Lista de Poemas
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sem título 46
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«Noutros Rostos» XV
cá vais tu de vértebras nos braços a correr pelo estrangulamento
do ar que te leva que te faz voar com o sangue como asas opacas
mas brilhantes
de boca na cabeça e pulmão na barriga tentas seguir uma travessia
exemplar sem erros sobrenaturais
os rios são pretos as árvores rasgam as nuvens as plantas sangram
por entre as casas que vais vendo
a vida é foneticamente fodida puta da vida mesmo virada de patas
para o ar em labaredas
e a vida floresce-te sabiamente...
«Noutros Rostos» XII
em todo o andar doido dos pais
escorrega sempre um sorriso leve entre os braços puros
e as cabeças dos filhos deslocam-se
os corações ao alto
como tremem e tremem por dentro
como são tão silenciosos corações e deliciosos sorrisos
e os pais envolvem comovendo-se
os braços apaixonados
os rostos dos pais
inundam-se nos lados das suas bocas
pelas veias e sangue arterial desentupidos
e os filhos rodopiam nos dedos formosos
no chão escorregadio
os filhos abertos ao novo amor sentam-se nos colos calmos
dos pais sentindo todo aquele momento visceral
e eterno
movem-se em silhuetas vivas
atentas a tudo o que se passa e mexe à sua volta
procuram o manso amor a florescer
na cadência absurda das coisas inseparáveis e escorregam
nos pequenos corpos celestes
enquanto a paixão surge numa sombra uma paixão quente fria
os pais têm urgência
nesse amor são do dia para a noite
progressivamente maiores e mais fortes
todos os filhos a certa altura perdem-se
nas brincadeiras para que os pais os encontrem e dancem
a levitar junto ao tecto
junto às janelas que batem noutras janelas
que batem por cima nas cortinas loucas por voarem
com a brisa daquele minúsculo vento levíssimo
a transbordar de imagens suores
e flores deambulantes
mas amplamente perfumadas
e o vento a respirar
dos movimentos doidos dos filhos encavalitados nos ombros pérola
dos pais
são vestígios desse doce amor
a erguer-se dentro de todos os órgãos
até chorarem os corações e os sorrisos fora
os seus lábios estão na fímbria do andar pontual dos pais
mas os pais atravessam a morte desértica
pelos seus filhos
os pais são realmente heróis anjos de guarda que mergulham
no magma da terra adentro
e esmagam-se no seu interior por eles
os pais devem ser as coisas mais frágeis e dóceis do mundo
porque os filhos deformam a expressão
do próprio mundo
e alagam os pulmões e cabelos dos pais nos brinquedos de fogo
e nos jogos adúlteros um pouco mais tarde
os filhos sabem aos pais
andam à velocidade das ruas intermináveis
dos becos frios
contudo confidentes
e os pais os mais elevados Deuses
chegam a rachar os seus próprios ossos através da saliva
e lágrimas dos altos filhos
amor mortal
amor a desaparecer no lusco-fusco
todo esse triste amor atira-se precipício abaixo sem pressentir
o desassossego espiritual dos filhos e pais recalcados
pelas submersas infâncias
todas as palavras que os filhos escoam pelo ar negro
arrancam a doçura do mar do sol
mas também das casas
dos quartos intensamente alagados pela força anterior
das belas memórias
como a interromperem-se num vazio corajoso e recente passado
os pais desenterram essas lembranças
como escapam nelas também
filhos e pais a queimarem-se melancólicos
depois certo dia os filhos
numa rara homenagem
escavam de novo o chão da sua casa e penetram solitários
dentro dos quartos
engolem toda aquela água d’alfinetes pretos
para se entrelaçarem nos velhos sorrisos dos pais
vêm à superfície
com os pais às cavalitas
e como brilham o recente caminhar!
sentam-se hoje nas mãos uns dos outros partilhando o choro nu
os pais embrulhados nas roupas dos filhos de alto a baixo
tocam-se em ambas as peles
nos ligeiros poros esvoaçantes beijam-se
nas faces viradas ao avesso com o relevo da luz
a asfixiar os seus reflexos
e as luzes solares inclinam as estrelas cadentes equilibrando
filhos e pais
num sorriso possível sorriso amante
nos pensamentos magnificentes
nada há na morte
pensam filhos e pais pois a vida incha toda a matéria que se mexe
com toda uma violência e alegria certas
germinando por si
o incondicional amor que nas profundezas loucas dos filhos
desentranham o coração manso dos pais
que desliza no sorriso
saboroso dos filhos
que desliza na sua doçura
deslizando na força do amor
que desliza na violência sonâmbula do medo
e crê-se
que o amor entre pais e filhos por fora e por dentro
deve acontecer
e ao acontecer devemos acreditar
que por fora e por dentro está todo o nosso leal amor
e todo o leal amor acontece
«Noutros Rostos» XI
ou a vida é curta e antónimo de amor líquido
ou por agora recolhemo-nos na própria ideia de morte
«Noutros Rostos» XIV
porque durante o silêncio da noite tudo respira tranquilo
na mais breve insolvência musical
e na cama ouço a inocência das eternas servidões...
