Escritas

Lista de Poemas

Da vida e homem

A vida é piracema desregrada
em rios de tão vasta andadura
que é preciso tê-los quase à pulso
nas dimensões de sua escravatura
 
porque ao homem cabe o exercício
de amoldar-se à condição de pedra
quando não mais lhe ature a razão
de se compreender somente em guerra
 
e é difícil vive-la assim à muque
e constragê-la a inventar a tarde
quando a noite inventa os seus ossos
apartada do vão da liberdade.
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Ritmo de métrica duvidosa e dizente das coisas do poeta

todo poema é avesso
e avulso da vida e de si mesmo
e é maior que o poeta
em cada letra
e muito menor do que aquele
que não se cometa
 
o poema é um abraço ilógico
no vão da continência
e é quase uma razão
sem muita contingência
e, talvez, mais que palavra,
seja placenta
de embrulhar a vida aos pedaços
e sem muita paciência
 
o poema é desconforto
embora tenha-se porto
e nem mesmo é continente
quando adredemente posto
pois lhe sobra a aparência
de viscera enorme
no vão da consciência
 
o poema
é um transeunte da vida
tudo que lhe cabe
em qualquer medida
é insuflar a emoção
de quem se inventa pelas avenidas.
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Discurso em avante afeto

A pedra no meu peito
tem a largura do teu grito
e voa e rasga a manhã
montada em meu sorriso
 
a graça do meu peito
é ser teu abrigo
e armazenar todos os abraços
uns musculares, outros implícitos
 
a estrela da manhã
é teu indício
guardadas as infinitas proporções
em que te sinto
 
e ao fim e ao cabo
és, assim, tão constantemente,
que tudo é um verbo tenaz
de explicar o que se sente.
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Constructo

Minha morte
a construo
com os metros de vida
que não uso
e sou unânime em tê-la
em cada ausência
num riso menos vário
num desvão da consciência
 
minha morte
é apenas
quando não mais eu
em minha presença.
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Poema ao povo das cores

Grávida
a África escancara
todas as cores
em que se espalha
nada do que lhe é tanto
se compara
aos infinitos que joga
pela nossa cara
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Do uso da verdade e seus modos

A verdade
nunca trai o gesto
de absolutizar a vida
em seu interno
 
a verdade
é tática
sempre lhe cabe um futuro
por  inexata
 
a verdade, amiúde,
tem estratégias
é que lhe parece jovem
ser velha.
👁️ 105

Balada gestual do povo com ares de paisagem

Ao povo
dê-se o rompante
de multiplicar a vida
quando militante
 
e no vinco da manhã
quando bastante
ressone a aurora geral das gentes
nos ombros largos do horizonte.
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Da liberdade em contrita apreciação

Nem se nota
mas por trás de cada liberdade
há uma porta
 
e só se é livre
em revolta
lavradas as contradições
de cada porta
 
e de só sabe-lo
não importa
se não se amanha o exercício
de sabe-la lógica.
👁️ 103

Dos trilhos em razão do maquinista

O maquinista
nem cogita
de viver dos trilhos
da vida
 
antes
habilita-se
a tanger no trem
todas suas lidas
 
e culpas
não agita
nas bandeiras do peito
em que acredita
 
o maquinista
nem pressente
que leva nos trilhos
os sonhos das gentes
 
para si
adredemente
sonha apenas as locomotivas
do que sente.
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Do viver em trânsito

A vida
não é estribilho
há de haver vínculos
em todos os trilhos
é como se fora canção
de todos os ritmos
há que fazê-los próprios
para dizê-los vivos
 
vive-la é só uma trança
que se faz pelos sentidos.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !