Escritas

Quadras ao Gosto Popular

Ano
1965
Quadras ao Gosto Popular

Poemas nesta obra

«À tua porta está lama.

«À tua porta está lama.
Meu amor, quem na faria?»
É assim a velha cantiga
Que como tu principia.

«Das flores que há pelo campo

«Das flores que há pelo campo
O rosmaninho é rei...»
É uma velha cantiga...
Bem sei, meu Deus, bem o sei.

«Mau, Maria!» — tu disseste

«Mau, Maria!» — tu disseste
Quando a trança te caía.
Qual «Mau, Maria», Maria!
«Má Maria!» «Má Maria!»

«Ribeirinho, ribeirinho,/Que vais a correr ao léu

«Ribeirinho, ribeirinho,
Que vais a correr ao léu
Tu vais a correr sozinho,
Ribeirinho, como eu.»

«Vesti-me toda de novo

«Vesti-me toda de novo
E calcei sapato baixo
Para passar entre o povo
E procurar quem não acho.»

«Vou trabalhando a peneira

«Vou trabalhando a peneira
E pensando assim assim.
Eu não nasci para freira.
Gosto que gostem de mim.»

A abanar o fogareiro

A abanar o fogareiro
Ela corou do calor.
Ah, quem a fará corar
De um outro modo melhor!

A caixa que não tem tampa

A caixa que não tem tampa
Fica sempre destapada.
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.

A esmola que te vi dar

A esmola que te vi dar
Não me deu crença nem fé,
Pois a que estou a esperar
Não é esmola que se dê.

A laranja que escolheste

A laranja que escolheste
Não era a melhor que havia.
Também o amor que me deste
Qualquer outra mo daria.

A luva que retiraste

A luva que retiraste
Deixou livre a tua mão.
Foi com ela que tocaste,
Sem tocar, meu coração.

A mantilha de espanhola

A mantilha de espanhola
Que trazias por trazer
Não te dava um ar de tola
Porque o não podias ter.

A moça que há na estalagem

A moça que há na estalagem
Ri porque gosta de rir.
Não sei o que é da viagem
Por esta moça existir.

À roda dos dedos juntos

À roda dos dedos juntos
Enrolaste a fita a rir.
Corações não são assuntos
E falar não é sentir.

A rosa que se não colhe

A rosa que se não colhe
Nem por isso tem mais vida.
Ninguém há que te não olhe
Que te não queira colhida.

A Senhora da Agonia

A Senhora da Agonia
Tem um nicho na Igreja.
Mas a dor que me agonia
Não tem ninguém quem a veja.

A terra é sem vida, e nada

A terra é sem vida, e nada
Vive mais que o coração...
E envolve-te a terra fria
E a minha saudade não!

A tua boca de riso

A tua boca de riso
Parece olhar para a gente
Com um olhar que é preciso
Para saber que se sente.

A tua irmã é pequena,

A tua irmã é pequena,
Quando tiver tua idade,
Transferirei minha pena
Ou fico só com metade?

A tua janela é alta,

A tua janela é alta,
A tua casa branquinha.
Nada lhe sobra ou lhe falta
Se não morares sozinha.

A tua saia, que é curta,

A tua saia, que é curta,
Deixa-te a perna a mostrar:
Meu coração já se furta
A sentir sem eu pensar.

A vida é pouco aos bocados.

A vida é pouco aos bocados.
O amor é vida a sonhar.
Olho para ambos os lados
E ninguém me vem falar.

A vida é um hospital

A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.

Acendeste uma candeia

Acendeste uma candeia
Com esse ar que Deus te deu.
Já não é noite na aldeia
E, se calhar, nem no céu.

Adivinhei o que pensas

Adivinhei o que pensas
Só por saber que não era
Qualquer das coisas imensas
Que a minh’alma sempre espera.

Água que não vem na bilha

Água que não vem na bilha
É como se não viesse.
Como a mãe, assim a filha...
Antes Deus as não fizesse.

Água que passa e canta

Água que passa e canta
É água que faz dormir...
Sonhar é coisa que encanta,
Pensar é já não sentir.

Ai, os pratos de arroz-doce

Ai, os pratos de arroz-doce
Com as linhas de canela!
Ai a mão branca que os trouxe!
Ai essa mão ser a dela!

Ambos à beira do poço

Ambos à beira do poço
Achamos que é muito fundo.
Deita-se a pedra, e o que eu ouço
É teu olhar, que é meu mundo.

Andei sozinho na praia

Andei sozinho na praia
Andei na praia a pensar
No jeito da tua saia
Quando lá estiveste a andar.

Andorinha que passaste,

Andorinha que passaste,
Quem é que te esperaria?
Só quem te visse passar
E esperasse no outro dia.

Andorinha que vais alta,

Andorinha que vais alta,
Porque não me vens trazer
Qualquer coisa que me falta
E que te não sei dizer?

Ao dobrar o guardanapo

Ao dobrar o guardanapo
Para o meteres na argola
Fizeste-me conhecer
Como um coração se enrola.

Aparta o cabelo ao meio

Aparta o cabelo ao meio
A do cabelo apartado.
É a estrelinha em que leio
Que estou a ser enganado.

Aquela loura de preto

Aquela loura de preto
Com uma flor branca ao peito,
É o retrato completo
De como alguém é perfeito.

Aquela que mora ali

Aquela que mora ali
E que ali está à janela
Se um dia morar aqui
Se calhar não será ela.

Aquela que tinha pobre

Aquela que tinha pobre
A única saia que tinha,
Por muitas roupas que dobre
Nunca será mais rainha.

Aquela senhora velha

Aquela senhora velha
Que fala com tão bom modo
Parece ser uma abelha
Que nos diz: «Não incomodo.»

As gaivotas, tantas, tantas,

As gaivotas, tantas, tantas,
Voam no rio pró mar...
Também sem querer encantas,
Nem é preciso voar.

As ondas que a maré conta

As ondas que a maré conta
Ninguém as pode contar.
Se, ao passar, ninguém te aponta,
Aponta-te com o olhar.

Baila em teu pulso delgado

Baila em teu pulso delgado
Uma pulseira que herdaste...
Se amar alguém é pecado,
És santa, nunca pecaste.

Baila o trigo quando há vento

Baila o trigo quando há vento
Baila porque o vento o toca
Também baila o pensamento
Quando o coração provoca.

