Lista de Poemas

Assalto

Procurei nos ventos, o sopro de outros tempos.

Pendurei-me neles e fugi.

Assaltei o mundo e o tempo

E o tempo fez-se em mim um todo.

Ponteiros, tic-tacs insuportáveis.

Mas era eu, toda tempo e toda vento.

Toda longe demais para ser real

No mundo por mim assaltado e vasculhado,

Qual armário de sapatos assaltado em criança.

 

E se o tempo foge e me leva com ele,

Porque sou parte dele e ele parte de mim ou apenas porque sim,

Bocados de mim ficam na calçada:

Sonhos e planos e pessoas

Ou, tão somente, memórias...

Nessa calçada, nesses paralelos desalinhados,

Fica também desalinhada minha vida.

 

E assim termina a história do saque ao mundo,

O anseio de quem, ansiando, ansiou demais

E morreu ali, na calçada...

Vida desalinhada.




Fevereiro de 2009
👁️ 539

Sufoco Até ver!

Espaço. Aperto.

Sufoco gelado.

 

Faço das luzes as minhas estrelas,

Do chão um campo de relva em que me deito

Que me sustenta o peso mais pesado

Que o meu corpo.

O peso de tudo o que penso e não penso porque não sei pensar

Ou porque apenas nunca me lembrei de pensar.

 

Quatro paredes.

Meu horizonte aprisionado.

E quê?

Forço-as e rasgo-as e reduzo-as a nada

Como se fossem de papel

E eu lhes pudesse desenhar o mar ao longe

As nuvens e o escuro da noite.

 

Morro e morro todos os dias.

Morro porque quero e não quero.

Porque choro e desespero.

Porque sorrio sem fundamento.

Porque te quero e não te sei ter!

 

E assim morro.

Morro vivendo sufocada

Entre as quatro paredes rasgadas e pintadas.

Se eu pudesse colaria com toda a fita-cola,

Remendaria tudo o que fiz e deixei por fazer

Por falta de vontade, engenho ou ousadia.

 

Mas não há fita-cola que baste.

E se houvesse, não a saberia sequer usar.

Por isso faço, lamento e refaço… no mesmo erro.

Na mesma perdição e loucura

Na mesma falta de espírito e glória.

 

Está tudo bem.

Destino traçado e cumprido.

Frustrado, tranquilo, inquieto e resolvido.

Dualidade de tudo o que não pode ou deve coexistir

Mas fruto disto que me conheço e me preservo.

Me mantenho e me aguento.

Imutável.

Até ver!



Outubro de 2008
👁️ 490

Eu Espero

Dos pesadelos solta-se o medo

De não voltar a ver o verde da esperança;

A velocidade atroz com que os pensamentos

Se cruzam na auto-estrada da minha mente

Assusta-me exageradamente, sem perdão…

Sensações que se fundem no meu inconsciente

E emoções que forçam a porta

Da casa das lágrimas desesperadas, aprisionadas…

Confusão sussurrada aos meus ouvidos

Que de violenta e maldosa, abala a raiz do meu ser.

A corrida frustrada por algo inatingível

Algo que me foge por entre os dedos

E me cega de tanta inutilidade;

Noites demoradas devido às horas forçadas

Na lei frenética dos ponteiros do relógio.

Lutas, batalhas e confrontos perdidos no meu interior,

Que trazem por arrasto as culpas de ninguém.

As expressões esquecidas no caminho do absurdo,

O esforço em vão na altura em que parecia impossível.

Palavras soltas, fúteis e sem nexo

Que não trarão de volta a pessoa que procuro.

A metade do “eu” que adormeceu;

A razão deste texto não ser pintado de cor-de-rosa.

