Lista de Poemas
REFLEXOS
Sem acontecimentos
que a dissimulem, sem
presença
que a obstrua,
apenas
eu,
esse pronome incerto
com o qual se nomeia
e me fere.
que a dissimulem, sem
presença
que a obstrua,
apenas
eu,
esse pronome incerto
com o qual se nomeia
e me fere.
👁️ 168
DO QUE SÃO FEITAS AS MENINAS?
Negativo de cinzas,
o gesto prestes a despedaçar
a câmera, o enquadramento,
a gravidade que se ajusta
à falta de sentido,
de tempo para ver
o que há atrás dela.
Como sublimar o corpo,
deixar que a luz o molde
em sombras, se ela
entrelaça com as mãos
não apenas os cabelos,
mas o espaço vazio,
a nudez jamais alcançada?
Não é possível,
aqui, entrar em detalhes,
tudo não passa de improviso,
de nunca haver plano,
de a fuga
ser tão fracassada
quanto antes.
Ela permanece
congelada, inerte em um tempo
que não é mais o nosso,
com os olhos ocultos,
quem sabe cegos
para as armadilhas
colocadas à sua volta.
o gesto prestes a despedaçar
a câmera, o enquadramento,
a gravidade que se ajusta
à falta de sentido,
de tempo para ver
o que há atrás dela.
Como sublimar o corpo,
deixar que a luz o molde
em sombras, se ela
entrelaça com as mãos
não apenas os cabelos,
mas o espaço vazio,
a nudez jamais alcançada?
Não é possível,
aqui, entrar em detalhes,
tudo não passa de improviso,
de nunca haver plano,
de a fuga
ser tão fracassada
quanto antes.
Ela permanece
congelada, inerte em um tempo
que não é mais o nosso,
com os olhos ocultos,
quem sabe cegos
para as armadilhas
colocadas à sua volta.
👁️ 212
STORYBOARD
Sequências inteiras sem trucagem.
Aconchego árido
ao ainda não?
Há isso que alguns
chamam de “a precisão
do gesto”,
que engana facilmente
quem desconhece
a ferida mostrada em seus detalhes,
as várias formas
como a morte pode ser filmada
em câmera lenta,
sem cortes,
apenas o travelling
desenhando o caminho,
mudando de assunto sempre,
até que,
(surpresa!
ninguém percebe),
o lugar do passado
não seja mais o mesmo.
Aconchego árido
ao ainda não?
Há isso que alguns
chamam de “a precisão
do gesto”,
que engana facilmente
quem desconhece
a ferida mostrada em seus detalhes,
as várias formas
como a morte pode ser filmada
em câmera lenta,
sem cortes,
apenas o travelling
desenhando o caminho,
mudando de assunto sempre,
até que,
(surpresa!
ninguém percebe),
o lugar do passado
não seja mais o mesmo.
👁️ 179
ARAME FARPADO
Tem bordas afiadas,
cortantes como facas
e um estranho hábito
de esconder
atrás de nós
tudo aquilo que,
um dia, desprezou e,
se não estamos
enganados,
junta-se a isso
a contingência das fotos
na minúcia
da pele cortada,
da lâmina abandonada,
nada além de uma reta
suspensa, arame
farpado sob os pés.
cortantes como facas
e um estranho hábito
de esconder
atrás de nós
tudo aquilo que,
um dia, desprezou e,
se não estamos
enganados,
junta-se a isso
a contingência das fotos
na minúcia
da pele cortada,
da lâmina abandonada,
nada além de uma reta
suspensa, arame
farpado sob os pés.
👁️ 200
SEDE
A água no vidro anuncia medo
e um simples movimento dos olhos
cobre nuvens entrecortadas de ambiguidade
e desconforto.
Fingimos que há um rosto para olhar
com a avidez de quem encontra
um sentimento sem solução.