Bailaste de noite ao som

Bailaste de noite ao som
De uma música estragada.
Bailar assim só é bom
Quando a alegria é de nada.

Boca com olhos por cima

Boca com olhos por cima
Ambos a estar a sorrir...
Já sei onde está a rima
Do que não ouso pedir.

Boca de riso escarlate/Com dentes brancos no meio,

Boca de riso escarlate
Com dentes brancos no meio,
Meu coração bate, bate,
Mas bate por ter receio.

Boca de riso escarlate/E de sorriso de rir...

Boca de riso escarlate
E de sorriso de rir...
Meu coração bate, bate,
Bate de te ver e ouvir.

Boca de romã perfeita

Boca de romã perfeita
Quando a abres p’ra comer,
Que feitiço é que me espreita
Quando ris só de me ver?

Boca que o riso desata

Boca que o riso desata
Numa alegria engraçada,
És como a prata lavrada
Que é mais o lavor que a prata.

Boca que tens um sorriso

Boca que tens um sorriso
Como se fosse um florir,
Teus olhos cheios de riso
Dão-me um orvalho de rir.

Cabeça de ouro mortiço

Cabeça de ouro mortiço
Com olhos de azul do céu,
Quem te ensinou o feitiço
De me fazer não ser eu?

Caiu no chão a laranja

Caiu no chão a laranja
E rolou pelo chão fora.
Vamos apanhá-la juntos,
E o melhor é ser agora.

Caiu no chão o novelo

Caiu no chão o novelo
E foi-se desenrolando.
Passas a mão no cabelo.
Não sei em que estás pensando.

Cantigas de portugueses

ALGUMAS QUADRAS


Cantigas de portugueses
São como barcos no mar –
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.

A terra é sem vida, e nada
Vive mais que o coração
E envolve-te a terra fria
E a minha saudade não!

O moinho de café
Mói grãos e faz deles pó.
O pó que a minh'alma é
Moeu quem me deixa só.

Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei.

Teu vestido porque é teu,
Não é de cetim nem chita.
É de sermos tu e eu
E de tu seres bonita.

Vem cá dizer-me que sim.
Ou vem dizer-me que não.
Porque sempre vens assim
P'ra ao pé do meu coração.

Tenho um segredo a dizer-te
Que não te posso dizer.
E com isso já te o disse
Estavas farta de o saber...

Dona Rosa, Dona Rosa,
De que roseira é que vem,
Que não tem senão espinhos
Para quem só lhe quer bem?

Dona Rosa, Dona Rosa,
Quando eras inda botão
Disseram-te alguma cousa
De flor não ter coração?

Trazes uma cruz no peito.
Não sei se é por devoção.
Antes tivesses o jeito
De ter lá um coração.

Castanhetas, castanholas —

Castanhetas, castanholas —
Tudo é barulho a estalar.
As que ao negar são mais tolas
São mais espertas ao dar.

Chamam-te boa, e o sentido

Chamam-te boa, e o sentido
Não é bem o que eu supunha.
Boa não é apelido:
É, quando muito, alcunha.

Comes melão às dentadas

Comes melão às dentadas
Porque assim não deve ser.
Não sei se essas gargalhadas
Me fazem rir ou sofrer.

Comi melão retalhado

Comi melão retalhado
E bebi vinho depois,
Quanto mais olho p’ra ti
Mais sei que não somos dois.

Compras carapaus ao cento,

Compras carapaus ao cento,
Sardinhas ao quarteirão.
Só tenho no pensamento
Que me disseste que não.

Compreender um ao outro

Compreender um ao outro
É um jogo complicado,
Pois quem engana não sabe
Se não estava enganado.

Corre a água pelas calhas

Corre a água pelas calhas
Lá segundo a sua lei.
Pareces, vista de lado,
Aquela que te julguei.

Cortaste com a tesoura

Cortaste com a tesoura
O pano de lado a lado.
Porque é que todo teu gesto
Tem a feição de engraçado?

Dá-me um sorriso a brincar,

Dá-me um sorriso a brincar,
Dá-me uma palavra a rir,
Eu me tenho por feliz
Só de te ver e te ouvir.

Dá-me um sorriso ao domingo.

Dá-me um sorriso ao domingo.
Para à segunda eu lembrar.
Bem sabes: sempre te sigo
E não é preciso andar.

Dá-me um sorriso daqueles

Dá-me um sorriso daqueles
Que te não servem de nada
Como se dá às crianças
Uma caixa esvaziada.

Dás nós na linha que cose

Dás nós na linha que cose
Para que pare no fim.
Por muito que eu pense e ouse,
Nunca dás nó para mim.

Dei-lhe um beijo ao pé da boca

Dei-lhe um beijo ao pé da boca
Por a boca se esquivar.
A ideia talvez foi louca,
O mal foi não acertar.

Deixa que um momento pense

Deixa que um momento pense
Que ainda vives ao meu lado...
Triste de quem por si mesmo
Precisa ser enganado!

Deixaste cair a liga

Deixaste cair a liga
Porque não estava apertada...
Por muito que a gente diga
A gente nunca diz nada.

Deixaste cair no chão

Deixaste cair no chão
O embrulho das queijadas.
Ris-te disso — e porque não?
A vida é feita de nadas.

Deixaste o dedal na mesa

Deixaste o dedal na mesa
Só pelo tempo da ausência —
Se eu to roubasse dirias
Que eu não tinha consciência.

Depois do dia vem noite,

Depois do dia vem noite,
Depois da noite vem dia
E depois de ter saudades
Vêm as saudades que havia.

Deram-me um cravo vermelho

Deram-me um cravo vermelho
Para eu ver como é a vida.
Mas esqueci-me do cravo
Pela hora da saída.

Deram-me, para se rirem,

Deram-me, para se rirem,
Uma corneta de barro,
Para eu tocar à entrada
Do Castelo do Diabo.

Descasquei o camarão,

Descasquei o camarão,
Tirei-lhe a cabeça toda.
Quando o amor não tem razão
É que o amor incomoda.

Deste-me um adeus antigo

Deste-me um adeus antigo
À maneira de eu não ser
Mais que o amigo do amigo
Que havias de poder ter.

Deste-me um cordel comprido

Deste-me um cordel comprido
Para atar bem um papel.
Fiquei tão agradecido
Que inda tenho esse cordel.

Dias são dias, e noites

Dias são dias, e noites
São noites e não dormi...
Os dias a não te ver
As noites pensando em ti.

