
uma leiva macia
uma manhã de bruma
o abrigo de um cômoro
uma cama de trevo
onde me deite contigo
até à metamorfose prometida
👁️ 21
O AMOR É COISA PARA SE PERPETUAR NA ALMA
Se eu te pedisse
para me resgatares às malhas da insónia
saberias encontrar-me na apatia da noite?
Penso que nem notarias
o desalento das horas mortas
em que o sol nos castiga e se esconde,
negando-se a corar-te as faces.
É mais seguro pensar-te sempre a meu favor
como as rosas brancas que nunca destoam
ou a brisa que refresca a planície sem derrubar os girassóis.
Prefiro acreditar
que se te rasgasse as paredes do peito
e te arrancasse o coração,
tu continuarias a amar-me
porque o amor é coisa
para se perpetuar na alma
e não na carne regressada ao pó.
Se eu te pedisse
para leres este poema
saberias decifrar os meus recados?
para me resgatares às malhas da insónia
saberias encontrar-me na apatia da noite?
Penso que nem notarias
o desalento das horas mortas
em que o sol nos castiga e se esconde,
negando-se a corar-te as faces.
É mais seguro pensar-te sempre a meu favor
como as rosas brancas que nunca destoam
ou a brisa que refresca a planície sem derrubar os girassóis.
Prefiro acreditar
que se te rasgasse as paredes do peito
e te arrancasse o coração,
tu continuarias a amar-me
porque o amor é coisa
para se perpetuar na alma
e não na carne regressada ao pó.
Se eu te pedisse
para leres este poema
saberias decifrar os meus recados?
👁️ 21
E ASSIM NASCE O POEMA
A bruma
polvilha de prata
a melancolia da noite
a saudade entra
pela janela aberta
a soluçar queixumes
ao ouvido do poeta
e assim
inevitavelmente
nasce o poema.
polvilha de prata
a melancolia da noite
a saudade entra
pela janela aberta
a soluçar queixumes
ao ouvido do poeta
e assim
inevitavelmente
nasce o poema.
👁️ 16
UM BREVE SEGUNDO
Um segundo
é o tempo que demora o sorriso
a florescer-te nos lábios
num segundo
as palavras voam-te da boca
e circundam-me, mandarins coloridos
cantando ao desafio com os raios de sol
que te arruivam o rosto
um breve segundo
lapso de tempo em que mergulhas
no azul dos meus dedos
e o teu corpo desabrocha
como as hortênsias de maio.
é o tempo que demora o sorriso
a florescer-te nos lábios
num segundo
as palavras voam-te da boca
e circundam-me, mandarins coloridos
cantando ao desafio com os raios de sol
que te arruivam o rosto
um breve segundo
lapso de tempo em que mergulhas
no azul dos meus dedos
e o teu corpo desabrocha
como as hortênsias de maio.
👁️ 44
O PRIMEIRO BEIJO
A lua
cerrou as cortinas
e recolheu-se
deixando a noite
à cumplicidade
dos amantes.
As casas
as árvores
a ponte
o rio
todos nos observavam
expectantes.
Não é fácil
disfarçar o embaraço
do primeiro beijo.
cerrou as cortinas
e recolheu-se
deixando a noite
à cumplicidade
dos amantes.
As casas
as árvores
a ponte
o rio
todos nos observavam
expectantes.
Não é fácil
disfarçar o embaraço
do primeiro beijo.
👁️ 18
HAVEMOS DE SER SEMPRE MUDANÇA
Que sabemos da nudez do sol
que se espreguiça à flor da nossa pele dolente
sem saber com que voz choramos os íntimos prazeres?
Que sabemos do temor
que nos impele o ávido desejo
de sermos felizes depois da tempestade?
Que sabemos do pranto
dos lençóis da cama naufragada
nas tormentas de todos os bojadores?
E de nós? Que sabemos de nós?
Que a cada amanhecer regressamos ao inferno
de cabeça pousada na almofada de arame farpado
urdida a ferro e fogo e a sonhos desfeitos.
Sabemos que para sobreviver teremos de ser mudança.
Que havemos de ser sempre mudança!
que se espreguiça à flor da nossa pele dolente
sem saber com que voz choramos os íntimos prazeres?
Que sabemos do temor
que nos impele o ávido desejo
de sermos felizes depois da tempestade?
Que sabemos do pranto
dos lençóis da cama naufragada
nas tormentas de todos os bojadores?
E de nós? Que sabemos de nós?
Que a cada amanhecer regressamos ao inferno
de cabeça pousada na almofada de arame farpado
urdida a ferro e fogo e a sonhos desfeitos.
Sabemos que para sobreviver teremos de ser mudança.
Que havemos de ser sempre mudança!
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Francisco José Rito é o pseudónimo literário de Francisco José da Silva Vieira, nascido em Abril de 1969, na Murtosa.
Com dezanove anos faz a mala e faz-se à vida, numa epopeia que haveria de arrastar-se por mais de duas décadas. Alma dividida entre o sonho e a saudade, escreve e guarda desabafos e promessas que só à sebenta confessa.
Na diáspora faz de tudo um pouco, chegando a assinar crónicas em alguns jornais e revistas das comunidades portuguesas dos Estados Unidos e Canadá.
