Lista de Poemas
Palavras ao mar num dia qualquer de novembro
nem a alegria beber nas tuas ondas
que esfaceladas jazem no peito dessa praia
em que nenhum pirata emergiu das sombras
nenhuma nau aportou no meu cansaço
sou simplesmente mais um navegador anônimo
espactador informe desses teus abraços
negra a noite cobre o corpo e o mar descobre
a insuficiência fatídica da tarde
boio na alegria escura dos teus líquidos
e na escravatura dos teus cabelos d'água
assim deitado sobre meus pensamentos
cooptastes minha felicidade
e em vão procuro registrar a vida
no vão de molusco dos teus avatares
assim parado em ti não me ouso homem
mas uma engrenagem a mais na tua imagem
e se me perco assim do teu retrato
é que já não caibo mais em teu espaço
quero ter braços de infinitos
e cabeças cheias de eternidade
para abraçar contigo todos os universos
e deitar-me sujeito dentro da tarde
quero cavalgar teus oceanos
abraçado ao corpo do meu povo
e como mar beber essa cidade
e como gente tragar o meu esforço
quero afogar-me em teu mister
de abraçar o mundo ternamente
quero, enfim, tornar-me onda
com uma rota enfim tão definida
e espalhar-me assim pelo meu povo
e me espatifar de encontro à vida
Do genocídio em degraus correntes
restarão escancaradas
como as portas da culpa
e as janelas da fala
os verbos
riscarão a história
com as fissuras da honra
e as rasuras da lógica
e pela multidão
em declarada lida
afundar-se-á a prazo
o que cresceu à vista
Viagens póstumas em deslizes
é uma noite avessa
tudo que lhe tange
é a controvérsia:
quem habitará o céu
naufragado na terra?
os deslizes do tempo
resvalam em palavras e perdas
e respiram as desculpas
por tudo que não seja.
De rosas e homens em sequencial jornada
devastada
esconde a primavera
que navegava
o homem
explorado
esconde a existência
como um fardo
homem e rosa
irmanados
vegetam humanamente
um futuro claro
homem e vegetal
alegoricamente disfarçados
Da africana feição humana
deixo-me estar inteiro
nas curvas do povo
em que me aceito
nessa dança
que abraça a vida
meus passos sejam estradas
de consumir todas as lidas
e no rosto da terra
perfilado nos ventos
voem os cabelos da história
nos abraços do tempo.
Do 1º de Maio em evasivas
dê-se a angústia
de construir a vida
como uma luta
é que ao dar-se
em leis adversas
constrói a vida alheia
preso a moedas
e eis que traz o mundo
como um ofício
por construi-lo unânime
em todos seus indícios
ao trabalho resta dar-se
tudo que seja coletivo
Verões insurgentes
o verão espreita
todos os sóis
em que se deita
como uma usina
estilhaça o tempo
e tinge as manhãs
de seus comentos
e adentra o mundo
escorreito
como uma frase solta
ao sabor dos ventos
Das mortes sob encomenda
joga-se à certeza
de respirar todos os ares
e todas as empresas
os cifrões
pousados em sua morte
levantam arrepios
nos debruns da sorte
e navegando seu fim
como um barco perdido
o homem tenta alcançar
o oxigênio em precipício
a nuvem do seu óbito
é um cheque permitido
Poema em amor desenfreado
da imensa praça do teu corpo
eu me direi guerreiro, mesmo morto,
de tudo quando em tua vida tive
e mesmo que carbono eu te reclamo
amante mineral do teu espaço
por muito de amante ainda eu ame
os sonhos que andei nesse teu passo
assim talvez eu me construa
dessa água que acaba tua sede
e estarei vivendo mesmo líquido
nos lábios de quem em mim perdeu-se
e caminharei, agora infinito,
em amores cada vez mais tanto
que mesmo a ausência do meu grito
sussure em seu ouvido o meu canto
Palavras ao meu povo
por certo que a liberdade
ainda dormita nas rugas destas praças
e nunca que parecesse tão urgente
nos verbos que tramitam pelas placas
premida nas dobras da consciência
permanece intacta e coletiva
e a cada ação que repensas
a nova ação que se pratica
borda o esmero
de histórica tessitura
que cobre a rua de razão
na constância de quem luta
e das sementes dos passos
urdidos nos calcanhares das pedras
surgirá uma grávida multidão
e a cada dia, por cada fome,
unidos em cada prontidão
explodirá nos sonhos
um futuro que esteja à mão
Comentários (10)
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Abração !
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Honrado<br />
Obrigado<br />
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.<br />
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.