Disseste-me quase rindo:

Disseste-me quase rindo:
«Conheço-te muito bem!»
Dito por quem me não quer,
Tem muita graça, não tem?

Dizem que as flores são todas

Dizem que as flores são todas
Palavras que a terra diz.
Não me falas: incomodas.
Falas: sou menos feliz.

Dizem que não és aquela

Dizem que não és aquela
Que te julgavam aqui.
Mas se és alguém e és bela
Que mais quererão de ti?

Dizes-me que nunca sonhas

Dizes-me que nunca sonhas
E que dormes sempre a fio.
Quais são as coisas risonhas
Que sonhas por desfastio?

Do alto da torre da igreja

Do alto da torre da igreja
Vê-se o campo todo em roda.
Só do alto da esperança
Vemos nós a vida toda.

Dona Rosa, Dona Rosa,/De que roseira é que vem,

Dona Rosa, Dona Rosa,
De que roseira é que vem,
Que não tem senão espinhos
Para quem só lhe quer bem?

Dona Rosa, Dona Rosa,/Quando eras inda botão

Dona Rosa, Dona Rosa,
Quando eras inda botão
Disseram-te alguma cousa
De a flor não ter coração?

Duas horas te esperei./Duas mais te esperaria.

Duas horas te esperei.
Duas mais te esperaria.
Se gostas de mim não sei...
Algum dia há-de ser dia...

Duas horas te esperei/Dois anos te esperaria

Duas horas te esperei
Dois anos te esperaria.
Dize: devo esperar mais?
Ou não vens porque inda é dia?

Duas horas vão passadas

Duas horas vão passadas
Sem que te veja passar.
Que coisas mal combinadas
Que são amor e esperar!

Duas vezes eu tentei

Duas vezes eu tentei
Dizer-te que te queria,
E duas vezes te achei
Só a que falava e ria.

Duas vezes jurei ser

Duas vezes jurei ser
O que julgo que sou,
Só para desconhecer
Que não sei para onde vou.

Duas vezes te falei

Duas vezes te falei
De que te iria falar.
Quatro vezes te encontrei
Sem palavra p’ra te dar.

E ao acabar estes versos

E ao acabar estes versos
Feitos em modo menor
Cumpre prestar homenagem
À bebedeira do cantor.

É limpo o adro da igreja.

É limpo o adro da igreja.
É grande o largo da praça.
Não há ninguém que te veja
Que te não encontre graça.

Em vez da saia de chita

Em vez da saia de chita
Tens uma saia melhor.
De qualquer modo és bonita,
E o bonita é o pior.

Entornaram-me o cabaz

Entornaram-me o cabaz
Quando eu vinha pela estrada.
Como ele estava vazio,
Não houve loiça quebrada.

Entreguei-te o coração,

Entreguei-te o coração,
E que tratos tu lhe deste!
É talvez por estar estragado
Que ainda não mo devolveste...

És Maria da Piedade,

És Maria da Piedade,
Pois te chamaram assim.
Sê lá Maria à vontade,
Mas tem piedade de mim.

Essa costura à janela

Essa costura à janela
Que lhe inclinou a cabeça
Fez-me ver como era dela
Que o coração tinha pressa.

Esse frio cumprimento

Esse frio cumprimento
Tem ironia p’ra mim.
Porque é o mesmo movimento
Com que a gente diz que sim...

Esse xaile que arranjaste,

Esse xaile que arranjaste,
Com que pareces mais alta
Dá ao teu corpo esse brio
Que à minha coragem falta.

Este é o riso daquela

Este é o riso daquela
Em que não se reparou.
Quando a gente se acautela
Vê que não se acautelou.

Eu bem sei que me desdenhas

Eu bem sei que me desdenhas
Mas gosto que seja assim,
Que o desdém que por mim tenhas
Sempre é pensares em mim.

Eu te pedi duas vezes

Eu te pedi duas vezes
Duas vezes, bem o sei.
Que por fim me respondesses
Ao que não te perguntei.

Eu tenho um colar de pérolas

Eu tenho um colar de pérolas
Enfiado para te dar:
As pérolas são os meus beijos,
O fio é o meu penar.

Eu vi ao longe um navio

Eu vi ao longe um navio
Que tinha uma vela só,
Ia sozinho no mar...
Mas não me fazia dó.

Eu voltei-me para trás

Eu voltei-me para trás
Para ver se te voltavas.
Há quem dê favas aos burros,
Mas eles comem as favas.

Fazes renda de manhã

Fazes renda de manhã
E fazes renda ao serão.
Se não fazes senão renda,
Que fazes do coração?

Fica o coração pesado

Fica o coração pesado
Com o choro que chorei.
É um ficar engraçado
O ficar com o que dei...

Fiz estoirar um cartucho

Fiz estoirar um cartucho
Contra a parede do lado.
Assim farei eu à vida,
Que o sonhar fez-me assoprado.

Fizeste molhos de flores

Fizeste molhos de flores
Para não dar a ninguém.
São como os molhos de amores
Que foras fazer a alguém.

Floriu a roseira toda

Floriu a roseira toda
Com as rosas de trepar...
Tua cabeça anda à roda
Mas sabes-te equilibrar.

Fomos passear na quinta,

Fomos passear na quinta,
Fomos à quinta em passeio.
Não há nada que eu não sinta
Que me não faça um enleio.

Frescura do que é regado,

Frescura do que é regado,
Por onde a água inda verte...
Quero dizer-te um bocado
Do que não ouso dizer-te.

Fui passear no jardim

Fui passear no jardim
Sem saber se tinha flores
Assim passeia na vida
Quem tem ou não tem amores.

Há dois dias que não vejo

Há dois dias que não vejo
Modo de tornar-te a ver.
Se outros também te não vissem,
Desejava sem sofrer.

Há grandes sombras na horta

Há grandes sombras na horta
Quando a amiga lá vai ter...
Ser feliz é o que importa,
Não importa como o ser!

Há um doido na nossa voz

Há um doido na nossa voz
Ao falarmos, que prendemos:
É o mal-estar entre nós
Que vem de nos percebermos.

Há verdades que se dizem

Há verdades que se dizem
E outras que ninguém dirá.
Tenho uma coisa a dizer-te
Mas não sei onde ela está.

Houve um momento entre nós

Houve um momento entre nós
Em que a gente não falou.
Juntos, estávamos sós.
Que bom é assim estar só!

