Francisco José Rito

Francisco José Rito

n. 1969 PT PT

Autor de 15 títulos publicados, a sua obra viaja pelos mais variados géneros, passando pela literatura infantil, poesia, contos, romance e textos para teatro.

n. 1969-04-19, Murtosa

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CARTA

Diz-me, amor
onde guardaste o cordão de sorrisos que te dei.
Esses que procuras quando me aproximo 
e tu estremeces, pálido como os pensamentos
que me levam fora de horas ao lugar errado.

Diz-me onde escondeste 
o verde humedecido dos teus olhos
tão verdes e tão vivos
como a bruma amanhecida nas folhas de malva. 

A quem enviaste as cartas que escreveste?
Páginas cheias de recados por mim ditados
que tu sorvias como quem guarda 
o profundo e abstrato da incógnita.

Longa vai a noite e nós acordados
à procura de sentidos novos para velhas palavras
as mesmas de sempre, já sem sangue.

Isto que nos aflige são ânsias.
Suspiros febris que rugem
como a linha de fogo que ameaça nos longes,
que parece detida no impossível 
mas que nos alcança num sopro.

Nunca saberei dizer-te 
que na tua ausência me sobram lamentos.
Que sucumbo a todos os pecados.
Que ignoro a alvorada e os pássaros e os canteiros
e tudo o mais que a vida me nega.

Amor, amor… Morreremos no sonho 
se não nos desejarmos com a mesma raiva 
que o vento chicoteia as noites de inverno.
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Poemas

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CARTA

Diz-me, amor
onde guardaste o cordão de sorrisos que te dei.
Esses que procuras quando me aproximo 
e tu estremeces, pálido como os pensamentos
que me levam fora de horas ao lugar errado.

Diz-me onde escondeste 
o verde humedecido dos teus olhos
tão verdes e tão vivos
como a bruma amanhecida nas folhas de malva. 

A quem enviaste as cartas que escreveste?
Páginas cheias de recados por mim ditados
que tu sorvias como quem guarda 
o profundo e abstrato da incógnita.

Longa vai a noite e nós acordados
à procura de sentidos novos para velhas palavras
as mesmas de sempre, já sem sangue.

Isto que nos aflige são ânsias.
Suspiros febris que rugem
como a linha de fogo que ameaça nos longes,
que parece detida no impossível 
mas que nos alcança num sopro.

Nunca saberei dizer-te 
que na tua ausência me sobram lamentos.
Que sucumbo a todos os pecados.
Que ignoro a alvorada e os pássaros e os canteiros
e tudo o mais que a vida me nega.

Amor, amor… Morreremos no sonho 
se não nos desejarmos com a mesma raiva 
que o vento chicoteia as noites de inverno.
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ESTADO DE GRAÇA

Eis-nos
na bênção da aventura
cachos de uvas ruivas no regaço
um véu de colibris a cobrir-nos a pele dos segredos.

Eis-nos
no céu dos escolhidos
todo o sol que irradias me ilumina
todo o amor que canto te pertence.
273

A IDADE ETERNIZOU-NOS NO INTERIOR DAS HORAS

Sorvo esta convicção
de que todas as ruas me levam a ti.
Que és a ponte para todas as margens,
sereia que (en)canta em todos os mares.

O trânsito parou nos labirintos da procura.
A idade eternizou-nos no interior das horas,
felicidade cinzelada no mais puro mármore
num relógio do tempo feito à nossa medida.

Há nos nossos beijos de fim de tarde
a robustez de um campo de papoulas
debruando-nos o azul dos lábios
com raios de sol poente e sabor a vinho novo.
173

DEIXAI QUE CHOVAM DESAFIOS

Neste mundo novo que me espreita
Pego em mim e vou abrir caminhos
Sem olhar para trás, sem vacilar
Se é que a vida se faz de tempestades
Então deixa que chovam desafios
E o mais que ela tiver para me atirar

Neste mundo novo que me espreita
O que importa é ter olhos de ver
E olhar de cima para o que me rodeia
O que importa é não ter medo
De fechar os olhos e pular
Para lá do pôr-do-sol da minha aldeia
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A MAIS ALEGRE DE TODAS AS PALAVRAS TRISTES

Não é por isto ou por aquilo que te falo.
Falo-te porque sim. Porque é
falando-te que purgo este sentir.
Sei que mais falta me faz falar-te
do que a ti escutar-me,
mas é da alma que te falo, e nas coisas da alma
nem tudo tem de ser medido.

Hoje venho falar-te na mais alegre
de todas as palavras tristes: A saudade.
Alegre porque é uma graça senti-la
- felizes os que a sentem, porque viveram.
Triste quem não guardou na alma rosas em botão
para desfolhar ao entardecer da vida
que seja por veredas de saudade.
335

QUE SERÁ DE NÓS?

Alma aberta em chama
corpo aberto em prece
dos lábios rugidos firmes
gritos de guerras perdidas
a voz da sapiência que brada
mil e uma razões para recusar
o cálice de vida que se oferece.

Que é do amor escondido
nas entrelinhas das cartas rasgadas
qual das mãos algemadas
secará as gotas de cio
na pele dolorida da renúncia?

E de nós, que será de nós,
que sem sermos amantes
tememos a dor do amor acabado?

Tecelões à procura do novelo azul
azul ou pardo como os gatos da noite
os lábios sedentos de mel e hortelã
e a flor dos cardos a pingar-nos no ventre
a seiva húmida e quente dos beijos sonhados.

Entretanto é dia, e de dia
os gatos são transparentes e lúcidos.
300

TUDO ME SERVE PARA TE AMAR

Desbravo caminhos
nos beijos que me negas

Os meus olhos fazem amor
com a tua sombra
os meus lábios
com o teu cheiro
a minha alma
com o teu desdém

Provoco-te com beijos
rabiscados no vento
Tu, a mim, apenas recusas

Pensarás que não sei dos teus desejos
- framboesa, melancia, romã
bruma fresca, maré viva, algodão doce

Tudo te serve para me provocar
Tudo me serve para te amar.
336

CATIVO

Nas tuas mãos
o poder obliquo da carne
qual destino que passa
sem passar por nós.

Os dois no café
a mesa vazia de certezas
o clarão do teu olhar a incendiar-me.

Vais e vens
entre palavras fugazes
e eu fujo ao toque da pele que delira
como a morrer de rosas.

Assim quero morrer.
Sobre nós cantarei ao universo
trovas de um amor sonhado.

Sobre os meus olhos direi
que foram presas fáceis
à magia dos teus.
27

NO LIMITE

Eis-me, no limite de tudo
alma espartida entre a vida e a morte
entre riso e o choro

entre a vida e a morte
sublime momento em que tudo falta
e tudo sobra. Tudo, menos eu.
17

POR VEZES

Por vezes
via um traço de cor na noite dos teus olhos.
Um fio azul que os escancarava e te expunha
feito de mãos, braços e bocas irrequietas
como se o mundo inteiro te habitasse.

Por vezes
atiçavas o Evereste dos teus medos.
A voz bailava-te nas entranhas do desassossego
e sonhavas em surdina, rabiscando suspiros
no nevoeiro das madrugadas abismais.

Por vezes
eras tudo. De tudo um pouco te fazias,
a contrariar a sorte de seres tão pouco, do muito que querias ser.
Amado apenas! Retribuindo a graça de um sorriso,
voo de gaivota, pinho verde, flor de tangerina, felicidade.
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