O tempo nos detém,
se faz com o que não faz,
refazendo-se, porém, a cada passo,
por obra de sua própria carência.
De novo, a mesma chuva,
as monótonas linhas
da chuva que consomem o corpo
e criam uma mancha na parede.
Até quando a dor te dará calma?
A mão entre duas faces
como corte que não sangra,
sem a exatidão das formas
na ausência esquecida;
o ar mais frio, o veneno mais
brando ou esta sede através da noite.
e um simples movimento dos olhos
cobre nuvens entrecortadas de ambiguidade
e desconforto.
Fingimos que há um rosto para olhar
com a avidez de quem encontra
um sentimento sem solução.
O tempo nos detém,
se faz com o que não faz,
refazendo-se, porém, a cada passo,
por obra de sua própria carência.
De novo, a mesma chuva,
as monótonas linhas
da chuva que consomem o corpo
e criam uma mancha na parede.
Até quando a dor te dará calma?
A mão entre duas faces
como corte que não sangra,
sem a exatidão das formas
na ausência esquecida;
o ar mais frio, o veneno mais
brando ou esta sede através da noite.
👁️ 248
MANHÃ
O cheiro de fezes
invade o quarto.
Lá fora,
os cães latem,
rosnam.
Brindariam com sua urina
a dor do orgasmo,
as poses instáveis,
o silêncio
dos reflexos?
invade o quarto.
Lá fora,
os cães latem,
rosnam.
Brindariam com sua urina
a dor do orgasmo,
as poses instáveis,
o silêncio
dos reflexos?
👁️ 161
ÁREAS DE INTERESSE
Como se somente ela
pudesse ficar surpreendida
com o que havia obtido,
afastava-se de perguntas.
Hesitei em lhe dizer
que de nada adiantava
marcar no vidro
o que nunca veria,
mas encontrava-se
perdida, inseparável
dos objetos que colocava
sobre a mesa.
pudesse ficar surpreendida
com o que havia obtido,
afastava-se de perguntas.
Hesitei em lhe dizer
que de nada adiantava
marcar no vidro
o que nunca veria,
mas encontrava-se
perdida, inseparável
dos objetos que colocava
sobre a mesa.
👁️ 202
OUTRO NOME
Alguém arremessa
pedras na água.
Há muito o passado
pede, sem existir,
o que não basta pela
metade de um nome.
Na areia, crianças
enterram espelhos,
sustentam,
para além da vista,
o lado do objeto
com que se cortam.
pedras na água.
Há muito o passado
pede, sem existir,
o que não basta pela
metade de um nome.
Na areia, crianças
enterram espelhos,
sustentam,
para além da vista,
o lado do objeto
com que se cortam.
👁️ 183
VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA PERDIDO
Afirmações obscuras.
Não, nada a ver com o pianista cego
que despreza a surdez
de Beethoven,
enquanto tece armadilhas
para os dedos.
É de lá, daquele lado,
dizem, de onde vêm
os gritos dos mortos,
às vezes, o silêncio
de uma ordem,
o que tanto a assusta,
quando, sentada à mesa,
sabe que não pode
se comunicar com as mãos.
Não, nada a ver com o pianista cego
que despreza a surdez
de Beethoven,
enquanto tece armadilhas
para os dedos.
É de lá, daquele lado,
dizem, de onde vêm
os gritos dos mortos,
às vezes, o silêncio
de uma ordem,
o que tanto a assusta,
quando, sentada à mesa,
sabe que não pode
se comunicar com as mãos.
👁️ 189
CRIANÇA ENCONTRADA MORTA NA PRAIA
Que idade tinhas quando o medo chegou?
Os grandes animais
te cercam na areia e não se satisfazem.
Dão voltas em torno do teu corpo
sem saber quando parar.
Alguém fala, escreve, fotografa,
mas permaneces perdido,
mínimo em um espaço
ao qual não pertences.
