Lista de Poemas
AUTO-RETRATO NO FIM DE UMA CORRIDA
ele armara
a câmera,
acionara o tempo,
o único
tempo
que lhe foi
permitido,
tinha calculado
tudo: no fim
daquilo que ele
entendia
como pista,
ela o esperaria,
a foto,
mas algo
rompera o trajeto
de onde seu olhar
partiu,
como fugir
de um acontecimento
que lhe nasce
às costas,
vencer o que se
extinguiria tão
inexoravelmente
diante dele?
teve que repetir,
várias vezes,
a derrota,
a violência
do lugar
que ocupava,
até salvar-se
nas bordas
do quadro, até
encontrar o vazio
no qual, de tanto
correr,
acabaria por cair,
a câmera,
acionara o tempo,
o único
tempo
que lhe foi
permitido,
tinha calculado
tudo: no fim
daquilo que ele
entendia
como pista,
ela o esperaria,
a foto,
mas algo
rompera o trajeto
de onde seu olhar
partiu,
como fugir
de um acontecimento
que lhe nasce
às costas,
vencer o que se
extinguiria tão
inexoravelmente
diante dele?
teve que repetir,
várias vezes,
a derrota,
a violência
do lugar
que ocupava,
até salvar-se
nas bordas
do quadro, até
encontrar o vazio
no qual, de tanto
correr,
acabaria por cair,
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LA NOCHE DEL TERROR CIEGO
No súbito abandono, o lugar se manteve coeso
e todos os campos se incendiaram.
Não havia mais paisagens lógicas
ou vulnerabilidade escondida em lamento.
Sabíamos que um gesto seria o suficiente
para todas as coisas imperfeitas se afirmarem.
Aceitávamos, tranquilamente,
o movimento obsceno da boca, o choro atrás da parede,
as sombras que um dia seriam nossas.
Os nomes estavam nos mesmos lugares de antes
e o desprezo ainda cobria tudo,
inclusive o corpo esquecido na varanda,
o vidro trincado da janela.
É possível ver através da pele sem se guiar pela noite?
Sempre há o temor de se perder
em meio ao frio da madrugada, de aceitar a água
como a única ferida que as bocas talharam.
Víamos nossos reflexos na tv
e não nos incomodávamos.
Os olhos eram apenas imagens
e o mar nunca nos ensinou o quanto devíamos
nos afastar dos espelhos
ou como enterrar os mortos na areia.
As coisas continuam por serem feitas
e as mãos queimadas, reluzindo sobre o concreto,
não dizem em qual teste erraram.
Estão distantes, diferentes de nós,
desatadas de nossos corpos,
apontando para considerações desnecessárias.
e todos os campos se incendiaram.
Não havia mais paisagens lógicas
ou vulnerabilidade escondida em lamento.
Sabíamos que um gesto seria o suficiente
para todas as coisas imperfeitas se afirmarem.
Aceitávamos, tranquilamente,
o movimento obsceno da boca, o choro atrás da parede,
as sombras que um dia seriam nossas.
Os nomes estavam nos mesmos lugares de antes
e o desprezo ainda cobria tudo,
inclusive o corpo esquecido na varanda,
o vidro trincado da janela.
É possível ver através da pele sem se guiar pela noite?
Sempre há o temor de se perder
em meio ao frio da madrugada, de aceitar a água
como a única ferida que as bocas talharam.
Víamos nossos reflexos na tv
e não nos incomodávamos.
Os olhos eram apenas imagens
e o mar nunca nos ensinou o quanto devíamos
nos afastar dos espelhos
ou como enterrar os mortos na areia.
As coisas continuam por serem feitas
e as mãos queimadas, reluzindo sobre o concreto,
não dizem em qual teste erraram.
Estão distantes, diferentes de nós,
desatadas de nossos corpos,
apontando para considerações desnecessárias.
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LONGA JORNADA NOITE ADENTRO
Cercada pelo
que desconhece,
devora
a própria língua,
aconchega-se
na pele da filha
morta,
na lembrança do dia
dentro da noite,
da noite
apenas noite.
Seus passos
são desproporcionais,
tremores do corpo
em colapso,
quase esquecido.
À medida que
anda, abriga em si,
sem tempo e remorso,
todas as memórias,
recolhe pedaços
de espelhos cravados
na carne,
os quais coloca,
cuidadosamente,
um a um,
sobre a mesa,
ao lado da comida.
que desconhece,
devora
a própria língua,
aconchega-se
na pele da filha
morta,
na lembrança do dia
dentro da noite,
da noite
apenas noite.
Seus passos
são desproporcionais,
tremores do corpo
em colapso,
quase esquecido.
À medida que
anda, abriga em si,
sem tempo e remorso,
todas as memórias,
recolhe pedaços
de espelhos cravados
na carne,
os quais coloca,
cuidadosamente,
um a um,
sobre a mesa,
ao lado da comida.
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Comentários (1)
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thaisftnl
2020-05-25
Sua construção poética é de fato encantadora, estou embriagada por sua poesia, simplesmente bela!
Alexandre Rodrigues da Costa possui graduação em Letras pela UFMG (1997), mestrado em Letras pela UFMG (2001), e doutorado em Letras pela UFMG (2005). Em 2010 e 2011, desenvolveu pesquisa sobre as obras poéticas de Georges Bataille e Samuel Beckett como pós-doutorado na Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG. É autor de Objetos Difíceis (7Letras/Funalfa, 2004), vencedor do Prêmio Cidade de Juiz de Fora 2003; Fora de Quadro (7Letras, 2005), vencedor do Prêmio Vivaldi Moreira da Academia Mineira de Letras; Peso morto (7Letras, 2008), Corpos cegos (7Letras, 2012), Bela Lugosi no ateliê de Kandinski (7Letras, 2013), Prêmio Barueri de Literatura - categoria Livros Já Editados, A mímica invertida dos desaparecidos (7Letras, 2014), Acidentes de Leitura (Editora do autor, 2015), Como assistir a um road movie em pé (7Letras, 2016), Do outro lado sedimentos, ou até onde a vista alcança (7Letras, 2018), A transfiguração do olhar: um estudo das relações entre artes visuais e literatura em Rainer Maria Rilke e Clarice Lispector (EdUEMG, 2019). Organizou e traduziu Poemas de Georges Bataille (Editora UFMG, 2015) e Corpos labirínticos: textos de Hans Bellmer (Editora Gramma, 2019). É professor de disciplinas teóricas da Escola Guignard (UEMG) e do Programa de Pós-Graduação em Artes (UEMG).
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