Lapso existencial

Perto.
Perto de tudo,
mas nunca próximo
o bastante para
estar dentro.
O que é?
Eu não sei.
Não poderia saber.
Só o que resta
é dançar a valsa
da santa ignorância. 
E se é santa,
sinto-me abençoado:
anistiado do beijo
- mas também do bafo,
expulso da festa
- mas também do fim,
sem quem me ame
- mas também invicto,
sem quem veja
- mas também infiltrado,
sem existir
- mas também eterno.

Perto de ser poeta,
mas longe do ritmo.
Perto da bicicleta,
mas longe do pedal.
Perto da alma abjeta,
mas longe da espécie.
Do que é que estou
perto, afinal?
Da figura no espelho
é que estou
mais distante.
Estou no estar da estante?
No andar em Andaluzia?
No sol do mirante?
No fundo do oceano?
Uma linha no plano?
O rosto ameno?
O casal fumegante?
O cinza da quadra
quando a bola passa
na luz do poste?
A viga da ponte?
Mentir é mais fácil:

Sou pai de fulano,
filho de ciclano
e um trabalhador
amante do sucesso
e da família.
Alheio ao protesto
incessante
da consciência,
do absurdo
rastejando no neocórtex
da cabeça animal.
Gânglios basais?
Hábitos transversais?
É tudo cérebro
e eu não tenho
a mais ínfima noção
do que é
essa massa 
cinzenta
chamada
esperança
- que resiste 
ao constatar 
que estamos 
perto.

De que?
Eu não sei.
Mas sigo.
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