Escritas

Lista de Poemas

Passado em desoras

o passado
é só um descuido
dos futuros que se larga
nos ombros do mundo 

como tempo
resta-lhe o rompante
de viver dançando
na cabeça dos homens 

deixar-se pelas horas
é a lógica de seus planos
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Primeiro verso à minha pátria

Primeiro verso à minha pátria

I

no peito da rua
a pátria existe
dilacerado vão
da vida em riste
meu verso
apenas trata da pátria
como da sofreguidão
das amantes tardias
minha terra
ainda não tem a compostura
que a pátria que eu sonhei dizia
ela escapa dos dedos
como o trigo mais fugaz
como o suor que acende
o riso dos canaviais
minha pátria é compulsória
com a mesma desfaçatez
das grandes auroras
antes que azul
melhor pensa-la e
dize-la ensolarada
assim em ondas
numa luz que coubesse
em todas as sombras
e que tivesse a semelhança
de um ato incalculado
onde o humano fosse a razão
de nunca se estar calado.

II

minha pátria geral
apesar de tanta
vive-me engasgada
na lembrança
como um sonho inconsumível
e uma vasta esperança
minha pátria
não diz na geografia
os quilos de meus irmãos
que consumia
apenas aflora-lhe à boca
um verbo intransponível
que teima em ser palavra
na sua face de míssil

III

minha pátria difere do povo
não pelos seus jeito e gestos
mas por tudo que em sua ação
teima em ter um gosto inverso
e mesmo nas vezes
em que é joões e marias
esconde nesgas de enfado
em ver-se ssim em teimosia
minha pátria consome
em seu mister mais avaro
o coração desses homens
que lhe sabem amarga

IV

mas no seu íntimo
como um grande escudo
minha pátria resguarda
a prontidão do seu futuro
em que estará liberta
de ser pátria em tudo
e habitará somente os homens
como um universo único
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Poema em famélica pose

a vontade posta
nas pedras da calçada
é uma fome avessa
desenhada pela cara

o homem aos pedaços
íntimo do lixo
inventa em si
qualquer indício

nada de ainda humano
é o seu ofício
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Poema de circunstância tempestiva

o velho chorava
e nem vivia
os séculos líquidos
que a lógica do seu olhar
amanhecia

o jovem ria
e nem sentia
os quilos de razão
que a lógica de sua boca
pressentia
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Índios passeios

como indigena,
dou-me itinerante
dos voos todos da vida
e seus rasantes 

e por te-los assim
como transeuntes
deixo-me estar recorrente
em tudo que me nutre 

a vida é um voo enorme
nas asas do que pude
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Da espacial revolta dos bólides

a cápsula 
como bólide liberto
deixa-se espalhar
como um largo gesto

eivada de cálculos
em seus trajetos
inventa labirintos
como manifestos

e nesse passear, 
como um protesto,
lança no espaço
uma foto 3x4 do universo
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explosivas razões do contente

num desvão da vida
espremido nos soluços
o futuro vê-se adiado
na pressa dos minutos

e o sorriso anoitece
num canto do juízo
como a querer dormir
nos ombros dos sentidos

ao homem cabe acender
os pavios do seu riso 
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Dos voos pássaros em aviônicas lavras

o avião
é um pássaro exato
todos seus ângulos
são cronometrados

o pássaro
é um avião diverso
suas asas é que medem
os palmos do universo

pássaro e avião, em suas revoadas,
espalham o verso em rasantes palavras
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Das lucrativas misérias sistêmicas

a fome
é só um enredo
que o mercado, em lucro,
quantifica no medo 

O ágio, como dilema,
transcende todas as costelas
dos que o produzem
no curso da miséria 

parasitas,  insistentes,
inscrevem na história
sua aparência de gente
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Das mortes que vivo

sempre que morro
teço a vida
eis a consistência
de estar vivo

nos verbos e na carne
assim resumido
tudo se restringe
a esse ambíguo:
a morte é um jeito
de construir sentidos

a dialética de mim
é este armistício 
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !