Lista de Poemas
PONTO DE FUGA
A expressão de um impulso,
vestígios que ligam,
desprezam,
fazem colidir e oscilar os corpos
e os movimentos.
Menos sutis
que inquietos, pés imersos no mar
completamente silenciado
como se o esquecimento de ir
os acolhesse sob a perda da proporção,
do definitivo.
Não muito distante
das ondas,
velhos
e crianças guardam
segredos em baldes de areia.
Que idade tinhas
quando o medo chegou?
vestígios que ligam,
desprezam,
fazem colidir e oscilar os corpos
e os movimentos.
Menos sutis
que inquietos, pés imersos no mar
completamente silenciado
como se o esquecimento de ir
os acolhesse sob a perda da proporção,
do definitivo.
Não muito distante
das ondas,
velhos
e crianças guardam
segredos em baldes de areia.
Que idade tinhas
quando o medo chegou?
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HAMLET E SEUS PROBLEMAS
Embora depressa se encontre
no seu primeiro esforço
o sentido de resistência
a qualquer forma de aridez,
nenhum de seus gestos
pode interromper a órbita contrária,
o cálculo da lâmina.
Ele sabe: o que serve de suporte
aqui não prevalece,
ver não significa redimir-se.
E ignora: apenas figurantes
cegos garantem que à ação
se imponha outro limite.
no seu primeiro esforço
o sentido de resistência
a qualquer forma de aridez,
nenhum de seus gestos
pode interromper a órbita contrária,
o cálculo da lâmina.
Ele sabe: o que serve de suporte
aqui não prevalece,
ver não significa redimir-se.
E ignora: apenas figurantes
cegos garantem que à ação
se imponha outro limite.
👁️ 263
NATUREZA-MORTA
eles puxam o gatilho,
mas não há bala nenhuma,
morte
nenhuma, contentam-se,
então, em fazer nada,
não querem ir além da medida
de seus corpos,
não é mais
do que precisam,
embora, por instantes, coincidam
com a própria gravidade
e hesitem em se voltar
para nós
sob pena de perderem
a indiferença,
de se incomodarem com o fato,
por exemplo, de haver lâmpadas
acesas em pleno dia,
como se pudesse fazer a luz
ser mais
do que ela é
contra o vazio de uma mesa,
mas não há bala nenhuma,
morte
nenhuma, contentam-se,
então, em fazer nada,
não querem ir além da medida
de seus corpos,
não é mais
do que precisam,
embora, por instantes, coincidam
com a própria gravidade
e hesitem em se voltar
para nós
sob pena de perderem
a indiferença,
de se incomodarem com o fato,
por exemplo, de haver lâmpadas
acesas em pleno dia,
como se pudesse fazer a luz
ser mais
do que ela é
contra o vazio de uma mesa,
👁️ 217
DESCOBERTA
Bebia do mar
sem sentir sede,
satisfazia-se
com a água atravessando-lhe
os pulmões,
com as horas em que a mesa
flutuava noite adentro
e não podia erguer
os olhos.
Bebia do mar
e se perdia no que ouvia,
no corpo silencioso
onde a areia
juntava sílabas,
onde a cegueira
a acordava
e deixava suas mãos livres.
sem sentir sede,
satisfazia-se
com a água atravessando-lhe
os pulmões,
com as horas em que a mesa
flutuava noite adentro
e não podia erguer
os olhos.
Bebia do mar
e se perdia no que ouvia,
no corpo silencioso
onde a areia
juntava sílabas,
onde a cegueira
a acordava
e deixava suas mãos livres.
👁️ 213
NUA EM SEU VESTIDO DE SEDA
não sabemos o que
ela olha,
sempre de costas
para nós
como se o medo
a permitisse viver
sem escrúpulos,
sem se trair
com objetos
silenciosos,
quase
insignificantes,
ela nos retém
no exato momento
em que tentamos
fugir de toda
sinceridade,
ela olha,
sempre de costas
para nós
como se o medo
a permitisse viver
sem escrúpulos,
sem se trair
com objetos
silenciosos,
quase
insignificantes,
ela nos retém
no exato momento
em que tentamos
fugir de toda
sinceridade,
👁️ 228
MAIS UM DIA EM MINAS
25/01/2019
Não há mais casas,
distâncias a nos impedir
de precipitarmos
no fundo da terra.
Os olhos correm rio
abaixo. Em breve,
serão memórias
de paredes falsas.
Como a lama
nos tornará mais gentis?
Teremos sede e fome
à nossa disposição?
Ficaremos perdidos
até que as mãos
sejam partes de nada,
os corpos devorem
as ruínas onde se escondem
outras faces, outras
pedras do sol?
Presos, olhamos onde não
podemos ficar,
reflexos sem espelhos,
sob a porta e atravessados por ela.
Não há mais casas,
distâncias a nos impedir
de precipitarmos
no fundo da terra.
Os olhos correm rio
abaixo. Em breve,
serão memórias
de paredes falsas.
Como a lama
nos tornará mais gentis?
Teremos sede e fome
à nossa disposição?
Ficaremos perdidos
até que as mãos
sejam partes de nada,
os corpos devorem
as ruínas onde se escondem
outras faces, outras
pedras do sol?
Presos, olhamos onde não
podemos ficar,
reflexos sem espelhos,
sob a porta e atravessados por ela.
👁️ 225
BLOW-UP
mas como não
acreditar no que
se exibe e, às
vezes, se oculta,
em meio
a uma paisagem?
atrás dela,
há uma parte
do olho sempre
cega, nada
está ali, nada
ainda está ali,
uma foto? tudo,
nela, não passa
de superfície,
de manter
a distância correta
para desenterrar
corpos abraçados
sob cinzas,
acreditar no que
se exibe e, às
vezes, se oculta,
em meio
a uma paisagem?
atrás dela,
há uma parte
do olho sempre
cega, nada
está ali, nada
ainda está ali,
uma foto? tudo,
nela, não passa
de superfície,
de manter
a distância correta
para desenterrar
corpos abraçados
sob cinzas,
👁️ 201
O GATO DE SCHRÖDINGER
Ainda que as palavras
sejam atraídas pela profundidade
dos corpos,
como não ver uma coisa
que se põe a ver, inevitável,
depois da memória?
Pelo lado de fora,
suponhamos que este animal,
o gato, caia
onde as cinzas expandem
as horas,
afastam os relógios da própria queda.
Desconhecemos o que acontece,
como abandonamos nós mesmos.
Mas nada é o contrário.
O chão introduz nas entranhas desse gato
olhos e estrelas,
o mundo sem a medida das mãos.
sejam atraídas pela profundidade
dos corpos,
como não ver uma coisa
que se põe a ver, inevitável,
depois da memória?
Pelo lado de fora,
suponhamos que este animal,
o gato, caia
onde as cinzas expandem
as horas,
afastam os relógios da própria queda.
Desconhecemos o que acontece,
como abandonamos nós mesmos.
Mas nada é o contrário.
O chão introduz nas entranhas desse gato
olhos e estrelas,
o mundo sem a medida das mãos.
👁️ 275
O CORPO SEM ÓRGÃOS
Embriagar-se com água pura
como a criança que desconhece
o fim e o início.
Não é mais perigoso
ou triste suportar os olhos para ver
como a pele maneja o chicote
e desfaz o medo
à espera da cicatriz perfeita,
dessa criança
que brinca com coisas mortas.
O ruído dos corpos
prestes a desaparecem
não acorda os animais,
não impede de estarmos aqui.
Retire cuidadosamente os órgãos,
criança.
Coloque a mão bem lá no fundo,
quebre o brinquedo
sem saber qual é.