Já duas vezes te disse

Já duas vezes te disse
Que nunca mais te diria
O que te torno a dizer
E fica para outro dia.

Lá por olhar para ti

Lá por olhar para ti
Não julgues que é por gostar.
Eu gosto muito do sol,
E nem o posso fitar.

Lá vem o homem da capa

Lá vem o homem da capa
Que ninguém sabe quem é...
Se o lenço os olhos te tapa
Vejo os teus olhos por fé.

Lavadeira a bater roupa

Lavadeira a bater roupa
Na pedra que está na água,
Achas a minha mágoa pouca?
É muito tudo o que é mágoa.

Lavas a roupa na selha

Lavas a roupa na selha
Com um vagar apressado,
E o brinco na tua orelha
Acompanha o teu cuidado.

Lenço preto de orla branca —

Lenço preto de orla branca —
Ataste-o mal a valer
À roda desse pescoço
Que tem que se lhe dizer.

Levas a mão ao cabelo

Levas a mão ao cabelo
Num gesto de quem não crê.
Mas eu não te disse nada.
Duvidas de mim? Porquê?

Levas chinelas que batem

Levas chinelas que batem
No chão com o calcanhar.
Antes quero que me matem
Que ouvir esse som parar.

Levas uma rosa ao peito

Levas uma rosa ao peito
E tens um andar que é teu...
Antes tivesses o jeito
De amar alguém, que sou eu.

Levava eu um jarrinho

Levava eu um jarrinho
P’ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P’ra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p’ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.

Leve sonho, vais no chão

Leve sonho, vais no chão
A andares sem teres ser.
És como o meu coração
Que sente sem nada ter.

Leve vem a onda leve

Leve vem a onda leve
Que se estende a adormecer,
Breve vem a onda breve
Que nos ensina a esquecer.

Linda noite a desta lua,

Linda noite a desta lua,
Lindo luar o que está
A fazer sombra na rua,
Por onde ela não virá.

Loura dos olhos dormentes,

Loura dos olhos dormentes,
Que são azuis e amarelos,
Se as minhas mãos fossem pentes,
Penteavam-te os cabelos.

Loura, teus olhos de céu

Loura, teus olhos de céu
Têm um azul que é fatal.
Bem sei: foi Deus que tos deu.
Mas então Deus fez o mal?

Manjerico que te deram,

Manjerico que te deram,
Amor que te querem dar...
Recebeste o manjerico.
O amor fica a esperar.

Manjerico, manjerico,

Manjerico, manjerico,
Manjerico que te dei,
A tristeza com que fico
Inda amanhã a terei.

Maria, se eu te chamar,

Maria, se eu te chamar,
Maria, vem cá dizer
Que não podes cá chegar.
Assim te consigo ver.

Mas que grande disparate

Mas que grande disparate
É o que penso e o que sinto.
Meu coração bate, bate
E se sonho muito, minto.

Meia volta, toda a volta,

Meia volta, toda a volta,
Muitas voltas de dançar...
Quem tem sonhos por escolta
Não é capaz de parar.

Menina de saia preta

Menina de saia preta
E de blusa de outra cor,
Que é feito daquela seta
Que atirei ao meu amor?

Meu amor é fragateiro.

Meu amor é fragateiro.
Eu sou a sua fragata.
Alguns vão atrás do cheiro,
Outros vão só pela arreata.

Meu coração a bater

Meu coração a bater
Parece estar-me a lembrar
Que, se um dia te esquecer,
Será por ele parar.

Meu coração é uma barca

Meu coração é uma barca
Que não sabe navegar.
Guardo o linho na arca
Com um ar de o acarinhar.

Morena dos olhos baços

Morena dos olhos baços
Velados de não sei quê,
No mundo há falta de braços
Para o que o teu olhar vê.

Moreninha, moreninha,

Moreninha, moreninha,
Com olhos pretos a rir.
Sei que nunca serás minha,
Mas quero ver-te sorrir.

Morto, hei-de estar a teu lado

Morto, hei-de estar a teu lado
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P’ra ver um bem em morrer.

Na praia de Monte Gordo,

Na praia de Monte Gordo,
Meu amor, te conheci.
Por ter estado em Monte Gordo
É que assim emagreci.

Na quinta que nunca houve

Na quinta que nunca houve
Há um poço que não há
Onde há-de ir encontrar água
Alguém que te entenderá.

Não digas mal de ninguém,

Não digas mal de ninguém,
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.

Não há verdade na vida

Não há verdade na vida
Que se não diga a mentir.
Há quem apresse a subida
Para descer a sorrir.

Não me digas que me queres

Não me digas que me queres
Pois não sei acreditar.
No mundo há muitas mulheres
Mas mentem todas a par.

Não sei em que coisa pensas

Não sei em que coisa pensas
Quando coses sossegada...
Talvez naquelas ofensas
Que fazes sem dizer nada.

Não sei que flores te dar

Não sei que flores te dar
Para os dias da semana.
Tens tanta sombra no olhar
Que o teu olhar sempre engana.

Não sei que grande tristeza

Não sei que grande tristeza
Me fez só gostar de ti
Quando já tinha a certeza
De te amar porque te vi.

Não sei se a alma no Além vive...

Não sei se a alma no Além vive...
Morreste! E eu quero morrer!
Se vive, ver-te-ei; se não,
Só assim te posso esquecer.

No baile em que dançam todos

No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem lá estar.

No comboio descendente

No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada —
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela —
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não —
No comboio descendente
De Palmela a Portimão...

No dia de S. João

No dia de S. João
Há fogueiras e folias
Gozam uns e outros não,
Tal qual como os outros dias.

No dia de Santo António

No dia de Santo António
Todos riem sem razão.
Em São João e São Pedro
Como é que todos rirão?

No dia em que te casares

No dia em que te casares
Hei-de te ir ver à Igreja
Para haver o sacramento
De amar-te alguém que ali esteja.

Nunca dizes se gostaste

Nunca dizes se gostaste
Daquilo que te calei.
Sei bem que o adivinhaste.
O que pensaste não sei.

Nunca houve romaria

Nunca houve romaria
Que se lembrassem de mim...
Também quem se lembraria
De quem se lamenta assim?

Nuvem alta, nuvem alta,

Nuvem alta, nuvem alta,
Porque é que tão alta vais?
Se tens o amor que me falta,
Desce um pouco, desce mais.

