Lista de Poemas
«Noutros Rostos» XIII
ó meu novo amor
choro ao recuar a morte prematura contra os robustos estilhaços
do inferno bem visível e a vida compacta correcta morre
às mãos frívolas desta triste humanidade...
«Noutros Rostos» VII
vai caindo a manhã mortal
a bainha da sua luz está longe
mas enche-me a boca nua de folhas e poeiras que correm loucas
entre o sol a perder-se no oriente
e tubos de girassóis elementares únicos
a esquartejar o rosto
trancando os buracos dos ossos que se estrangulam a meus dedos
e de ponta a ponta da carne pulsa a beleza do ar se amo
eu fugia com o reflexo geológico a travar-me o sangue solar
escorrendo nos meus macios braços
por entre ribanceiras e encostas abaixo e acima
feito palavra delicada
corria como um violino d’água a pulsar inteiro
ao som do esquecimento das coisas dignas
estendo-me depois num mole poço de flores com os pulsos
mergulhados nesse sangue matinal estancando-o
enquanto o seu intenso perfume me batia
dentro da barriga
a barriga cheia de cócegas
saía fora dessa barriga doida
movia-se para o lado desta casta tarde
a morrer cansada
nestes lábios que sobem até tocar na noite
e dizer-lhe baixinho:
bom dia meu amor mais lindo!
«Noutros Rostos» IV
dever-me-iam ter dito que não existo e que nunca existi
neste mundo
ou antes um fragmento suspenso da escuridão estalasse a voz
ardente espalhando a criação na boca adentro
a boca purificaria as veias silenciosas das mãos a boca esmagaria
a ardência da carne a cantar bem perto no fundo do sangue
as células do sangue mover-se-iam entre o universo e a fala
rasgariam as palavras eternas desta boca tão feliz
jamais me deveriam ter dito coisa alguma
talvez me pudessem ter dito para eu correr absorto
todo nu sem voz submersa no meio da carne pura
a esconder-me dos gemidos da noite calva
os gemidos a esconderem-se de mim distraídos
e os movimentos amplamente puros cheios de luz e pó
passariam a água sobrenatural
como sombras transformadas a arranhar esta doida cabeça
dever-me-iam ter dito que os mortos caçam as manhãs
as tardes as noites – as horas em inércia
«Noutros Rostos» II
cá vais tu de vértebras nos braços a correr pelo estrangulamento
do ar que te leva que te faz voar com o sangue como asas opacas
mas brilhantes
de boca na cabeça e pulmão na barriga tentas seguir uma travessia
exemplar sem erros sobrenaturais
os rios são pretos as árvores rasgam as nuvens as plantas sangram
por entre as casas que vais vendo
a vida é foneticamente fodida puta da vida mesmo virada de patas
para o ar em labaredas
e a vida floresce-te sabiamente...
«Noutros Rostos» VIII
vou contando todas as vidas tristes que se amadurecem
no fundo dos meus olhos a passarem atrás das coisas gastas
em cada rua vazia espero pelo seu sabor mudo
e desapareço naquele estremecimento que sai virgem do chão
por onde caminho novamente sombrio
«Noutros Rostos» III
abrigaram-me na palavra paciente e sincera
envolver-me nas lágrimas de girassóis a gemer é como prolongo
a vida
até à palavra se amar doce e inocente
como quando corro inesperado seduzindo as letras uma por uma
e sufoco a fecunda escrita na melancolia que é tão minha...
«Noutros Rostos» I
pus-me a espremer a atmosfera coberta por um sabor a frutos
selvagens caminhei de tronco nu em cima desses enormes
campos silvestres
era manhã ainda e os pássaros de uma espessura incrível rodavam
o vento cinza ao contrário
decidi erguer as pernas como a brincar com a névoa que toca
suavíssima na linha do céu azul liquefeito e beijei essas aves
junto às rajadas de chuva que estremecem no meu coração
depois deitei-me por baixo das suas asas em giesta e escorro
como uma nascente abandonada pelas estrelas no quebra-mar
as aves atravessam agora um aglomerado de bosques sombrios
muito húmidos frescos com cheiro a nuvens carbonizadas
flores a voar com hálito a sombras sugam abismos maciços
entre astros e cometas a roçarem-se numa mágica doçura comovente
durante a minha eternidade campos aves céu mar frutos nuvens
estrelas e bosques adivinham nas minhas mãos um olhar melancólico
onde danço em cima de pedras preciosas de tédio em tédio
e num só golpe trémulo nos lábios diamante a minha majestosa
harmonia desencadeia novos silêncios...
«Noutros Rostos» VI
perdesses o medo gritarias toda a noite sem um arranhão sequer
erguerias numa taça de flanela o tamanho do medo miudinho
e saberias que a tua memória se desfarela menor ao medo
que te consome e controla a força com que te deitas
ou se morres vertiginosamente
«Noutros Rostos» V
Sem Título 58
Comentários (0)
NoComments
Nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Aveiro.
Poeta.
Português
English
Español