Escritas

Lista de Poemas

discursos temporais da velhice

eis a sinergia:
a alegria é sempre maior
que a tristeza presumida
o tempo e o riso cabem mais
nas entrelinhas da vida

É que sua lavratura,
demandada pelos anos,
abrange todas as medidas
do envólucro humano

eis que consumir o tempo
é uma alegria orquestrada
ao homem cabe compô-la
das notas em que não se cala.
👁️ 99

Poeminha de certezas latentes

Sempre haverá um povo
nos arredores do futuro
mesmo que não haja tempo
para dizê-lo em tudo
 
sempre haverá um tempo

nos arredores do povo

mesmo que não haja um futuro
guardado em cada bolso
 
tempos
são
 apenas arquiteturas

de quem constrói as manhãs
nos descaminhos da luta.
👁️ 86

Da noite em vazão estrita

assim baldia
desconvocas a vida
e, de repente,
renuncias
a todos os mandatos
do dia
à contraluz
refoges da manhã
que te anuncia
e inventas a razão
da rebeldia

ainda bem
que em teu contorno
fulgura o sol
em que me jogo.
👁️ 84

Poema de considerações e amores

que tua carne
infrinja minha alma
com a exatidão
com que me ardo
 
e que sejas vã
porquanto passageira
das viagens não ditas
de ilusões intensas
 
assim, quando olhas
não me caibo

e nem desfaço em mim
o teu abraço
 
toda retina

é um laço

que desprende o olhar
de quem abraça
👁️ 101

Poeminha desdizente das mercadológicas razões

a página do sítio
regurgita

a extrema modernidade
que explicita

tudo que lhe é invés
desacredita

coisas do passado...
trogloditas...

nada é mais tanto

que o botão dourado

da nova máquina

que se afirma
 
a notícia

na sua estampa

é muito mais fecunda
do que se disse

é que na bunda da atriz
ainda há celulite

nada mais profano

e nada menos humano
do que desacerto tal

a que se assiste
 
o sítio

terceiriza a vida
impunemente

nada do que é humano
perpassa sua mensagem
adredemente
 
o sítio

embora não diga
inventa um dia

de bytes coloridos

e consome o homem
no reclame geral

de seus sentidos
 
o sítio
não pensa

como dizia

antes convence

dessa simetria

que tenta igualar a todos
no mercado geral

da hipocrisia

produtos agora são homens

de manipulada serventia

que obedecem a suas máquinas
na estranha desarticulação

da lógica e da vida
 
nos bits

não há espaço

o bem e o mal

cedem o passo

tudo que é rentável

é capaz de ser abraço

há um fuzil sempre esperando

o alvo do seu desate

e nem importa que o assassinato
atinja a cidade

a morte é apenas um detalhe
que justifica o produto

e suas propriedades

o cantor

de bemóis tão resumidos

canta pelas roupas e é em tudo
o que consegue
vender
pelos mercados do mundo

e é de vê-lo resmungando

nos microfones da vida

os barulhos que inventa

com alguma música ao fundo
ludibriando os ouvidos
num estranho absurdo
 
o estado no sítio

religioso e terrorista

espalha balas traçantes

pela vida

tudo que lhe tange

é a simples constatação

de que deus é mais um soldado
da sua revolução

matar é quase um dever

da democracia latente

que teima em ser liberdade
inventar esse presente

de expandir os negócios

de forma mais consistente
levando à mercadoria

a condição de ser gente
 
a ética

restringe-se à norma

de parecer condizente
com o que o sítio informa
todo rei é um parasita
mas registre-se a certeza
sua majestade é apenas
um produto da natureza
e nada mais rentável

no mercado resistente
que a saia de uma princesa
num festa beneficente
 
do sítio

tem-se a impressão

de um futuro

que está à mão

é certo que um pouco podre
e com certo quê de ilusão
 
do sítio

registre-se o fato

de poder-se adivinhar
qualquer realidade
nem é preciso pensar
que a gente ainda pode
raciocinar com a razão
 assim como hipótese
 
no sítio finalmente

existe a contradição

de que ao homem não cabe
descontruir a razão

antes há de tê-la vivente
nos bytes do coração
navegando humanamente
a sua revolução.
👁️ 97