Nuvem do céu, que pareces

Nuvem do céu, que pareces
Tudo quanto a gente quer,
Se tu, ao menos, me desses
O que se não pode ter!

Nuvem que passas no céu,

Nuvem que passas no céu,
Dize a quem não perguntou
Se é bom dizer a quem deu:
«O que deste, não to dou.»

O ar do campo vem brando,

O ar do campo vem brando,
Faz sono haver esse ar.
Já não sei se estou sonhando
Nem de que serve sonhar.

O avental, que à gaveta

O avental, que à gaveta
Foste buscar, não terá
Algibeira em que me meta
Para estar contigo já?

O burburinho da água

O burburinho da água
No regato que se espalha
É como a ilusão que é mágoa
Quando a verdade a baralha.

O canário já não canta.

O canário já não canta.
Não canta o canário já.
Aquilo que em ti me encanta
Talvez não me encantará.

O capilé é barato

O capilé é barato
E é fresco quando há calor.
Vou sonhar o teu retrato
Já que não tenho melhor.

O coração é pequeno,

O coração é pequeno,
Coitado, e trabalha tanto!
De dia a ter que chorar,
De noite a fazer o pranto...

O cravo que tu me deste

O cravo que tu me deste
Era de papel rosado.
Mas mais bonito era inda
O amor que me foi negado.

O guardanapo dobrado

O guardanapo dobrado
Quer dizer que se não volta.
Tenho o coração atado:
Vê se a tua mão mo solta.

O laço que tens no peito

O laço que tens no peito
Parece dado a fingir.
Se calhar já estava feito
Como o teu modo de rir.

Ó loura dos olhos tristes

Ó loura dos olhos tristes
Que me não quis escutar...
Quero só saber se existes
Para ver se te hei-de amar.

O malmequer que arrancaste

O malmequer que arrancaste
Deu-te nada no seu fim,
Mas o amor que me arrancaste,
Se deu nada, foi a mim.

O malmequer que colheste

O malmequer que colheste
Deitaste-o fora a falar.
Nem quiseste ver a sorte
Que ele te podia dar.

O manjerico comprado

O manjerico comprado
Não é melhor que o que dão.
Põe o manjerico ao lado
E dá-me o teu coração.

O manjerico e a bandeira

O manjerico e a bandeira
Que há no cravo de papel —
Tudo isso enche a noite inteira,
Ó boca de sangue e mel.

Ó minha menina loura,

Ó minha menina loura,
Ó minha loura menina,
Dize a quem te vê agora
Que já foste pequenina...

O moinho de café

O moinho de café
Mói grãos e faz deles pó.
O pó que a minh’alma é
Moeu quem me deixa só.

O moinho que mói trigo

O moinho que mói trigo
Mexe-o o vento ou a água,
Mas o que tenho comigo
Mexe-o apenas a mágoa.

O papagaio do paço

O papagaio do paço
Não falava — assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.

Ó pastora, ó pastorinha,

Ó pastora, ó pastorinha,
Que tens ovelhas e riso,
Teu riso ecoa no vale
E nada mais é preciso.

O pescador do mar alto

O pescador do mar alto
Vem contente de pescar.
Se prometo, sempre falto:
Receio não agradar.

O que sinto e o que penso

O que sinto e o que penso
De ti é bem e é mal.
É como quando uma xícara
Tem o pires desigual.

O ribeiro bate, bate

O ribeiro bate, bate
Nas pedras que nele estão,
Mas nem há nada em que bata
O meu pobre coração.

O rosário da vontade,

O rosário da vontade,
Rezei-o trocado e a esmo.
Se vens dizer-me a verdade,
Vê lá bem se é isso mesmo.

O sino dobra a finados.

O sino dobra a finados.
Faz tanta pena a dobrar!
Não é pelos teus pecados
Que estão vivos a saltar.

O teu cabelo cortado

O teu cabelo cortado
À maneira de rapaz
Não deixa justificado
Aquele amor que me faz.

O teu carrinho de linha

O teu carrinho de linha
Rolou pelo chão caído.
Apanhei-o e dei-o e tinha
Só em ti o meu sentido.

O teu lenço foi mal posto

O teu lenço foi mal posto
Pela pressa que to pôs.
Mais mal posto é o meu desgosto
Do que não há entre nós.

O vaso de manjerico

O vaso de manjerico
Caiu da janela abaixo.
Vai buscá-lo, que aqui fico
A ver se sem ti te acho.

O vaso que dei àquela

O vaso que dei àquela
Que não sabe quem lho deu
Há-de ser posto à janela
Sem ninguém saber que é meu.

Olha o teu leque esquecido!

Olha o teu leque esquecido!
Olha o teu cabelo solto!
Maria, toma sentido!
Maria, senão não volto!

Olhas para mim às vezes

Olhas para mim às vezes
Como quem sabe quem sou.
Depois passam dias, meses,
Sem que vás por onde vou.

Olhos de veludo falso

Olhos de veludo falso
E que fitam a entender,
Vós sois o meu cadafalso
A que subo com prazer.

Olhos tristes, grandes, pretos,

Olhos tristes, grandes, pretos,
Que dizeis sem me falar
Que não há filhos nem netos
De eu não querer amar.

Onda que vens e que vais

Onda que vens e que vais
Mar que vais e depois vens,
Já não sei se tu me atrais,
E, se me atrais, se me tens.

Os alcatruzes da nora

Os alcatruzes da nora
Andam sempre a dar e dar.
É para dentro e p’ra fora
E não sabem acabar.

Os ranchos das raparigas

Os ranchos das raparigas
Vão a cantar pela estrada...
Não oiço as suas cantigas
Só tenho pena de nada.

Ouves-me sem me entender.

Ouves-me sem me entender.
Sorris sem ser porque falo.
É assim muita mulher.
Mas nem por isso me calo.

Ouvi-te cantar de dia.

Ouvi-te cantar de dia.
De noite te ouvi cantar.
Ai de mim, se é de alegria!
Ai de mim, se é de penar!

Pia, pia, pia

POEMAS PARA LILI

1
Pia, pia, pia
O mocho.
Que pertencia
A um coxo.
E meteu o mocho
Na pia, pia, pia...


2
Levava eu um jarrinho
P'ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P'ra comprar pão:
E levava uma fita
Para ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p'ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!

Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Pra ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver oq ue eu fazia,
Nada disto acontecia.

Pobre do pobre que é ele

Pobre do pobre que é ele
E não é quem se fingiu!
Por muito que a gente vele
Descobre que já dormiu.

