Escritas

Lista de Poemas

Vai pela estrada que na colina

Vai pela estrada que na colina
É um risco branco na encosta verde
Risco que em arco sobe e declina
E, sem que iguale, se à vista perde –

A cavalgada, formigas, cores,
De gente grande que aqui passou.
Eram dois sexos multicolores
E riram muitos por onde estou.

Por certo alegres assim prosseguem.
Quem porém sabe se o não sou mais –
Eu, só de vê-los e como seguem;
Eu, só de achá-los todos iguais?

Eles para eles são um do outro;
Pra mim são todos – a cavalgada –,
Numa alegria, distante e neutro,
Que a nenhum deles pode ser dada.

Os sentimentos não têm medida,
Nem, de uns para outros, comparação.
Vai já na curva que é a descida
A cavalgada meu coração.


15/12/1932
👁️ 3 573

Porque, ó Sagrado, sobre a minha vida

Porque, ó Sagrado, sobre a minha vida
Derramaste o teu verbo?
Porque há-de a minha partida
A coroa de espinhos da verdade
(...)

Antes eu era sábio sem cuidados,
Ouvia, à tarde finda, entrar o gado
E o campo era solene e primitivo.
Hoje que da verdade sou o escravo
Só no meu ser tenho de ter o travo,
Estou exilado aqui e morto vivo.

Maldito o dia em que pedi a ciência!
Mais maldito o que a deu porque me a deste!
Que é feito dessa minha inconsciência
Que a consciência, como um traje, veste?
Hoje sei quase tudo e fiquei triste...
Porque me deste o que pedi, ó Santo?
Sei a verdade, enfim, do Ser que existe.
Prouvera a Deus que eu não soubesse tanto!


1932

(para o Fausto?)
👁️ 4 292

I - A criança que fui chora na estrada.

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-la? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

II

Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

É uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

III

Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.

(...)

22/09/1933
👁️ 4 560

Vi passar, num mistério concedido,

Vi passar, num mistério concedido,
Um cavaleiro negro e luminoso
Que, sob um grande pálio rumoroso,
Seguia lento com o seu sentido.

Quatro figuras que lembrando olvido
Erguiam alto as varas, e um lustroso
Torpor de luz dormia tenebroso
Nas dobras desse pano estremecido.

Na fronte do vencido ou vencedor
Uma coroa pálida de espinhos
Lhe dava um ar de ser rei e senhor.

(...)

16/12/1932
👁️ 3 946

Deixem-me o sono! Sei que é já manhã.

Deixem-me o sono! Sei que é já manhã.
Mas se tão tarde o sono veio,
Quero, desperto, inda sentir a vã
Sensação do seu vago enleio.

Quero, desperto, não me recusar
A estar dormindo ainda,
E, entre a noção irreal de aqui estar,
Ver essa noção finda.

Quero que me não neguem quem não sou
Nem que, debruçado eu
Da varanda por sobre onde não estou,
Nem sequer veja o céu.


1934
👁️ 3 947

Uma névoa de Outono o ar raro vela,

Uma névoa de outono o ar raro vela
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta (...)


05/11/1932
👁️ 3 739

Durmo, cheio de nada, e amanhã

Durmo, cheio de nada, e amanhã
É, em meu coração,
Qualquer coisa sem ser, pública e vã
Dada a um público vão.

O sono! este mistério entre dois dias
Que traz ao que não dorme
À terra de aqui visões nuas, vazias,
Num outro mundo enorme.

O sono! que cansaço me vem dar
O que não mais me traz
Que uma onda lenta, sempre a ressacar,
Sobre o que a vida faz?!


11/12/1933
👁️ 4 309

O ponteiro dos segundos

O ponteiro dos segundos
É o exterior de um coração.
Conta a minutos os mundos,
Que os mundos são sensação.

Vejo, como quem não vê
Seu curso em círculo dar
Um sentido aqui ao pé
Do universo todo no ar.

(...)

29/08/1932
👁️ 4 476

A aranha do meu destino

A aranha do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir.
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.


10/08/1932
👁️ 4 612

Quando, com razão ou sem,

Quando, com razão ou sem,
Sobre o medo amplo da alma
A sombra da morte vem,
É que o espírito vê bem,
Com clareza mas sem calma,
Que sombra é a vida que passa,
Que mágoa é a vida que cessa,
E ama a vida mais.


10/02/1933
👁️ 3 940

Comentários (17)

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Gabriel
Gabriel
2025-09-17

What?

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-07-27

Simplesmente um pensador ( tão grande) pois todos nós temos máscaras, nossos sentimentos são todos ocultos na nossa eterna alma. fantástico este texto para sua época vivida.

rodrigl
rodrigl
2023-12-01

cmt

tomaslopes
tomaslopes
2023-06-23

O maior e mais pensador poeta para a sua antiga época. O maior e mais revolucionista da literatura portuguesa, com os seus poemas e textos que enchem a alma de pensamentos. Tem um forma única de se expressar e ditar o que vem da sua alma, como ele dizia " Quem tem alma não tem calma".

mcegonha
mcegonha
2023-04-21

O profeta dos poetas!