Lista de Poemas
sem título 10
Ouve-te para desdizeres da tua irremediável
grandeza dessa forma deves acordar os amarelos
lobos já há muito enterrados. Circunda com muito
cuidado as grutas de água em que tuas mãos serão
desinfectadas. Põe as correntes marítimas na tua
caveira e atenta-te pois o desespero vai-te pôr
garras quando o perverso verso do sol se pôr.
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sem título 6
Cantam as túlipas.
E busco um cristalino mar
dum azul intensamente sensível.
Agora há-de sobressaltar-se gemendo
na sua farpada dobra
que me torce as unhas até esmagar
a água em volta do corpo,
por fora e dentro arbitrário,
ao entrar e sair salva,
como a luz florescente
duma janela longínqua debaixo
deste lento mar penetrante.
E faz idênticas espumas polirem meu suspiro
enquanto suavemente me afundo,
sem ser-me ninguém,
num mar de túlipas lavrado que se volta
para as palmas de minhas mãos esplêndidas
e me esvai toda a ferida
e peso rubros.
Bato embaciando-me
contra o sangue espesso das pedras
a baterem no espaço vazio
das pedras batidas
pela eternidade viva.
Batem-se as túlipas
no estremecimento das pétalas
contra o calor
sob o vento elástico.
Concentrassem
as gotas das coisas,
das terras despidas, de órbitas em órbitas,
mover-se-nos-iam
para a desastrosa profundidade volumosa
a inundar o que verdadeiramente
nenhuma pessoa possui.
Amamos o corte da neblina
encostando o vidro à cara
num clarão louco.
Sentimo-lo silencioso
para ilustrar a destruição
enquanto deixamos passar o horizonte
lá longe a planar.
As entranhas mirradas
a migrarem na concavidade nua
são hoje as sorridentes túlipas
a embalarem-me o fresquíssimo alvoroço,
donde rítmico,
regressei de dedos dados
ao frescor como desponto.
Quem visse
aquele pendurado cometa mole
a incendiar-se em jacto escorregadio
na copa das túlipas,
seria uma qualquer rota
pousada
no seu caule rodopiante
a colar-se à pele.
Tocas-lhe
e queimas-te intensamente
como queimaram um dia as túlipas
no momento em que se desprenderam.
Enumero o lume por baixo
e fecho-o pequeno.
Adormeço pela geada acima
escrevendo
o mar às túlipas surpresas.
Canta todo o alegre mar cristalino.
Cantam as cores que vêm do fundo limpo
de todas essas túlipas.
Cantam túlipas em mim.
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sem título 50
Toco na harmonia do suspenso caminho
sei-me lamento pasmo rolado
em erupção paralisante.
Um passageiro muito só
que cai, desequilibra-se
no esquecimento indiferente.
É terrível não dar mesmo
encontro de mim.
Perco-me num denso escuro sombrio
onde as visões
que sublinho fatigado,
picam a esquecível memória
donde parto.
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sem título 5
Sei como te fazes
procurar pelo ar atmosférico
numa atribulação
formando delicadas
palavras clandestinas.
Basta fazeres-te naqueles dias
sem regaço à chuva
para simpaticamente assumir
a melancolia desfeita
como a tocar as alturas
sobre tremendas paisagens
a incidirem gentis, calmas, isoladas
e algumas letras
sem alívio sabotagem.
Ou pouco ninguém
diabolicamente se cantará
no instante da matéria a rodear
o peso bárbaro das mãos em espasmos.
Pedem pois vidas maravilhosas,
fazendo renascer o sopro casto
virado para dentro do pulso cantante
e bailas perante os teus dedos espantados
despenhando-os na pureza da carne a furar
a esplêndida noite dita
durante a curva do sangue intenso,
como se procurasse
a estabilidade daquilo que encontrei
porque tu, numa voz, o perdeste.
Senão,
encontras a luz esmigalhada
contra a pele
a estrangulá-la na fímbria
à cabeça crepuscular adentro.
Virarias um rolo de papel sôfrego
que não se percebe
enquanto atravessa naquela comoção
da próxima curva abstracta, céptica, iminente,
ensinando à parte,
quanta estrada chumbo
cheira os ganchos
quando roçam a ventania curiosa
entre corpos fortes.
Nem mesmo com a parada
de desejadas chaves frágeis,
em turbilhão,
por se fecharem,
inventas toda essa estrada de vitalidade
a manquejar pormenores sábios
mas realmente o farás
como outras palavras esgravatariam
o céu inteiro lá pelos lados empurrando
certas maravilhas que gráceis brilham.
Deitas-te entre joelhos
na dança de meus lábios deslizantes.
Como num edifício de bruma redonda,
ardes toda a boca pousada
onde o beijo me procura
e te sabe.
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Nasceu em Coimbra, 30 de Julho de 1982. É natural e reside em Aveiro.
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