POEMA PIAL

Casa Branca — Barreiro a Moita (Silêncio ou estação, à escolha do freguês)

Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.

Pia número UM,
Para quem mexe as orelhas em jejum.

Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.

Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez.

Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.

Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.

Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.

Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.

Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.

Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.

Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.

E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!

Por cima da saia azul

Por cima da saia azul
Há uma blusa encarnada,
E por cima disso os olhos
Que nunca me dizem nada.

Por muito que pense e pense

Por muito que pense e pense
No que nunca me disseste,
Teu silêncio não convence.
Faltaste quando vieste.

Por um púcaro de barro

Por um púcaro de barro
Bebe-se a água mais fria.
Quem tem tristezas não dorme,
Vela para ter alegria.

Puseste a chaleira ao lume

Puseste a chaleira ao lume
Com um jeito de desdém.
Suma-te o diabo que sume
Primeiro quem te quer bem!

Puseste a mantilha negra

Puseste a mantilha negra
Que hás-de tirar ao voltar.
A que me puseste na alma
Não tiras. Mas deixa-a estar!

Puseste por brincadeira

Puseste por brincadeira
A touca da tua irmã.
Ó corpo de bailadeira,
Toda a noite tem manhã.

Puseste um vaso à janela.

Puseste um vaso à janela.
Foi sinal ou não foi nada,
Ou foi p’ra que pense em ti
Que te não importas nada?

Quando a manhã aparece

Quando a manhã aparece
Dizem que nasce alegria.
Isso era se Ela viesse.
Até de noite era dia.

Quando agora me sorriste

Quando agora me sorriste
Foi de contente de eu vir,
Ou porque me achaste triste,
Ou já estavas a sorrir?

Quando ao domingo passeias

Quando ao domingo passeias
Levas um vestido claro.
Não é o que te conheço
Mas é em ti que reparo.

Quando apertaste o teu cinto

Quando apertaste o teu cinto
Puseste o cravo na boca.
Não sei dizer o que sinto
Quando o que sinto me toca.

Quando cantas, disfarçando

Quando cantas, disfarçando
Com a cantiga o cantar,
Parece o vento mais brando
Nesta brandura do ar.

Quando chegaste à janela

Quando chegaste à janela
Todos que estavam na rua
Disseram: olha, é aquela,
Tal é a graça que é tua!

Quando compões o cabelo

Quando compões o cabelo
Com tua mão distraída
Fazes-me um grande novelo
No pensamento da vida.

Quando é o tempo do trigo

Quando é o tempo do trigo
É o tempo de trigar.
A verdade é um postigo
A que ninguém vem falar.

Quando ela pôs o chapéu

Quando ela pôs o chapéu
Como se tudo acabasse,
Sofri de não haver véu
Que inda um pouco a demorasse.

Quando eu era pequenino

Quando eu era pequenino
Cantavam para eu dormir.
Foram-se o canto e o menino.
Sorri-me para eu sentir!

Quando há música, parece

Quando há música, parece
Que dormes, e assim te calas,
Mas se a música falece
Acordo, e não me falas.

Quando me deste os bons-dias

Quando me deste os bons-dias
Deste-mos como a qualquer.
Mais vale não dizer nada
Do que assim nada dizer.

Quando olhaste para trás,

Quando olhaste para trás,
Não supus que era por mim.
Mas sempre olhaste, e isso faz
Que fosse melhor assim.

Quando passas pela rua

Quando passas pela rua
Sem reparar em quem passa,
A alegria é toda tua
E minha toda a desgraça.

Quando te apertei a mão

Quando te apertei a mão
Ao modo de assim-assim,
Senti o meu coração
A perguntar-me por mim.

Quando te vais a deitar

Quando te vais a deitar
Não sei se rezas se não.
Devias sempre rezar
E sempre a pedir perdão.

Quando tiraste da cesta

Quando tiraste da cesta
Os figos que prometeste
Foi em mim dia de festa,
Mas foi a todos que os deste.

Quando vieste da festa,

Quando vieste da festa,
Vinhas cansada e contente.
A minha pergunta é esta:
Foi da festa ou foi da gente?

Quantas vezes a memória

Quantas vezes a memória
Para fingir que inda é gente,
Nos conta uma grande história
Em que ninguém está presente.

Que te fez assim tão linda

Que te fez assim tão linda
Não o fez para mostrar
Que se é mais linda ainda
Quando se sabe negar.

Que tenho o coração preto

Que tenho o coração preto
Dizes tu, e inda te alegras.
Eu bem sei que o tenho preto:
Está preto de nódoas negras.

Quem lavra julga que lavra

Quem lavra julga que lavra
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.

Quem me dera, quando fores

Quem me dera, quando fores
Pela rua sem me ver,
Supor que há coisas melhores
E que eu as pudera ter.

Quem te deu aquele anel

Quem te deu aquele anel
Que ainda ontem não tinhas?
Como tu foste infiel
A certas ideias minhas!

Quero lá saber por onde

Quero lá saber por onde
Andaste todo este dia!
Nunca faz bem quem se esconde...
Mas onde foste, Maria?

Rezas a Deus ao deitar-te

Rezas a Deus ao deitar-te
Pedindo não sei o quê.
Se rezasses ao demónio,
Eu saberia o que é.

Rezas porque outros rezaram,

Rezas porque outros rezaram,
E vestes à moda alheia...
Quando amares vê se amas
Sem teres o amor na ideia.

Ribeirinho, ribeirinho,/Que falas tão devagar,

Ribeirinho, ribeirinho,
Que falas tão devagar,
Ensina-me o teu caminho
De passar sem desejar amar.

Ris-te de mim? Não me importo.

Ris-te de mim? Não me importo.
Rir não faz mal a ninguém.
Teu rir é tão engraçado
Que, quando faz mal, faz bem.

Rosa verde, rosa verde...

Rosa verde, rosa verde...
Rosa verde é coisa que há?
É uma coisa que se perde
Quando a gente não está lá.

Roseiral que não dás rosas

Roseiral que não dás rosas
Senão quando as rosas vêm,
Há muitas que são formosas
Sem que o amor lhes vá bem.

Rosmaninho que me deram,

Rosmaninho que me deram,
Rosmaninho que darei,
Todo o mal que me fizeram
Será o bem que eu farei.

Rouxinol que não cantaste,

Rouxinol que não cantaste,
Gaio que não cantarás,
Qual de vós me empresta o canto
Para ver o que ela faz?

Santo António de Lisboa

Santo António de Lisboa
Era um grande pregador,
Mas é por ser Santo António
Que as moças lhe têm amor.

São já onze horas da noite.

São já onze horas da noite.
Porque te não vais deitar?
Se de nada serve ver-te,
Mais vale não te fitar.

Saudades, só portugueses

Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem,
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.

Se eu te pudesse dizer

Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei.

Se há uma nuvem que pass

Se há uma nuvem que passa
Passa uma sombra também.
Ninguém diz que é desgraça
Não ter o que se não tem.

Se houver alguém que me diga

Se houver alguém que me diga
Que disseste bem de mim,
Farei uma outra cantiga,
Porque esta não é assim.

Se o sino dobra a finados

Se o sino dobra a finados
Há-de deixar de dobrar.
Dá-me os teus olhos fitados
E deixa a vida matar!

Se ontem à tua porta

Se ontem à tua porta
Mais triste o vento passou —
Olha: levava um suspiro...
Bem sabes quem to mandou...

Se te queres despedir

Se te queres despedir
Não te despidas de mim,
Que eu não posso consentir
Que tu me trates assim.

Se vais de vestido novo

Se vais de vestido novo
O teu próprio andar o diz,
E ao passar por entre o povo
Até teu corpo é feliz.

Só com um jeito do corpo

Só com um jeito do corpo
Feito sem dares por isso
Fazes mais mal que o demónio
Em dias de grande enguiço.

Tem a filha da caseira

Tem a filha da caseira
Rosas na caixa que tem.
Toda ela é uma rosa inteira
Mas não a cheira ninguém.

Tem um decote pequeno,

Tem um decote pequeno,
Um ar modesto e tranquilo;
Mas vá-se lá descobrir
Coisa pior do que aquilo!

Tenho ainda na lembrança

Tenho ainda na lembrança
Como uma coisa que vejo,
O quando inda eras criança.
Nunca mais me dás um beijo!

Tenho um desejo comigo/Que hoje te venho dizer:

Tenho um desejo comigo/Que hoje te venho dizer:

Tenho um desejo comigo
Que hoje te venho dizer:
Queria ser teu amigo
Com amizade a valer.

Tenho um desejo comigo/Que me traz longe de mim.

Tenho um desejo comigo
Que me traz longe de mim.
É saber se isto é contigo
Quando isto não é assim.

Tenho um lenço que esqueceu

Tenho um lenço que esqueceu
A que se esquece de mim.
Não é dela, não é meu,
Não é princípio nem fim.

Tenho um livrinho onde escrevo

Tenho um livrinho onde escrevo
Quando me esqueço de ti.
É um livro de capa negra
Onde inda nada escrevi.

Tenho um relógio parado

Tenho um relógio parado
Por onde sempre me guio.
O relógio é emprestado
E tem as horas a fio.

Tenho um segredo a dizer-te

Tenho um segredo a dizer-te
Que não te posso dizer.
E com isto já to disse
Estavas farta de o saber...

Tenho um segredo comigo

Tenho um segredo comigo
Que me faz sempre cismar.
É se quero estar contigo
Ou quero contigo estar.

Tenho uma ideia comigo

Tenho uma ideia comigo
De que não quero falar.
Se a ideia fosse um postigo,
Era p’ra te ver passar.

Tenho uma pena que escreve

Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade, não tem tinta.

Tenho vontade de ver-te

Tenho vontade de ver-te
Mas não sei como acertar.
Passeias onde não ando,
Andas sem eu te encontrar.

Tens o leque desdobrado

Tens o leque desdobrado
Sem que estejas a abanar.
Amor que pensa e que pensa
Começa ou vai acabar.

Tens olhos de quem não quer

Tens olhos de quem não quer
Procurar quem eu não sei.
Se um dia o amor vier
Olharás como eu olhei.

Tens um anel imitado

Tens um anel imitado
Mas vais contente de o ter.
Que importa o falsificado
Se é verdadeiro o prazer.

Tens um livro que não lês,

Tens um livro que não lês,
Tens uma flor que desfolhas;
Tens um coração aos pés
E para ele não olhas.

Tens uma rosa na mão.

Tens uma rosa na mão.
Não sei se é para me dar.
As rosas que tens na cara,
Essas sabes tu guardar.

Tens uma salva de prata

Tens uma salva de prata
Onde pões os alfinetes...
Mas não tem salva nem prata
Aquilo que tu prometes.

Tens uns brincos sem valia

Tens uns brincos sem valia
E um lenço que não é nada,
Mas quem dera ter o dia
De quem és a madrugada.

Tens vontade de comprar

Tens vontade de comprar
O que vês só porque o viste.
Só a tenho de chorar
Porque só compro o ser triste.

Teu carinho, que fingido,

Teu carinho, que fingido,
Dá-me o prazer de saber
Que inda não tens esquecido
O que o fingir tem de ser.

Teu olhar não tem remorsos

Teu olhar não tem remorsos
Não é por não ter que os ter.
É porque hoje não é ontem
E viver é só esquecer.

Teu vestido, porque é teu,

Teu vestido, porque é teu,
Não é de cetim nem chita.
É de sermos tu e eu
E de tu seres bonita.

Teu xaile de seda escura

Teu xaile de seda escura
É posto de tal feição
Que alegre se dependura
Dentro do meu coração.

Teus brincos dançam se voltas

Teus brincos dançam se voltas
A cabeça a perguntar.
São como andorinhas soltas
Que inda não sabem voar.

Teus olhos de quem não fita

Teus olhos de quem não fita
Vagueiam, estão na distância.
Se fosses menos bonita,
Isso não tinha importância.

Teus olhos poisam no chão

Teus olhos poisam no chão
Para não me olhar de frente.
Tens vontade de sorrir
Ou de rir? É tão diferente!

Teus olhos querem dizer

Teus olhos querem dizer
Aquilo que se não diz...
Tenho muito que fazer...
Que sejas muito feliz!

Teus olhos tristes, parados,

Teus olhos tristes, parados,
Coisa nenhuma a fitar...
Ah meu amor, meu amor,
Se eu fora nenhum lugar!

Tinhas um pente espanhol

Tinhas um pente espanhol
No cabelo português,
Mas quando te olhava o sol,
Eras só quem Deus te fez.

