Lista de Poemas
Migrar
1.
Migrar por uma necessidade imperiosa
e não como este abajur
sendo levado da sala para o quarto
migrar é sina muito antiga, está na primeira
página, no primeiro mar, na primeira trilha
que o pavor abriu.
2.
Numa igreja em Roma uma moça toca
sete sinos ao mesmo tempo (títeres ela toca)
mas não consigo desvendar os desígnios
divinos de nenhum deles - graves e agudos
todos entram e saem de mim sem deixar vestígio
ao passo que a moça parece dar-se a eles
como a gazela e a girafa
ao rio: pernas abertas, volúpia e medo crescentes
que o demônio delas está noutros dentes.
Nômade
Vastidão é o termo para um leito seco
de rio, por onde flui a fio de espada
a vida passada a limpo, ou não,
por vascas razias desertos sermões
algas mármores gavetas e outros zelos, ó
vastidão é onde repousa o talvez
a dúvida que certos nômades
nunca abrem em si e nos outros, firmes
cientes de como é único
sair das luvas e das galochas
das gavetas onde se guardam os açoites.
Noites em branco são longas, gritam.
Ato único
Por falar em amor, o que te mostrei
era tanto que se acabou
e por falar em ator e atriz
a postura zen não nos serve
nem nas escadarias do Ganges ou da Muralha
e se no teatro Kabuki
entra no palco um homem com voz de mulher
este painel, essa realidade não nos serve
muito embora, segundo uma canção,
de tudo se faça canção e caução, mas
voltando à desejada das gentes, o que me deste
lá mesmo no palco acabou-se
feito peça curta para entretenimento
puro teatro de sombras.
Arritmia
(e porque o diabo não se dá ao pouco
em nenhum momento pediu pelo nome de deus
pelo que não fez pelos seus nada pediu
ao sobejo à solércia e ao estigma
o desprezo sendo suas guias no espaço
que o equador divide e o homem adquire)
Com que roupa ?*
Por que essa roupa a escolhida, entre outras
sedentas de verem o dia e a noite
vivendo toda a assimetria social
calcada em histórias e estórias
de tantos que se foram, de muitos que por aí estão
vestidos de baratas tontas, ou não ?
Por que se escolhe essa e não aquela fivela
para compor o fato, essa camisa e aquela calça
bem como o intento vitorioso
de certa cor ?
Não pergunte não responda - diz a canção.*
Vá do jeito do teu dia. Vade retro, criatura.
O que me deste era tanto que se acabou
Em torno do espanto não há dúvida
porque o amor não se furta
em ser ciranda ou fuzarca,
seus veios não se negam
em abrigar seu contrário
como se abriga um segredo
de sangue, um favor no armário -
condições que muitos consigo levam
e assim o mundo nunca saberá
que riquezas ignora,
a quanto trigo impõe sua rudeza
o joio que só conhece o próprio umbigo.
Lâmina
A lâmina que abre o alimento fere a tábua
com riscos que lembram a peruana
Nazca, ó Belzebu, tal cozinha é o avesso
do que conheço de cortes e de fogo
em alto e baixo relevo, e se a ela me atrevo
mais me quero distante dessas paredes
com enredo de palatos em lascívia, nenhuma fobia
no ambiente onde a faca abre, corta e recorta
convidando a que se abra a boca e se feche a porta.
Conservatória
Ouvir de leve cada tendência, cada naipe
pondo assim o teu nome na pauta do dia
no que houver de sustenido e bemol
soltos pelo siso da flauta e pelo suor
do trombone escorrendo pela rua
com algum tema novo para velhos
enamorados, vá lá, para jovens
pendurados numa sextina, que um bandolim
já assevera ter reinventado a roda
de samba, então, por mais
que possas cantar a tua apologia à Musa
através de um staccato ou de um improviso
em sol sustenido maior, ou menor, melhor
que vás à praça e subas na locomotiva
indo em busca do que talvez ainda não existe.
2.
Duas peles, dois tambores vi rufarem um hino
e a mim não me pareceu estranho
que ambos tanto se dessem
nos abertos da aldeia
tanto se dessem zangão e abelha
um ao outro, inquiridos de distância prudente
por quem um dia tambor se fez couro de ovelha.
3.
Pareceu-lhes a todos terem sentido bem
o que o som lhes dava: o fim do cansaço
vindo de cada boca e de cada braço de instrumento.
E se ergueu lá mesmo um monumento ao silêncio.
Quase esfinge
Um lugar para o estudo da astronomia - esse veio da grande anatomia -
precisas saber que corpo celeste te afugenta de ti
que emagreces a olhos vistos, feito um jequitibá
doente, um cristo em vias de deixar o teto do prédio, nédio
que és, urge que venças tal consumpção, lembra
o peixe morre por falta de toca.
Na China há um rio chamado Nu
À espreita, sou homem solteiro,
em torno a mim formam-se vazios círculos de gases, redemoinhos
ouço que me querem numa trempe
os de sempre: invejosos
de que suas mulheres comigo sejam
aves, sépias, lagartixas, camaleoas, sim
o futuro é pouco para mim que invento
ser homem sem viveiro
quando, de verdade, nem existo.
Comentários (4)
Bopa poesia Darlan (continua)
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.
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