A foto consome a carne,
deixa as coisas à deriva,
como se elas resistissem
à morte, aos desenhos na areia,
como se, diante da fome e da sede,
eles, os náufragos, ignorassem o vento,
se refugiassem em paisagens
que não se incomodam com o fim.
Mas, mesmo no silêncio,
nascem, sob a água, com a voz alta,
corpos sem extensões,
pausas tocadas pela noite.
Pode o detalhe escapar
da atenção,
ao extremo de polir os ossos,
de água em fuga, à margem do corte?
Ver, aqui, não significa redimir-se.
Nunca saberemos onde
estão aqueles que nos ouvem.
Talvez aqui, nestas margens,
queiramos anular a distância,
vir ao nosso próprio encontro,
na expectativa de conseguir
o que os olhos não oferecem.
Alguns riem e não se perguntam
como um morto sem olhos pode chorar.
Não finjas, não me enganes. Responde.
Que idade tinhas quando o medo chegou?
Apagar tudo o que está em negrito.
Os grandes animais
te cercam na areia e não se satisfazem.
Dão voltas em torno do teu corpo
sem saber quando parar.
Alguém fala, escreve, fotografa,
mas permaneces perdido,
mínimo em um espaço
ao qual não pertences.
A foto consome a carne,
deixa as coisas à deriva,
como se elas resistissem
à morte, aos desenhos na areia,
como se, diante da fome e da sede,
eles, os náufragos, ignorassem o vento,
se refugiassem em paisagens
que não se incomodam com o fim.
Mas, mesmo no silêncio,
nascem, sob a água, com a voz alta,
corpos sem extensões,
pausas tocadas pela noite.
Pode o detalhe escapar
da atenção,
ao extremo de polir os ossos,
de água em fuga, à margem do corte?
Ver, aqui, não significa redimir-se.
Nunca saberemos onde
estão aqueles que nos ouvem.
Talvez aqui, nestas margens,
queiramos anular a distância,
vir ao nosso próprio encontro,
na expectativa de conseguir
o que os olhos não oferecem.
Alguns riem e não se perguntam
como um morto sem olhos pode chorar.
Não finjas, não me enganes. Responde.
Que idade tinhas quando o medo chegou?
Apagar tudo o que está em negrito.
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Comentários (1)
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thaisftnl
2020-05-25
Sua construção poética é de fato encantadora, estou embriagada por sua poesia, simplesmente bela!
Alexandre Rodrigues da Costa possui graduação em Letras pela UFMG (1997), mestrado em Letras pela UFMG (2001), e doutorado em Letras pela UFMG (2005). Em 2010 e 2011, desenvolveu pesquisa sobre as obras poéticas de Georges Bataille e Samuel Beckett como pós-doutorado na Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG. É autor de Objetos Difíceis (7Letras/Funalfa, 2004), vencedor do Prêmio Cidade de Juiz de Fora 2003; Fora de Quadro (7Letras, 2005), vencedor do Prêmio Vivaldi Moreira da Academia Mineira de Letras; Peso morto (7Letras, 2008), Corpos cegos (7Letras, 2012), Bela Lugosi no ateliê de Kandinski (7Letras, 2013), Prêmio Barueri de Literatura - categoria Livros Já Editados, A mímica invertida dos desaparecidos (7Letras, 2014), Acidentes de Leitura (Editora do autor, 2015), Como assistir a um road movie em pé (7Letras, 2016), Do outro lado sedimentos, ou até onde a vista alcança (7Letras, 2018), A transfiguração do olhar: um estudo das relações entre artes visuais e literatura em Rainer Maria Rilke e Clarice Lispector (EdUEMG, 2019). Organizou e traduziu Poemas de Georges Bataille (Editora UFMG, 2015) e Corpos labirínticos: textos de Hans Bellmer (Editora Gramma, 2019). É professor de disciplinas teóricas da Escola Guignard (UEMG) e do Programa de Pós-Graduação em Artes (UEMG).
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