Poema ao meu povo em dias de premonição

há que vê-los joões
cerzidos à parcimônia
franzidos na consciência
embutida em seus sonhos
 
há que vê-los aos risos

nos prantos em que se lavam
construindo as manhãs

no desespero das tardes
 
há que vê-los transeuntes

de sonhos tão alheios

que entornam de suas mentes
com a certeza de vivê-los
 
há que vê-los civis

em militares continências
brandindo a vida à pulso
pelos vãos da inocência
 
há que vê-los marginais
trazidos à coerência

de lutar por algo tanto

que a simples sobrevivência
 
há que vê-los indecisos

nas certezas que navegam

como se fossem de um mar

que as ondas sempre lhes negam
 
há que vê-los urbanos

nas suas rurais investiduras
como se fossem os campos
de sua eterna escravatura
 
 
há que vê-los incontidos
nas desmedidas do tempo
pelas certezas de que tudo
caminha sempre aos ventos
 
há que vê-los em paciência
nos horrores da batalha
tangendo sua miséria

com a urdidura da fala
 
há que vê-los resumidos
num infinito incoerente
que trava o jeito do mundo
no peito aberto da gente
 
há que vê-los marias
trançadas pelas lembranças

das mulheres que apenas vigem
nas dobras da esperança
 
há que vê-los imberbes
na senectude da face
meninos quase senis

nos desvãos de sua idade
 
há que vê-los tão magros
como interrogações urgentes
como se ossos fossem razão
de construir seus viventes
 
há que vê-los nas noites
embutidos nas madrugadas

como se a vida fosse um pingente
que tramitasse no nada
 
há que vê-los condenados
na alforria de todos

como se toda liberdade
fosse uma espécie de cobro
 
há que vê-los passados
num futuro tão incômodo
que pulsa pelos seus passos
como um eterno retorno
 
há que vê-los alegres

nessa exata pantomima

que enche o andar da vida
com os risos de quem caminha
 
há que vê-los materiais
no imaterial desconforto
de subverter o espírito
nos combates do seu foro
 
há que vê-los absolvidos

das sentenças mais incautas
que julgam o raso dos homens
com ganas de astronautas
 
há que vê-los reticentes
na multidão de juízos
que atropelam as gentes
quando viver é preciso
 
há que vê-los combatentes
nas guerras mais combatidas
rasgando seu coração

nos peitos das avenidas
 
há que vê-los senhores
numa terra sem escravos
como se fossem da praça
os seus sonhos mais avaros
 
há que vê-los, enfim, libertos
pela força dos seus pulsos
nas praças em que o tempo
tenha o povo como discurso.
👁️ 85

Da largura do amor em larga pauta

A Lane Pordeus

Só ao amor
cabe o absoluto
guardadas as proporções
e as léguas do seu curso
é que não lhe trai
o uso moderado
de tudo que a razão
Interdita aos incautos

só ao amor
cabe o infinito
e a capacidade lúdica
de nunca medi-lo

o amor é só medida
de quem possa realmente senti-lo.
👁️ 53

Poemeto ao Galo da Madrugada

No Galo da Madrugada
não existe compasso
tudo que é medido

se desmente no passo
o frevo solta o Recife
no meio do meu abraço
e o povo inventa a vida
pela sola dos sapatos.
👁️ 122

Poema ao sagui Jesualdo

Era um tempo escasso

Jesualdo tinha as mesmas horas
de um abraço.
 
Era um tempo tarde
Jesualdo inventava a alegria
nos seus saltos.
 
Era um tempo escuso

Jesualdo e o dia nem amanheceram
sobre o muro.
👁️ 55

Poema ao falido rio

eu te percebo rio

no correr das minhas veias

e não importa que não o sangue
seja o deslizar de tuas cheias
 
eu te concebo rio

embora tu nem creias
que um dia foste corrente
de percorrer minhas veias
 
pois nem de águas

tens a postura e a certeza
de como te postas em vão
atravessado na natureza  
👁️ 87

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !