Lista de Poemas
LÂMINA 5
Há esse incômodo das feridas,
de precisar chamar a atenção,
mesmo que o limite do corpo
não seja parte desse corpo.
É que sua simples presença
não basta para justificar
o fim perseguido.
Tudo se passa sem sinceridade.
Ela nem ao menos sabe
onde está, repete o nome
como se esperasse
algo dele e o movimento
dos dedos pudesse interromper
cada uma daquelas ondas.
de precisar chamar a atenção,
mesmo que o limite do corpo
não seja parte desse corpo.
É que sua simples presença
não basta para justificar
o fim perseguido.
Tudo se passa sem sinceridade.
Ela nem ao menos sabe
onde está, repete o nome
como se esperasse
algo dele e o movimento
dos dedos pudesse interromper
cada uma daquelas ondas.
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LÂMINA 6
Já não há explicação que lhe sirva.
Se ainda está ali, é porque sempre
algo lhe escapa
e se mantém escondido,
a ponto de abrir cada vez mais
as suas feridas.
O mar, não saberia dizer o motivo,
incomoda-lhe.
Tudo se torna insustentável,
como alguém prestes a cair,
morto, sobre a própria sombra.
Mas seus métodos eram precisos
e cuidadosos, suficientes
para se construírem com erros.
Se ainda está ali, é porque sempre
algo lhe escapa
e se mantém escondido,
a ponto de abrir cada vez mais
as suas feridas.
O mar, não saberia dizer o motivo,
incomoda-lhe.
Tudo se torna insustentável,
como alguém prestes a cair,
morto, sobre a própria sombra.
Mas seus métodos eram precisos
e cuidadosos, suficientes
para se construírem com erros.
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LÂMINA 1
Não vem das águas.
O mar silencia-se antes
que a mão o toque,
a explicação lhe dê
a certeza de uma medida,
como lâmina que as vozes
não podem cumprir.
Um reflexo escapa,
cada lado do corpo resiste
à claridade das coisas,
às paredes que ignoram
o fato impossível,
a face atravessada
por sua própria sombra.
O mar silencia-se antes
que a mão o toque,
a explicação lhe dê
a certeza de uma medida,
como lâmina que as vozes
não podem cumprir.
Um reflexo escapa,
cada lado do corpo resiste
à claridade das coisas,
às paredes que ignoram
o fato impossível,
a face atravessada
por sua própria sombra.
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LÂMINA 2
O mesmo olhar,
no mesmo lugar,
porém em sentido inverso.
Ela nos alcança,
coberta de sombra
e silêncio, mas, esquiva,
perde-se
nos espaços que cavamos
na areia.
“Comoções das coisas
pouco firmes da terra”,
diz, de forma irônica,
mergulhando
as mãos no mar.
no mesmo lugar,
porém em sentido inverso.
Ela nos alcança,
coberta de sombra
e silêncio, mas, esquiva,
perde-se
nos espaços que cavamos
na areia.
“Comoções das coisas
pouco firmes da terra”,
diz, de forma irônica,
mergulhando
as mãos no mar.
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LÂMINA VII
A partir de seu lado de fora,
na ausência desse objeto
do qual fugimos,
ali, nada mais da imagem existe.
Onde a noite, também ela,
à sua maneira, circula,
as bordas estão desfocadas,
indistintas, móveis.
Para além de suas superfícies,
somos obrigados a permanecer
em silêncio, a olhar reflexos
na água e ela, de costas para nós,
voltada para o mar,
desaparece atrás do que imita.
na ausência desse objeto
do qual fugimos,
ali, nada mais da imagem existe.
Onde a noite, também ela,
à sua maneira, circula,
as bordas estão desfocadas,
indistintas, móveis.
Para além de suas superfícies,
somos obrigados a permanecer
em silêncio, a olhar reflexos
na água e ela, de costas para nós,
voltada para o mar,
desaparece atrás do que imita.
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LÂMINA 4
Entrega o vazio de sua forma,
mas seria óbvio demais
deixar a luz queimá-la
contra o fundo desfocado.
O que a sustenta não permite
uma ferida tão improvável
ou esforço para excluí-la
daquilo que vê.
Se nenhuma voz a interrompe,
o mar não impede que ela
abandone o que nunca
soube manter, de uma coisa
à outra, para banhar-se, fria,
na expressão da própria dor.
mas seria óbvio demais
deixar a luz queimá-la
contra o fundo desfocado.
O que a sustenta não permite
uma ferida tão improvável
ou esforço para excluí-la
daquilo que vê.
Se nenhuma voz a interrompe,
o mar não impede que ela
abandone o que nunca
soube manter, de uma coisa
à outra, para banhar-se, fria,
na expressão da própria dor.
👁️ 6
NOTAS SOBRE AS DISTÂNCIAS DA MIOPIA
O olho pode não estar ao avesso,
mas sobre ele se espalha
uma ou outra mosca
a nos dizer que o espaço
é insuficiente e lidar com rostos
não é a mesma coisa
que afugentar fantasmas.
Basta quebrar com os dentes o gelo,
para inserir entre eles
o lado de fora, que se faz dentro,
quando menos se espera,
e dá ordens enquanto
permanece em silêncio.