A menor carícia pode ser tão forte
quanto um orgasmo.
como a criança que desconhece
o fim e o início.
Não é mais perigoso
ou triste suportar os olhos para ver
como a pele maneja o chicote
e desfaz o medo
à espera da cicatriz perfeita,
dessa criança
que brinca com coisas mortas.
O ruído dos corpos
prestes a desaparecem
não acorda os animais,
não impede de estarmos aqui.
Retire cuidadosamente os órgãos,
criança.
Coloque a mão bem lá no fundo,
quebre o brinquedo
sem saber qual é.
A menor carícia pode ser tão forte
quanto um orgasmo.
👁️ 209
ANTIMATÉRIA
Talvez seja impossível explicar ao cego
qual o sentido de “to boldly
go where no man has gone before”,
se a legenda antecede todos os movimentos
e não deixa que, clara,
a imagem
se traduza.
Em vão tentaremos descrever a geometria do espaço,
a cor, a forma e a medida das coisas
que se perdem no feixe
de luz. É sempre abstrato
transmitir a sensação de ver
a matéria desintegrando-se, sem lamento,
e impalpável aparecer em outro lugar.
Poderíamos assustá-lo com alguma dor.
Mas o universo não cessa. As imperfeições ultrapassam
os efeitos
e as passagens estreitas mostram que, quando um objeto
envelhece, por dentro
o silêncio supera
o medo.
Isso não quer dizer que expomos nossos corpos ao sol.
qual o sentido de “to boldly
go where no man has gone before”,
se a legenda antecede todos os movimentos
e não deixa que, clara,
a imagem
se traduza.
Em vão tentaremos descrever a geometria do espaço,
a cor, a forma e a medida das coisas
que se perdem no feixe
de luz. É sempre abstrato
transmitir a sensação de ver
a matéria desintegrando-se, sem lamento,
e impalpável aparecer em outro lugar.
Poderíamos assustá-lo com alguma dor.
Mas o universo não cessa. As imperfeições ultrapassam
os efeitos
e as passagens estreitas mostram que, quando um objeto
envelhece, por dentro
o silêncio supera
o medo.
Isso não quer dizer que expomos nossos corpos ao sol.
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Comentários (1)
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thaisftnl
2020-05-25
Sua construção poética é de fato encantadora, estou embriagada por sua poesia, simplesmente bela!
Alexandre Rodrigues da Costa possui graduação em Letras pela UFMG (1997), mestrado em Letras pela UFMG (2001), e doutorado em Letras pela UFMG (2005). Em 2010 e 2011, desenvolveu pesquisa sobre as obras poéticas de Georges Bataille e Samuel Beckett como pós-doutorado na Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG. É autor de Objetos Difíceis (7Letras/Funalfa, 2004), vencedor do Prêmio Cidade de Juiz de Fora 2003; Fora de Quadro (7Letras, 2005), vencedor do Prêmio Vivaldi Moreira da Academia Mineira de Letras; Peso morto (7Letras, 2008), Corpos cegos (7Letras, 2012), Bela Lugosi no ateliê de Kandinski (7Letras, 2013), Prêmio Barueri de Literatura - categoria Livros Já Editados, A mímica invertida dos desaparecidos (7Letras, 2014), Acidentes de Leitura (Editora do autor, 2015), Como assistir a um road movie em pé (7Letras, 2016), Do outro lado sedimentos, ou até onde a vista alcança (7Letras, 2018), A transfiguração do olhar: um estudo das relações entre artes visuais e literatura em Rainer Maria Rilke e Clarice Lispector (EdUEMG, 2019). Organizou e traduziu Poemas de Georges Bataille (Editora UFMG, 2015) e Corpos labirínticos: textos de Hans Bellmer (Editora Gramma, 2019). É professor de disciplinas teóricas da Escola Guignard (UEMG) e do Programa de Pós-Graduação em Artes (UEMG).
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