Par Deus, Infançom, Queredes Perder
Par Deus, infançom, queredes perder
a terra, pois nom temedes el-rei!
Ca já britades seu degred', e sei
que lho faremos mui cedo saber:
ca vos mandarom a capa, de pram,
trager dous anos, e provar-vos-am
que vo-la virom três anos trager.
E provar-vos-á, das carnes, quem quer,
que duas carnes vos mandam comer,
e nom queredes vós d'ũa cozer;
e no degredo nom há já mester;
nem já da capa nom hei a falar:
ca bem três anos a vimos andar
no vosso col'e de vossa molher.
E fará el-rei corte este mês,
e manda[rá]m-vos, infançom, chamar;
e vós querredes a capa levar
e provarám-vos, pero que vos pês,
da vossa capa e vosso guarda-cós,
em cas d'el-rei, vos provaremos nós,
que ham quatr'anos e passa[m] per três.
Martim Jograr, Ai Dona Maria
Martim jograr, ai Dona Maria,
jeita-se vosco já cada dia,
e lazero-m'eu mal.
And'eu morrend'e morrendo sejo,
e el tem sempr'o cono sobejo,
e lazero-m'eu mal.
Da mia lazeira pouco se sente;
fod'el bom con[o] e jaz caente,
e lazero-m'eu mal.
Ora Quer Lourenço Guarir
Ora quer Lourenço guarir
pois que se quita de rascar;
e já guarria, a meu cuidar,
se ora houvesse que vestir
[.......................em]
e já nulh'home nom se tem
por devedor de o ferir.
E se se quisesse partir,
como se partiu do rascar,
d'um pouco que há de trobar,
poderia mui bem sair
de todo, por se quitar en,
e nõn'o ferriam por en
os que o nom querem oir.
E seria conhocedor
de seu trobar, por nom fazer
os outros errados seer;
e el guarria mui melhor
sem trobar e sem citolom,
pois perdeu a voz e o som,
por que o feriam peior.
Lourenço, Pois Te Quitas de Rascar
Lourenço, pois te quitas de rascar
e desemparas o teu citolom,
rogo-te que nunca digas meu som
e jamais nunca mi farás pesar;
ca per trobar queres já guarecer;
e farás-m'ora desejos perder
do trobador que trobou do Juncal.
Ora cuid'eu [a] cobrar o dormir
que perdi: sempre, cada que te vi
rascar no cep'e tanger, nom dormi;
mais, poilo queres já de ti partir,
pois guarecer [buscas i] per trobar,
Lourenço, nunca irás a logar
u tu nom faças as gentes riir.
E vês, Lourenço, se Deus mi perdom,
pois que me tolhes do cepo pavor
e de cantar, farei-t'eu sempr'amor,
e tenho que farei mui gram razom;
e direi-ti qual amor t'eu farei:
jamais nunca teu cantar oírei
que en nom ria mui de coraçom;
Ca vês, Lourenço, muito mal prendi
de teu rascar, e do cep'e de ti;
mais, pois t'en quitas, tudo ti perdom.
Nunca [A]Tam Gram Torto Vi
Nunca [a]tam gram torto vi
com'eu prendo d'um infançom,
e quantos ena terra som,
todo'lo têm por assi:
o infançom, cada que quer,
vai-se deitar com sa molher
e nulha rem nom dá por mi.
E já me nunca temerá,
ca sempre me tev'em desdém,
des i ar quer sa molher bem
e já sempr'i filhos fará
- siquer três filhos que fiz i,
filha-os todos pera si:
o Demo lev'o que m'en dá!
Em tam gram coita viv'hoj'eu
que nom poderia maior:
vai-se deitar com mia senhor
e diz do leito que é seu
e deita-se a dormir em paz;
des i, se filh'ou filha faz,
nõn'o quer outorgar por meu!
Muito Te Vejo, Lourenço, Queixar
- Muito te vejo, Lourenço, queixar
pola cevada e polo bever,
que to nom mando dar a teu prazer;
mais eu to quero fazer melhorar:
pois que t'agora citolar oí
e cantar, mando que to dem assi
bem como o tu sabes merecer.
- Joam Garcia, se vos en pesar
de que me queix[e] em vosso poder,
o melhor que podedes i fazer:
nom mi mandedes a cevada dar
mal, nen'o vinho, que mi nom dam i
tam bem com[o m']eu sempre mereci,
ca vos seria grave de fazer.
- Lourenço, a mim grave nom será
de te pagar tanto que mi quiser:
pois ante mi fezisti teu mester,
mui bem entendo e bem vejo já
como te pagu'; e logo o mandarei
pagar a [um] gram vilão que hei,
se um bom pao na mão tever.
- Joam Garcia, tal paga achará
em vós o jograr, quand'a vós veer,
mais outr'a quem [meu] mester fezer,
que m'en entenda, mui bem [mi] fará,
que panos ou algo merecerei;
e vossa paga ben'a leixarei
e pagad'[a] outro jograr qualquer.
- Pois, Lourenço, cala-t'e calar-m'-ei
e todavia tigo mi averrei,
e do meu filha quanto chi m'eu der.
- Joam Garcia, nom vos filharei
algo, e mui bem vos citolarei,
e conhosco mui bem [o] trobar.
- O chufar, Dom Lourenço, [o] chufar!
Par Deus, Lourenço, Mui Desaguisadas
Par Deus, Lourenço, mui desaguisadas
novas oí agor'aqui dizer:
mias tenções quiseram desfazer
e que ar fossem per ti amparadas.
Joam Soares foi; e di-lh'assi:
que louv'eu donas, mais nunca per mi,
mentr'eu viver, seram amas loadas.
E se eu fosse u forom escançadas
aquestas novas de que ti falei,
Lourenço, gram verdade ti direi:
tôdalas novas foram acaladas;
mais mim e ti poss'eu bem defender,
ca nunca eu donas mandei tecer,
nem lhis trobei nunca polas maladas.
Cordas e cintas muitas hei eu dadas,
Lourenç', a donas e elas a mim;
mais pero nunca com donas teci,
nem trobei nunca por amas honradas;
mais [as] que me criarom, dar-lhis-ei
sempr'em que vivam e vesti-las-ei,
e seram donas de mi sempr'amadas.
Lourenço, di-lhe que sempre trobei
por bõas donas, e sempr'estranhei
os que trobavam por amas mamadas.
A Dom Foam Quer'eu Gram Mal
A Dom Foam quer'eu gram mal
e quer'a sa molher gram bem;
gram sazom há que m'est'avém
e nunca i já farei al;
ca, des quand'eu sa molher vi,
se púdi, sempre a servi
e sempr'a ele busquei mal.
Quero-me já maenfestar,
e pesará muit'[a] alguém,
mais, sequer que moira por en,
dizer quer'eu do mao mal
e bem da que mui bõa for,
qual nom há no mundo melhor,
quero-[o] já maenfestar.
De parecer e de falar
e de bõas manhas haver,
ela, nõn'a pode vencer
dona no mund', a meu cuidar;
ca ela fez Nostro Senhor
e el fez o Demo maior,
e o Demo o faz falar.
E pois ambos ataes som,
como eu tenho no coraçom,
os julg'Aquel que pod'e val.
Dona Ouroana, Pois Já Besta Havedes
Dona Ouroana, pois já besta havedes,
outro conselh'ar havedes mester:
vós sodes mui fraquelinha molher
e já mais cavalgar nom podedes;
mais, cada que quiserdes cavalgar,
mandade sempr[e] a besta chegar
a um car[v]alho, de que cavalguedes.
E cada que vós andardes senlheira,
se vo'la besta mal enselada andar,
guardade-a de xi vos derramar,
ca, pela besta, sodes soldadeira,
e, par Deus, grave vos foi d'haver;
e punhade sempr'en'[a] guarecer,
ca em talho sodes de peideira.
E nom moredes muito [e]na rua,
este conselho filhade de mim,
ca perderedes log'i o rocim
e nom faredes i vossa prol nẽũa;
e mentr'houverdes a besta, de pram,
cada u fordes, todos vos farám
honra doutra puta fududancua.
E se ficardes em besta muar,
eu vos conselho sempr[e] a ficar
ant'em muacho novo ca em mua.
Vi Eu Estar Noutro Dia
Vi eu estar noutro dia
infanções com um ric'home
posfaçando de quem mal come;
e dix'eu, que os ouvia:
"Cada casa, favas lavam!"
Posfaçavam d'um escasso,
[e] foi-os eu ascuitando;
eles forom posfaçando,
e dixi-m'eu, pass'em passo:
"Cada casa, favas lavam!"
Posfaçavam d'encolheito
e de vil e d'espantoso
e em sa terra lixoso;
e dix'eu entom dereito:
"Cada casa, favas lavam!"