«Noutros Rostos» XVI
sei de teres um saco que fala sobre o sono ainda misturado
num copo em brasas
curioso por bater
com a minha sombra diante à criatividade desse saco
nele intercepto mensagens alheias das noites cheias de fins
ou acasos
todos nos dizem para cantar sob o carreiro gélido
onde verdes árvores lá fora se revelam na voz de silicone
por trás das portas a despenhar-se sobre cadeiras retiradas
contra os buracos negros
enquanto mesas se entrançam no ar às voltas
como respiro e interrompo
trepando o fumo trôpego dos garfos e talheres confusos
a romperem os sóbrios guardanapos de tecido diamante
derretendo-se na luz que flutua leve
talheres no princípio
garfos no cume empoleirados no pano rústico preso à jarra
que toca a melodia desaparecida
que esmaga as mesas
que torce a voz contra as portas
que toca a própria mão alastrando o saco
e se bebe na loucura nocturna
o soalho de madeira rubi ressente-se entre os rolos de árvores
e baloiços de folhas afrodisíacas
a amolecerem espantadíssimas nas sobrancelhas queimadas
com imagens panorâmicas do saco
como a rodar nos rodapés que explodem dentro dos vernizes
a espalharem-se p’la poeira das vidraças terríveis
os relógios fumam os céus indignados aceitando-se corajosos
e reles vistos à lupa
o sol de aço corta a vista como os seus raios de fogo cortam
as mãos
o fogo cresce
aumenta o sangue largo
enquanto labareda a roçar no coração
e o coração insufla e inflama o corpo que se ergue
e estanca o lume
manuscritos voam em cima dos pratos
os pratos compostos por tintas em escada finalizam-se à vista
sombrios e tristes
desde a força profunda das mesas
até se coserem às secretas portas
que fervem o trilhado coração do saco aos pedaços
de fibras entranhadas
escorrendo à volta dos corpos
desenhos de luvas
peúgas originais retratos folhas plantas
gaiolas por baixo de alcatifas submersas
cigarros dentro uns nos outros onde a água trabalha
e escalda esse pressagioso ofício
um castanho cavalo gira perto do iminente sofá
e o cavalo cavalga dentro das paredes
a estoirar a ventania obscura
e engole
uma almofada de acre vinho
e no próprio relinchar como desabrocha!
tapeçarias de névoas esvoaçam entre fragilidade e angústias
via o saco a inundar-se no arame farpado
com que o ergo
até sufocar o amanhecer fusiforme
a saltitar nos nós de sangue
uma breve leveza de ofício
e rasgam-se fissuras na carne como outra carne funda
e ensanguentada
em estado de choque
assim irei aprender também trigonometria astrofísica
dos cometas às galáxias inundadas de gravidade
enquanto saco é elevado
nós somos elevados
e arrastamos as imagens de uma ponta à outra
devoramo-nos
na engrenagem atómica
em frente aos vertiginosos olhos anda o saco a pensar nas coisas
o saco desmancha a doçura do pescoço
sangra-o nas mãos vagarosamente
à raiva tão veloz
canta nas fracturas da terra na cabeça movida por circunferências
saco chato dorme a alumiar a escuridão
uma chatice mortal!...
mexe-se aquele saco com pensamentos inquietantes
sei-o inquietante
é mestre e eu o aprendiz
com a cabeça no fundo dos meus joelhos a estilhaçar
devassa os astros
explodindo-os de encontro às estrelas
e todas as altas estrelas bailam na ponta dos dedos pretos prata
a deslizar na coxa dissolvida
contra espirais cadentes os astros são a sonoridade
cantam flores e jarras
e as estrelas o ritmo maldito feito de cera luminosa
em que as trevas vagabundam
nos espelhos rápidos
dentro da penumbra pendidas nos aromas megalíticos
que vão de sabor para sabor
pela aragem abaixo
a levitar na sua matéria enlouquecida
e morde a luz
porque os perfumes celestes
se despedem e diluem o espaço e o tempo
como num avanço e recuo doce
estremecendo as distâncias em tempo irreal
deixo-me cair anterior a esse saco entrançado nas veias adentro
e racho as mãos à velocidade de um galho precioso
na dúvida
alastram-se as abas que dançam
enquanto o saco sufoca numa janela contorcida
deambulo
na opacidade dos espelhos e vidros
que nunca mas nunca falam dele ou de mim
– o saco, por exemplo...
«Noutros Rostos» IX
trago da beleza obscura o alimento que me faz viver secreto
e tão distante...
«Noutros Rostos» X
amo a substância da dor
sombras em pranto correm de um lado para outro sem olhar
para trás ou para os lados ou nem sequer a pressenti-la
de frente só me apaixono pela ferida daquela transparência
que incide na oculta beleza
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Nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Aveiro.
Poeta.
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