Tinhas um vestido preto

Tinhas um vestido preto
Nesse dia de alegria...
Que certo! Pode pôr luto
Aquele que em ti confia.

Tiraste o linho da arca,

Tiraste o linho da arca,
Da arca tiraste o linho.
Meu coração tem a marca
Que lhe puseste mansinho.

Tive uma flor para dar

Tive uma flor para dar
A quem não ousei dizer
Que lhe queria falar,
E a flor teve que morrer.

Tocam sinos a rebate

Tocam sinos a rebate
E levantaste-te logo.
Teu coração só não bate
Por a quem puseste fogo.

Toda a noite ouvi no tanque

Toda a noite ouvi no tanque
A pouca água a pingar.
Toda a noite ouvi na alma
Que não me podes amar.

Toda a noite ouvi os cães

Toda a noite ouvi os cães
P’ra manhã ouvi os galos.
Tristeza — vem ter connosco.
Prazeres — é ir achá-los.

Toda a noite, toda a noite,

Toda a noite, toda a noite,
Toda a noite sem pensar...
Toda a noite sem dormir
E sem tudo isso acabar.

Todos lá vão para a festa

Todos lá vão para a festa
Com um grande azul de céu.
Nada resta, nada resta...
Resta sim, que resta eu.

Todos os dias eu penso

Todos os dias eu penso
Naquele gesto engraçado
Com que pegaste no lenço
Que estava esquecido ao lado.

Todos os dias que passam

Todos os dias que passam
Sem passares por aqui
São dias que me desgraçam
Por me privarem de ti.

Todos te dizem que és linda.

Todos te dizem que és linda.
Todos to dizem a sério.
Como o não sabes ainda
Agradecer é mistério.

Tome lá, minha menina,

Tome lá, minha menina,
O ramalhete que fiz.
Cada flor é pequenina,
Mas tudo junto é feliz.

Trazes a bilha à cabeça

Trazes a bilha à cabeça
Como se ela não houvesse.
Andas sem pressa depressa
Como se eu lá não estivesse.

Trazes a rosa na mão

Trazes a rosa na mão
E colheste-a distraída...
E que é do meu coração
Que colheste mais sabida?

Trazes já aquele cinto

Trazes já aquele cinto
Que compraste no outro dia.
Eu trago o que sempre sinto
E que é contigo, Maria.

Trazes o vestido novo

Trazes o vestido novo
Como quem sabe o que faz.
Como és bonita entre o povo,
Mesmo ficando para trás!

Trazes os brincos compridos,

Trazes os brincos compridos,
Aqueles brincos que são
Como as saudades que temos
A pender do coração.

Trazes os sapatos pretos

Trazes os sapatos pretos
Cinzentos de tanto pó.
Feliz é quem tiver netos
De quem tu sejas avó!

Trazes um lenço apertado

Trazes um lenço apertado
Na cabeça, e um nó atrás.
Mas o que me traz cansado
É o nó que nunca se faz.

Trazes um lenço novinho

Trazes um lenço novinho
Na cabeça e a descair,
Se eu te beijar no cantinho
Só saberá quem nos vir.

Trazes um manto comprido

Trazes um manto comprido
Que não é xaile a valer.
Eu trago em ti o sentido
E não sei que hei-de dizer.

Trazes uma cruz no peito.

Trazes uma cruz no peito.
Não sei se é por devoção.
Antes tivesse o jeito
De ter lá um coração.

Traz-me um copo com água

Traze-me um copo com água
E a maneira de o trazer.
Quero ter a minha mágoa
Sem mostrar que a estou a ter.

Trincaste, para o partir,

Trincaste, para o partir,
O retrós de costurar.
Quem não soubesse diria
Que o estavas a beijar.

Tu és Maria da Graça,

Tu és Maria da Graça,
Mas a que graça é que vem
Ser essa graça a desgraça
De quem a graça não tem?

Tu és Maria das Dores,

Tu és Maria das Dores,
Tratam-te só por Maria.
Está bem, porque deste as dores
A quem quer que em ti se fia.

Tu, ao canto da janela,

Tu, ao canto da janela,
Sorrias a alguém da rua.
Porquê ao canto, se aquela
Posição não é a tua?

Tua boca me diz sim,

Tua boca me diz sim,
Teus olhos me dizem não.
Ai, se gostasses de mim
E sem saber a razão.

Uma boneca de trapos

Uma boneca de trapos
Não se parte se cair.
Fizeste-me a alma em farrapos...
Bem: não se pode partir.

Vai alta a nuvem que passa.

Vai alta a nuvem que passa,
Branca, desfaz-se a passar,
Até que parece no ar
Sombra branca que esvoaça.

Assim no pensamento
Alta vai a intuição,
Mas desfaz-se em sonho vão
Ou em vago sentimento.

E se quero recordar
O que foi, nuvem ou sentido
Só vejo alma ou céu despido
Do que se desfez no ar.


15/06/1933

Vai alta sobre a montanha

Vai alta sobre a montanha
Uma nuvem sem razão.
Meu coração acompanha
O não teres coração.

Vai longe, na serra alta,

Vai longe, na serra alta,
A nuvem que nela toca...
Dá-me aquilo que me falta —
Os beijos da tua boca.

Vale a pena ser discreto?

Vale a pena ser discreto?
Não sei bem se vale a pena.
O melhor é estar quieto
E ter a cara serena.

Vejo lágrimas luzir

Vejo lágrimas luzir
Nos teus olhos de fingida.
É como quando à janela
Chegas, um pouco escondida.

Velha cadeira deixada

Velha cadeira deixada
No canto da casa antiga
Quem dera ver lá sentada
Qualquer alma minha amiga.

Vem cá dizer-me que sim.

Vem cá dizer-me que sim.
Ou vem dizer-me que não.
Porque sempre vens assim
P’ra ao pé do meu coração.

Vem de lá do monte verde

Vem de lá do monte verde
A trova que não entendo.
É um som bom que se perde
Enquanto se vai vivendo.

Viraste-me a cara quando

Viraste-me a cara quando
Ia a dizer-te, à chegada,
Que, se voltasses a cara,
Que eu não me importava nada.

Vi-te a dizer um adeus

Vi-te a dizer um adeus
A alguém que se despedia,
E quase implorei dos céus
Que eu partisse qualquer dia.

Voam débeis e enganadas

Voam débeis e enganadas
As folhas que o vento toma.
Bem sei: deitamos os dados
Mas Deus é que deita a soma.