Escritas

Assalto

Francisca Bastos

Procurei nos ventos, o sopro de outros tempos.

Pendurei-me neles e fugi.

Assaltei o mundo e o tempo

E o tempo fez-se em mim um todo.

Ponteiros, tic-tacs insuportáveis.

Mas era eu, toda tempo e toda vento.

Toda longe demais para ser real

No mundo por mim assaltado e vasculhado,

Qual armário de sapatos assaltado em criança.

 

E se o tempo foge e me leva com ele,

Porque sou parte dele e ele parte de mim ou apenas porque sim,

Bocados de mim ficam na calçada:

Sonhos e planos e pessoas

Ou, tão somente, memórias...

Nessa calçada, nesses paralelos desalinhados,

Fica também desalinhada minha vida.

 

E assim termina a história do saque ao mundo,

O anseio de quem, ansiando, ansiou demais

E morreu ali, na calçada...

Vida desalinhada.




Fevereiro de 2009