Mas eu espero até que a alma desperte do fundo do poço

Continuarei a esperar…

Abril de 2006

👁️ 525

Paixão

A vida segue fria
Como amarga incógnita.
Magoamos sem querer,
Apaixonamo-nos sem poder escolher.
E o tempo corre-nos entre os dedos
Sem que nos apercebamos.
Sorrimos sem compromisso
Cativamos alguém especial
E, num instante,
Um sopro leva-a para longe
Pondo à prova
Tudo o que tomávamos
Como certo, irreversível.
Efectivamente fomos dando à vida
Muitos trunfos e ilusões,
Paixões, amores e desamores,
Presenciando, assim,
Ao mais apelativo desfile
De emoções e sensações.
Admitamos então que
A nossa vida é bem mais complexa
Que a nossa simples existência.
Existência apenas conduzida
Ao ritmo dos instintos
Que nos permitem
As decisões mais erradas,
Precipitadas...
Falhamos sem razão,
Sem explicação.
Sem legítimo fundamento
E depois?
Com que pano limparemos
As lágrimas que nós próprios
Fizemos cair no rosto
De quem menos merecia?
E perguntas tu:
"Chamas a isto amor?"
Sabes o que te respondo?
"Não, prefiro chamar-lhe paixão.
Paixão desenfreada.
Frustrantemente indomável..."

Agosto de 2006

👁️ 526

Coleccionadora de Lições de Vida

Cai a chuva e bate na janela
Desta vida emprestada e arrastada
A que me vou tentando habituar!
Respiro e nenhum destes odores
Se assemelha ao que trago na bagagem.

A minha cabeça vai criando essas forças
Que me fazem falta e a vida vai-se encarregando
De me ensinar a sorrir ao mundo a cada vitória
E a sorrir para a minha alma destroçada a cada derrota.
Vou-me ignorando a cada descaída
Tentando esquecer-me das lamurias.
Não bastam palavras…
Os ditos pré-requisitos da vida
Vão-me deixando mal a seu bel-prazer.
Vivo a tentar provar a mim própria
Que sou capaz de dar asas firmes e prontas a voar
Às minhas decisões.
Precoce ou não… o vento murmurar-me-á
Nesses momentos em que me permito sonhar.
Coisas boas atravessar-se-ão,

Espero, em alguns dos inúmeros passos
Que tenho vindo a dar.
No traço cronológico da minha insignificante existência.
Como torre de cartas, caminho trémula
Nos corredores desta revolução a que me propus
E da qual não quero largar mão!
Nas paredes do meu pensamento silencioso
Guardo fotografias daqueles que mesmo longe da vista
Não são capazes de deixar de me dedicar
Uns segundos por dia para um “olá, tudo bem?”
O meu corpo não funciona a carvão ou gasolina
Mas sim de sorrisos encorajadores
Que não esqueço nem consigo ignorar.
Sou feliz, corre-me nas veias o sonho
E vejo sempre a luz ao fundo do túnel.
Como coleccionadora de lições de vida.



Janeiro de 2007

👁️ 509

Saudade

Sangue gelado,

Da frieza consequente da cólera, diria.

Cólera sobre as palavras, que mal soube recitar,

Que em dia enevoado

Baço e confuso, deixei escapar.

 

Dia errantemente bem vivido,

Com certezas incertas

De tanta falta de saber.

Nem a tal ente querido

Soube confiar meu pacífico render.

 

Vocábulo ingrato, insatisfeito

Que se fez o sétimo

Mais difícil de traduzir.

Pois admito minha falta de jeito

Mas não o sei sequer exprimir.

 

Orgulho, arrependimento,

Talvez até ciúme.

Desenterraram em mim

Este tão inexplicável vento.

Vento que me prende e desespera por fim.

 

Saudade minha. Envergonhada,

Soluçada a cada minuto de distância.

Ainda me esperas, secreto 

Na tua verdade sussurrada?

Trago comigo a nossa história, nosso dialecto.

 

Mas no fim,

Talvez pouco mais reste que este eterno afecto.



Agosto de 2008
👁️ 562

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