Lista de Poemas
Poema às paredes de vidro
deixa de ser cortina
se não se escrevem nos meus olhos
os materiais que adivinho
e paredes mais não sejam
que invólucros mal inscritos
nos muros gerais
dos meus sentidos
Poema à morte da última filha de Júlio
renhida a carne
desabotoas o tempo
no trânsito da tarde
loucas as dessemelhanças
que te puseram em século
de desumanidades
e eis que foste
trauma de músculos e vontades
uma vaga impressão de que a vida
vale aquilo em que se cabe
e travavas o dia
como uma larga bolandeira
que remisse os pecados
das noites em que estejas
Poema ao Camarada Maia no fragor da luta
restarão na tua boca
que ainda cuspirás a vida
em tão extremo desconforto?
Assim renhido
na batalha tanta
quem adivinhar
te possa a esperança?
És um infinitivo
que ninguém alcança
convulsa a realidade
enrolada em suas tranças
Poema ao jazigo do meu pai
que atravessam meu peito pela tarde
e que inventam amarguras no meu riso
e que gargalham no meu pranto quando tardo
o descanso do meu pai é óbvio
nada lhe reclama o exercício
de todos os seus ossos
o jazigo de meu pai tem bandeiras
que tremulam no vão de minha face
e que alcançam todas as palavras
das nossas eternidades
o descanso do meu pai é vário
ainda resta um interstício
entre sua morte e meu abraço.
Poema ao retrato de Olga Benário Prestes
nunca espaço te coube
e murchavam todas as horas
e marchavam públicas as dores
na casa do sapateiro Francisco
havias em fotografia
como se fosses tão tanta
que Chico inventava os dias
na casa do sapateiro Francisco
no exercício do que não dizias
eras um rosa arquitetada
no juízo de quem te via
na casa do sapateiro Francisco
apesar da objetividade do retrato
tinhas um jeito de história
e um gosto intenso e farto
de memória.
poema ao meu avô
dentro de mim
é um avô descontrolado
tantas as razões de células
que ainda guardo
e que entornam pelos olhos
quando em desagrado
meu avô
dentro de mim
é um neto inconcluso
tantas as faltas que reclamo
e que explodem no coração
quando as uso
eis a similaridade
todo avô é sempre um neto
em que não se cabe.
Poema em burocrata senda
os birôs
de militar postura
escondem dentro de si
mortes e amarguras
e dizem-se urgentes
ao explodir a prática
num coito desinformado
entre o homem e a máquina
o documento
tem uma face lógica
suores subentendidos
risos datilográficos
em cada ângulo de si
traz sempre a serenidade
de um efêmero processo
de negação da vontade
o funcionário
cidadão consentido
inventa no dorso das letras
um pretenso objetivo
de concluir contra o próximo
qualquer viés proibido
nessa oficial caminhada
de consumir seus sentidos
o funcionário e o birô
pastam letras e matemáticas
e se dados à razão
suicidam-se na prática
pois um birô requer
como arquivo latente
a vontade do funcionário
presa num documento
e formada a fração
nessa proporção burocrata
o funcionário torna-se birô
de estranha matemática
pois em não sendo mobília
é humano em lapso
rasura ensimesmada
destempero datilográfico.
Progressão
subo
e nem me iludo
que chegarei em paraíso
que nem pude
antes
prefiro na subida
construir os paraísos
dos passos todos da vida.
Poema à mulher da bunda grande
enches a rua de incertezas
e nem meu peito acha
de te perder na consciência
és uma crise
alheia a vãos desejos
e a exata incompreensão
do que eu nem vejo
porque a lúdica simetria
de tua glútea paisagem
enseja a exata proporção
de todas as miragens
e nesse escândalo de carnes
que transitas na avenida
nada do que é intransitivo
cabe em tal medida
e o ritmo em que incendeias
todas as vias e todas as veias
constrange a compreensão
de que nem és sereia
Poema à Ravenala Madagascariensis
leque do mundo,
nem imaginas
o contraste de ti
com minhas retinas
revoltas a ti mesma
com a calma que anuncias
e nem permites que o tempo
traspasse o teu jeito de alegria
Comentários (10)
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Abração !
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Honrado<br />
Obrigado<br />
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.<br />
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.