Nada tão imprevisível
quanto as raízes
que a luz alcança,
ao se despedaçar sobre a retina.
mas sobre ele se espalha
uma ou outra mosca
a nos dizer que o espaço
é insuficiente e lidar com rostos
não é a mesma coisa
que afugentar fantasmas.
Basta quebrar com os dentes o gelo,
para inserir entre eles
o lado de fora, que se faz dentro,
quando menos se espera,
e dá ordens enquanto
permanece em silêncio.
Nada tão imprevisível
quanto as raízes
que a luz alcança,
ao se despedaçar sobre a retina.
👁️ 215
A TORTURA DO MEDO
Fazia com que elas
assistissem às suas próprias
mortes.
Armara o espelho
sobre a câmera,
encaixara
a navalha no obturador.
A partir daí,
jamais se renderia ao medo,
pelo contrário,
o ofereceria
como gratidão por todas
as imagens
que recebera,
e, no momento oportuno,
não seria diferente
de nenhuma de suas vítimas,
se entregaria ao seu reflexo,
correria
até ele,
de forma a encontrar
o que nunca tivera.
assistissem às suas próprias
mortes.
Armara o espelho
sobre a câmera,
encaixara
a navalha no obturador.
A partir daí,
jamais se renderia ao medo,
pelo contrário,
o ofereceria
como gratidão por todas
as imagens
que recebera,
e, no momento oportuno,
não seria diferente
de nenhuma de suas vítimas,
se entregaria ao seu reflexo,
correria
até ele,
de forma a encontrar
o que nunca tivera.
👁️ 237
FALSIFICADORES
O olho não vê
que outro olho, desconcertante,
não justifica a farsa
e, ao menor sinal de arrependimento,
toda evidência precisará ser removida.
Alguns afirmariam que,
nesse caso, o falsificador falhou, ao prover
a realidade com obras desnecessárias
e que existe uma hora
na qual as mãos não devem ser mais rápidas
do que os olhos.
Outros diriam que, entre o oculto
e o quase revelado, o que falta são súbitas faíscas,
sombras na parede,
movimentos inesperados
em plena escuridão,
voláteis a qualquer superfície,
entregues
à surpresa de mãos úmidas
e ainda vazias.
que outro olho, desconcertante,
não justifica a farsa
e, ao menor sinal de arrependimento,
toda evidência precisará ser removida.
Alguns afirmariam que,
nesse caso, o falsificador falhou, ao prover
a realidade com obras desnecessárias
e que existe uma hora
na qual as mãos não devem ser mais rápidas
do que os olhos.
Outros diriam que, entre o oculto
e o quase revelado, o que falta são súbitas faíscas,
sombras na parede,
movimentos inesperados
em plena escuridão,
voláteis a qualquer superfície,
entregues
à surpresa de mãos úmidas
e ainda vazias.
👁️ 219
SEM A SUTILEZA DOS CONTORNOS
falta o erro,
se quiser, tem que ser
movimento impreciso
bem no fundo dos olhos,
retorno ao comensurável
sem palpites
acerca do destino,
habitações em penhascos,
pontas de cinismo numa excursão
cênica, paisagem deslocada
com a retina,
se quiser, tem que ser
movimento impreciso
bem no fundo dos olhos,
retorno ao comensurável
sem palpites
acerca do destino,
habitações em penhascos,
pontas de cinismo numa excursão
cênica, paisagem deslocada
com a retina,
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Comentários (1)
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thaisftnl
2020-05-25
Sua construção poética é de fato encantadora, estou embriagada por sua poesia, simplesmente bela!
Alexandre Rodrigues da Costa possui graduação em Letras pela UFMG (1997), mestrado em Letras pela UFMG (2001), e doutorado em Letras pela UFMG (2005). Em 2010 e 2011, desenvolveu pesquisa sobre as obras poéticas de Georges Bataille e Samuel Beckett como pós-doutorado na Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG. É autor de Objetos Difíceis (7Letras/Funalfa, 2004), vencedor do Prêmio Cidade de Juiz de Fora 2003; Fora de Quadro (7Letras, 2005), vencedor do Prêmio Vivaldi Moreira da Academia Mineira de Letras; Peso morto (7Letras, 2008), Corpos cegos (7Letras, 2012), Bela Lugosi no ateliê de Kandinski (7Letras, 2013), Prêmio Barueri de Literatura - categoria Livros Já Editados, A mímica invertida dos desaparecidos (7Letras, 2014), Acidentes de Leitura (Editora do autor, 2015), Como assistir a um road movie em pé (7Letras, 2016), Do outro lado sedimentos, ou até onde a vista alcança (7Letras, 2018), A transfiguração do olhar: um estudo das relações entre artes visuais e literatura em Rainer Maria Rilke e Clarice Lispector (EdUEMG, 2019). Organizou e traduziu Poemas de Georges Bataille (Editora UFMG, 2015) e Corpos labirínticos: textos de Hans Bellmer (Editora Gramma, 2019). É professor de disciplinas teóricas da Escola Guignard (UEMG) e do Programa de Pós-Graduação em Artes (UEMG).
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