Em 2010 regressa à terra que o viu nascer e esconde a mala, prometendo-se não mais partir.
Em 2012 publica “Um Mar de Sentidos”, um livro de poesia e prosa poética, fruto dos desabafos por anos guardados na sebenta. É o seu primeiro livro. Um filho que idealiza único, mas que afinal será o motor de arranque para mais treze títulos já publicados.
Autodidata, escreve em prosa e em verso, com inserções pelos mais variados géneros literários, da poesia ao conto, passando pela literatura infantil, textos para teatro e romance.
Está publicado em dezenas de antologias e recebeu três prémios de poesia (um da Editora Pastelaria Studios – Lisboa, 2016 e dois da Câmara Municipal da Murtosa – 2020 e 2021).
Da sua já extensa obra destaca cinco títulos:
Em 2014 publica "Entre o Olhar e a Alma", com textos seus e fotografias a preto e branco de Carlos Figueiredo.
Em 2016 publica "Soneca - o Furão Brincalhão", uma fábula infantojuvenil, alvo de três edições diferentes, uma delas ilustrada pelos meninos e meninas da CAA – Valência de Autismo do Agrupamento de Escolas da Murtosa e patrocinada pelo Município da Murtosa e duas edições de autor – em português e em inglês – ilustradas pelo Dinis Sousa Rodrigues, um pequeno (grande) artista, à data com apenas 11 anos de idade.
Em 2018 publica "Os Meninos da Lagoa", um Conto de Natal marinhão, título que dará o nome a um grupo de teatro amador criado por si. Consequentemente, encenam dois textos de sua autoria (“Os Meninos da Lagoa” e “Arraial – o fado de cada um”) e iniciam um terceiro (Lá Vai a Rosa), projeto interrompido pela pandemia.
Em 2021 escreve – em parceria com dois amigos – “Diabruras, Momices e outras Trapalhices” um livro de poesia e prosa poética para miúdos e graúdos, novamente ilustrado pelos meninos e meninas da CAA – Valência de Autismo do Agrupamento de Escolas da Murtosa.
Em Abril de 2022 publica “Poderia ter sido assim”, vencedor do prémio Melhor Romance, atribuído pela editora Cordel D´Prata.
Para Dezembro de 2022 está agendada a publicação da sua primeira antologia. Chama-se “De degrau em degrau” e reúne poemas escolhidos da obra publicada entre 2012 e 2022.
Tem poemas musicados e cantados por vários interpretes.
Com dezanove anos faz a mala e faz-se à vida, numa epopeia que haveria de arrastar-se por mais de duas décadas. Alma dividida entre o sonho e a saudade, escreve e guarda desabafos e promessas que só à sebenta confessa.
Na diáspora faz de tudo um pouco, chegando a assinar crónicas em alguns jornais e revistas das comunidades portuguesas dos Estados Unidos e Canadá.
Em 2010 regressa à terra que o viu nascer e esconde a mala, prometendo-se não mais partir.
Em 2012 publica “Um Mar de Sentidos”, um livro de poesia e prosa poética, fruto dos desabafos por anos guardados na sebenta. É o seu primeiro livro. Um filho que idealiza único, mas que afinal será o motor de arranque para mais treze títulos já publicados.
Autodidata, escreve em prosa e em verso, com inserções pelos mais variados géneros literários, da poesia ao conto, passando pela literatura infantil, textos para teatro e romance.
Está publicado em dezenas de antologias e recebeu três prémios de poesia (um da Editora Pastelaria Studios – Lisboa, 2016 e dois da Câmara Municipal da Murtosa – 2020 e 2021).
Da sua já extensa obra destaca cinco títulos:
Em 2014 publica "Entre o Olhar e a Alma", com textos seus e fotografias a preto e branco de Carlos Figueiredo.
Em 2016 publica "Soneca - o Furão Brincalhão", uma fábula infantojuvenil, alvo de três edições diferentes, uma delas ilustrada pelos meninos e meninas da CAA – Valência de Autismo do Agrupamento de Escolas da Murtosa e patrocinada pelo Município da Murtosa e duas edições de autor – em português e em inglês – ilustradas pelo Dinis Sousa Rodrigues, um pequeno (grande) artista, à data com apenas 11 anos de idade.
Em 2018 publica "Os Meninos da Lagoa", um Conto de Natal marinhão, título que dará o nome a um grupo de teatro amador criado por si. Consequentemente, encenam dois textos de sua autoria (“Os Meninos da Lagoa” e “Arraial – o fado de cada um”) e iniciam um terceiro (Lá Vai a Rosa), projeto interrompido pela pandemia.
Em 2021 escreve – em parceria com dois amigos – “Diabruras, Momices e outras Trapalhices” um livro de poesia e prosa poética para miúdos e graúdos, novamente ilustrado pelos meninos e meninas da CAA – Valência de Autismo do Agrupamento de Escolas da Murtosa.
Em Abril de 2022 publica “Poderia ter sido assim”, vencedor do prémio Melhor Romance, atribuído pela editora Cordel D´Prata.
Para Dezembro de 2022 está agendada a publicação da sua primeira antologia. Chama-se “De degrau em degrau” e reúne poemas escolhidos da obra publicada entre 2012 e 2022.
Tem poemas musicados e cantados por vários interpretes.
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