Lista de Poemas
Cume e cúmulo
No cume das coisas está
o por trás do fato: acalanto
ou suicídio, leis ou perda
de memória, cúmulos no céu
avisam sobre o clima, porém
o cúmulo do espanto instrui
que em toda ação falta algo,
de tudo o que nos infesta
nada se completa (então
é preciso estar atento e forte
alheio à sorte), avisa
que nunca se atinge de fato o extremo
e que no amanhã, no ontem
e no agora é preciso saber
que um barco com avarias
é o que se é vida afora.
Arar em círculos
Um dia, sonhando acordado, entraram na cama
premissas e promessas, lírios e delírios
do campo e do asfalto, drama de polvos
sépias e camaleões vendendo eixos de conduta
ao paralisado, bem e mal amado pelas criaturas
com um ponto em comum: o rabo: anuros micruros macruros -
o que os denunciou a mim, de rabo preso sem fim.
Anelo
No jardim ao lado uma banda respinga canções
logo de manhã uma leitoa no rolete
e fogos de artifício (para os de armistício
a história é outra), maritacas no jardim da vizinha
uma hera me adverte
que solo bom é o de clarineta em dueto
com viola - pura demência no jardim ao lado.
Lugares
Conheço um lugar sem nome e sem datas
cobrindo o ir e vir cotidiano
onde inexiste o hábito de roer unhas
e assim, por exemplo, o lar se torna um
suborno difícil de ser aceito
um laboratório que se abre de colmeia
mas é pesadelo cobrindo o trajeto
garagem-escada-sala-banho-quarto
uma aldeia comum, que não desmoraliza o espanto.
Conheço um lugar com nome e datas
cobrindo o ir e o vir da fala das ruas
nas quais, após lutas, vige o hábito de se roer unhas
e assim o lar se torna um suborno
fácil de ser aceito (livros na varanda, bike na escada)*
neste laboratório que se abre de colmeia
às vezes pesadelo cobrindo o ir e o vir da sala ao quarto
enfim uma aldeia "que desmoraliza o absurdo".*
Conhecemos, sim, ecos imaginários.
Circense
Um animal detrás de uma teia de metal
olha o mundo com a apatia dos zumbis,
que é muito transtorno para um bicho
estar impedido de tudo, então, chorar
é o melhor tédio, e o animal se amua
e recua, avança a pata que alcança
o nariz e se coça diante da moça - mossas
ambos as têm - que é assim a vida de bichos
na esquina na praça no mall no adro
no circo no qual nos damos na linha de frente,
ouvindo com nitidez o riso solerte
da sombra, os braços do amor caindo
do trapézio. Aonde quer que se vá, um animal nos mede.
Mental
A moça está sem pressa
alheia a um horizonte avesso
aos distúrbios em seu interior
parece que para ela o futuro
ficou no líquido amniótico,
o tempo não é híbrido, e a mesa
insossa, quase tormento, mas
jogar a toalha parece algo distante
à desconhecida mente da moça
sentada num lugar comum
pensando não pensando.
- por Darlan M Cunha [poema modificado no dia 22/06/2024 // poem modified on June 22, 2024]
https://www.poemhunter.com/poem/mental-9/
*****
She is unhurried
others inside out horizon
to disturbances inside
maybe for her future
summarize in amniotic fluid
time is hybrid and the table
bland, almost punishment, but
throw in the towel seems distant
the unknown girl's mind
an ordinary chair
thinking about not thinking.
- Translated by James MCLAIN
https://w0.poemhunter.com/members/club/profile.asp?member=5227566&show=forum&list=poem&page=1
Alas, celas, corredores, passagens secretas
Madeiras policromadas e mais peças
em alabastro – santas santos anjos
pastores e profetas do barroco
e o diabo sobre a colina*
pó de ouro, prata e pedraria
padres e noviços e alunos
dançarinos bem jungidos
pelo pescoço, ó tempo sacerdotal
de discentes e docentes em riste, gozos
num turbilhão de gonzos e tramelas - vidas
lacradas à bisbilhotice da aldeia, em vão.
*: Il Diavolo sulle colline. Livro do italiano Cesare Pavese [1908-1950]
Abintestado
Alguém abala o aqueduto
anônimo ator ou atriz
que já não propõe nada
a um cotidiano só luto.
A aldeia é afã, quer ver
a criatura anular empecilhos
e finalizar-se em silêncio,
sofrendo por adeus
as circunstâncias de cada um
virando as costas, ou não,
a quem as costas ao mundo virou.
Mar esteve aqui
O mar esteve onde estamos
até se fartar (essas marcas
dizem de sua estadia)
e se mais pouso aqui não fez
se após milênios se afastou
premido pela angústia
por mudança de relevo, algo assim
quase como mudança de sexo,
talvez, o mar não teve saída
mas continua no de sempre levar
amores e desamores, molhando
e acendendo pavios do sim e do não
nos hábitos de distantes aldeias
no tempo de seca e no de cheias
que o que mais nos move
é o que ainda é só imaginação.
Homo erectus pekinensis
Meng Jiangnu, cujo marido morreu
na muralha do Império do Meio,
tirou do seio a dor feita de conhecidos
tijolos, porque intuía o que se fizera
da abundante argamassa: ossos
dos milhares que lá estiveram, ossos
triturados à moda da Casa, misturados
à receita para colagem, sim, todo muro
exige que se lhe faça jus aos intentos
e Meng Jiangnu cantou sua dor,
segundo a lenda, não sabia das asperezas
da arquitetura de defesa, menos ainda
de vontades internas bem arquitetadas.
A canção de Meng cobre toda a China
e nenhum bambu a desconhece
mas nenhum rastilho de pólvora leva o nome dela.
Comentários (4)
Bopa poesia Darlan (continua)
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.
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