Escritas

«Noutros Rostos» VII

Filipe Marinheiro

vai caindo a manhã mortal

a bainha da sua luz está longe

mas enche-me a boca nua de folhas e poeiras que correm loucas

entre o sol a perder-se no oriente

e tubos de girassóis elementares únicos

a esquartejar o rosto

trancando os buracos dos ossos que se estrangulam a meus dedos

e de ponta a ponta da carne pulsa a beleza do ar se amo

eu fugia com o reflexo geológico a travar-me o sangue solar

escorrendo nos meus macios braços

por entre ribanceiras e encostas abaixo e acima

feito palavra delicada

corria como um violino d’água a pulsar inteiro

ao som do esquecimento das coisas dignas

estendo-me depois num mole poço de flores com os pulsos

mergulhados nesse sangue matinal estancando-o

enquanto o seu intenso perfume me batia

dentro da barriga

a barriga cheia de cócegas

saía fora dessa barriga doida

movia-se para o lado desta casta tarde

a morrer cansada

nestes lábios que sobem até tocar na noite

e dizer-lhe baixinho:

bom dia meu amor mais lindo!

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