Escritas

Lista de Poemas

Palavras ao mar num dia qualquer de novembro

não saberei nadar nos teus tormentos
nem a alegria beber nas tuas ondas
que esfaceladas jazem no peito dessa praia
em que nenhum pirata emergiu das sombras
nenhuma nau aportou no meu cansaço
sou simplesmente mais um navegador anônimo
espactador informe desses teus abraços

negra a noite cobre o corpo e o mar descobre
a insuficiência fatídica da tarde
boio na alegria escura dos teus líquidos
e na escravatura dos teus cabelos d'água
assim deitado sobre meus pensamentos
cooptastes minha felicidade
e em vão procuro registrar a vida
no vão de molusco dos teus avatares

assim parado em ti não me ouso homem
mas uma engrenagem a mais na tua imagem
e se me perco assim do teu retrato
é que já não caibo mais em teu espaço
quero ter braços de infinitos
e cabeças cheias de eternidade
para abraçar contigo todos os universos
e deitar-me sujeito dentro da tarde

quero cavalgar teus oceanos
abraçado ao corpo do meu povo
e como mar beber essa cidade
e como gente tragar o meu esforço
quero afogar-me em teu mister
de abraçar o mundo ternamente

quero, enfim, tornar-me onda
com uma rota enfim tão definida
e espalhar-me assim pelo meu povo
e me espatifar de encontro à vida
👁️ 52

Do genocídio em degraus correntes

as mortes
restarão escancaradas
como as portas da culpa
e as janelas da fala

os verbos
riscarão a história
com as fissuras da honra
e as rasuras da lógica

e pela multidão
em declarada lida
afundar-se-á a prazo
o que cresceu à vista
👁️ 54

Viagens póstumas em deslizes

a manhã da morte
é uma noite avessa
tudo que lhe tange
é a controvérsia:
quem habitará o céu
naufragado na terra?
os deslizes do tempo
resvalam em palavras e perdas
e respiram as desculpas
por tudo que não seja.
👁️ 51

De rosas e homens em sequencial jornada

a rosa
devastada
esconde a primavera
que navegava

o homem
explorado
esconde a existência
como um fardo

homem e rosa
irmanados
vegetam humanamente
um futuro claro

homem e vegetal
alegoricamente disfarçados
👁️ 63

Da africana feição humana

africano
deixo-me estar inteiro
nas curvas do povo
em que me aceito

nessa dança
que abraça a vida
meus passos sejam estradas
de consumir todas as lidas

e no rosto da terra
perfilado nos ventos
voem os cabelos da história
nos abraços do tempo.
👁️ 67

Do 1º de Maio em evasivas

ao trabalho
dê-se a angústia
de construir a vida
como uma luta

é que ao dar-se
em leis adversas
constrói a vida alheia
preso a moedas

e eis que traz o mundo
como um ofício
por construi-lo unânime
em todos seus indícios

ao trabalho resta dar-se
tudo que seja coletivo
👁️ 104

Verões insurgentes

no cair da chuva
o verão espreita
todos os sóis
em que se deita

como uma usina
estilhaça o tempo
e tinge as manhãs
de seus comentos

e adentra o mundo
escorreito
como uma frase solta
ao sabor dos ventos
👁️ 70

Das mortes sob encomenda

o homem em tubos
joga-se à certeza
de respirar todos os ares
e todas as empresas

os cifrões
pousados em sua morte
levantam arrepios
nos debruns da sorte

e navegando seu fim
como um barco perdido
o homem tenta alcançar
o oxigênio em precipício

a nuvem do seu óbito
é um cheque permitido
👁️ 98

Poema em amor desenfreado

até quando a morte me retire
da imensa praça do teu corpo
eu me direi guerreiro, mesmo morto,
de tudo quando em tua vida tive

e mesmo que carbono eu te reclamo
amante mineral do teu espaço
por muito de amante ainda eu ame
os sonhos que andei nesse teu passo

assim talvez eu me construa
dessa água que acaba tua sede
e estarei vivendo mesmo líquido
nos lábios de quem em mim perdeu-se

e caminharei, agora infinito,
em amores cada vez mais tanto
que mesmo a ausência do meu grito
sussure em seu ouvido o meu canto
👁️ 52

Palavras ao meu povo

por certo que a liberdade
ainda dormita nas rugas destas praças
e nunca que parecesse tão urgente
nos verbos que tramitam pelas placas
premida nas dobras da consciência
permanece intacta e coletiva
e a cada ação que repensas
a nova ação que se pratica
borda o esmero 
de histórica tessitura
que cobre a rua de razão
na constância de quem luta
e das sementes dos passos
urdidos nos calcanhares das pedras
surgirá uma grávida multidão
e a cada dia, por cada fome,
unidos em cada prontidão
explodirá nos sonhos
um futuro que esteja à mão

👁️ 93

Comentários (10)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !