Escritas

Lista de Poemas

Só uma cousa me apavora

Só uma cousa me apavora
A esta hora, a toda a hora:
É que verei a morte frente a frente,
Inevitavelmente.
Ah, este horror, como poder dizer?
Não lhe poder fugir! Não podê-lo esquecer!

E nessa hora em que eu e a Morte
Nos encontrarmos
O que verei? o que saberei?
O que não verei? o que não saberei?
Horror! A vida é má e é má a morte,
Mas quisera viver eternamente
Sem saber nunca, (...) e inconsciente
Isso que a morte traz e  (...)

Não me tenta o mistério
Nem desejo saber
O que é que vai do berço ao cemitério
No ardor chamado viver.
A verdade apavora-me e confrange,
Perturba-me como a ninguém.

Que o tempo cesse!
Que pare e fique sempre este momento!
Que eu nunca me aproxime desse
Horror que mata o pensamento!
Envolvei-me, fechai-me dentro em vós

E que eu não morra nunca.

Odeio a vida, amarga-me e horroriza.
Mas a morte — oh a morte, velada
O próprio horror dentro em mim paralisa
Deixando a dor funda e estagnada.
Horror! Horror! O tempo, oh vidas com vida!
Mistérios menores onde esquecer
Se pode a mor dor indefinida,
Menos horrorosos porque não sabeis dizer
Esse segredo que dito deveis trazer.

Não me deixeis morrer...
👁️ 1 253

Ouvi-te cantar de dia.

Ouvi-te cantar de dia.
De noite te ouvi cantar.
Ai de mim, se é de alegria!
Ai de mim, se é de penar!
👁️ 1 335

Não combati: ninguém mo mereceu.

Não combati: ninguém mo mereceu.
A natureza e depois a arte, amei.
As mãos à chama que me a vida deu
Aqueci. Ela cessa. Cessarei.
👁️ 1 269

Manjerico que te deram,

Manjerico que te deram,
Amor que te querem dar...
Recebeste o manjerico.
O amor fica a esperar.
👁️ 2 877

VI - O ritmo antigo que há em pés descalços, [1]

O ritmo antigo que há em pés descalços,
Esse ritmo das ninfas repetido,
                Quando sob o arvoredo
                Batem o som da dança,
Vós na alva praia relembrai, fazendo,
Que escura a espuma deixa; vós, infantes,
                Que inda não tendes cura
                De ter cura, reponde
Ruidosa a roda, enquanto arqueia Apolo,
Como um ramo alto, a curva azul que doura,
                E a perene maré
                Flui, enchente ou vazante.
👁️ 1 057

III - Só quem puder obter a estupidez

III

Só quem puder obter a estupidez
Ou a loucura pode ser feliz.
Buscar, querer, amar... tudo isto diz
Perder, chorar, sofrer, vez após vez.

A estupidez achou sempre o que quis
Do círculo banal — da sua avidez;
Nunca aos loucos o engano se desfez
Com quem um falso mundo seu condiz.

Há dois males: verdade e aspiração,
E há uma forma só de os saber males:
É conhecê-los bem, saber que são

Um o horror real, o outro o vazio —
Horror não menos — dois como que vales
Duma montanha que ninguém subiu.
👁️ 781

EPIGRAMS - VII

Pius the Tenth, your letter, bull -
Whate'er it is, with great attention
I read, although 'tis rather dull;
And, to speak true, not to deceive,
These words synthetise the impression
That from your bull I did receive: -

How much of that do you believe?
👁️ 1 103

Quer com amor, que sem amor, senesces

Quer com amor, que sem amor, senesces
Antes senescer tendo perdido que não tendo tido.
👁️ 821

Eu te pedi duas vezes

Eu te pedi duas vezes
Duas vezes, bem o sei.
Que por fim me respondesses
Ao que não te perguntei.
👁️ 1 177

E eu que estou bêbado de toda a injustiça do mundo...

E eu que estou bêbado de toda a injustiça do mundo...
— O dilúvio de Deus e o bebé loirinho boiando morto à tona de água,
Eu, em cujo coração a angústia dos outros é raiva,
E a vasta humilhação de existir um amor taciturno —
Eu, o lírico que faz frases porque não pode fazer sorte,
Eu, o fantasma do meu desejo redentor, névoa fria —

Eu não sei se devo fazer poemas, escrever palavras, porque a alma —
A alma inúmera dos outros sofre sempre fora de mim.

Meus versos são a minha impotência.
O que não consigo, escrevo-o;
E os ritmos diversos que faço aliviam a minha cobardia.

A costureira estúpida violada por sedução,
O marçano rato preso sempre pelo rabo,
O comerciante próspero escravo da sua prosperidade
— Não distingo, não louvo, não (...) —
São todos bichos humanos, estupidamente sofrentes.

Ao sentir isto tudo, ao pensar isto tudo, ao raivar isto tudo,
Quebro o meu coração fatidicamente como um espelho,
E toda a injustiça do mundo é um mundo dentro de mim.

Meu coração esquife, meu coração (...), meu coração cadafalso —
Todos os crimes se deram e se pagaram dentro de mim.

Lacrimejância inútil, pieguice humana dos nervos,
Bebedeira da servilidade altruísta,
Voz com papelotes chorando no deserto de um quarto andar esquerdo...
👁️ 1 506

Comentários (17)

Iniciar sessão ToPostComment
Gabriel
Gabriel
2025-09-17

What?

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-07-27

Simplesmente um pensador ( tão grande) pois todos nós temos máscaras, nossos sentimentos são todos ocultos na nossa eterna alma. fantástico este texto para sua época vivida.

rodrigl
rodrigl
2023-12-01

cmt

tomaslopes
tomaslopes
2023-06-23

O maior e mais pensador poeta para a sua antiga época. O maior e mais revolucionista da literatura portuguesa, com os seus poemas e textos que enchem a alma de pensamentos. Tem um forma única de se expressar e ditar o que vem da sua alma, como ele dizia " Quem tem alma não tem calma".

mcegonha
mcegonha
2023-04-21

O profeta dos poetas!