Escritas

Lista de Poemas

Poema ao inconstruído rio

eu te percebo rio

pelo que contas de minhas veias

e não importa que incolor
exemplifiques o rubro dos meus medos
toda tua trajetória

é um desembocar inato

do mar que trazemos no peito
guardado a sete chaves
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Da saudade e suas direções

É que a saudade é um jeito
que até parece um enredo
de sermos certo do longe
no tardio curso do cedo 
é assim como uma lembrança
de que se guarda o medo
de que o futuro se esconda
nas curvas de um segredo
e se transforme num passado
atravessado no desejo

a saudade é uma avenida
de todos os nossos becos.
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pequena concisão da vida

a vez que nascer
é quase tanto
que morrer
 
e desde viver
que não se finja
de prazer
 
o quanto morrer
da sempre luta
de nascer.
 
 
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Palavras a Rita Nunes

de onde não estejas
inventarás um riso enorme
e anunciarás a vida
mesmo na morte

e dos degraus do tempo
em que te convocas
haverá manhãs risonhas
batendo em nossas portas

tua fuga é apenas um gesto
dos risos em que te postas.
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Pequeno itinerário

Eis a simetria:

a vida é maior

que qualquer dia

é que sua metragem
deve-se ao tempo

como se fora régua

de medir cada momento.
 
Eis a simetria:

o amor é maior

que toda ventania

é que sua paisagem

no peito dos viventes
constrói assim um amanhã
nos ontens da gente
 
Eis a simetria:

morrer é quase um tempo
de alegria

é que sua metragem
quando houve vida consome
todas as réguas
de quem fica.
 
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Pequena Balada Jungiana

dentro de mim
vivem todos
desde sempre
e tudo de novo se inventa
 
o que penso

nunca é apenas

a manhã é que por tanta
ainda orienta

um dia de sentidos
e dilemas
 
dentro de mim

vige a multidão

como um deposito

de todos meus senões
e arrumá-los todos
é um ofîcio imanente
de quem traz a vida
no meio dos dentes
 
dentro de mim

caminham muitos passos
em pés que nem adivinho
como inventar outro de mim
pelos caminhos?
 
dentro de mim

todas as soluções

e uma leve compreensão

de que eu sou um

pelo rumo de minhas mãos
trançadas todas as vias

traçadas as rebeliões

em que eu me invento quase todos
em plena revolução
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Dos plurais de mim em rasa feição

o que me coletiviza
é a multidão que trago
na singularidade exata
dos palmos da vida

é que a tenho
assim indivídua
guardadas as proporções
dos plurais que me diga

trago em mim,
assim, escondidas,
todas as auroras do mundo
pelas noites da vida.

sou um singular
adredemente coletivo.
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Pequena digressão com laivos de poema

sósia de mim

me desconheço

nos outros tantos eus
em que me teço
 
é que viver

é só um jeito

de trazer multidões
dentro do peito
 
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Palavras ao felino Zeca

toda noite

é parda

om Zeca correndo
atrás da alma
 
apenas a cova

e a felina saudade

restaram na esquina do muro
como uma planta

que miasse ao infinito

e parisse vaginas

e fosse antes de gato

um homem primitivo
 
em Zeca

existiu a solução

de toda a dialética
entranhada nos seus olhos
 
Zeca, como homem,

via o sono e a morte
como uma forma de fugir
do desencontro
 
e hoje

faz-se consciência
daquilo que ficou
gatamente

como ausência
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Patriótica

o raciocínio não medra

quando a bruta fome ensina

a sofreguidão de todas as pedras
que vige tão latente e intestina
qual a definitiva pose

como se fora definitivo

o que não houve
 
e rói o peito da pátria

a pan-nacional sentença
de que cada pátria

é apenas um instante
da hora definitiva

da humana consciência
 
e há de viger o coração

no brasileiro drama imbuído

nesse pulsar da exausta consciência
que pulsa em vão todos os sentidos
 
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !