Escritas

Lista de Poemas

Sonho sem fim nem fundo.

Sonho sem fim nem fundo.
Durmo, fruste e infecundo.
Deus dorme, e é isso o mundo.

Mas se eu dormir também
Um sono qual Deus tem
Talvez eu sonhe o Bem –

O Bem do Mal que existo.
Esse sonho, que avisto,
Em mim chamo-lhe o Cristo.

II

Agora o seu ser ausente,
Surge o que há de presente
Na ausência, eternamente.

Não foi em cruz erguida
Num calvário da vida,
Mas numa cruz vivida

Que foi crucificado
O que foi, em seu lado,
Por lança golpeado.

III

E desse coração
Água e sangue virão,
Mas a verdade não...

Só quando já, descido
De aonde foi subido
Para ser escarnecido,

Seu corpo for baixar
Onde se há-de enterrar,
O haverei de encontrar.

IV

Desde que o mundo foi
No mundo à alma dói
O que ao mundo destrói.

Desde que a vida dura
Tem a vida a amargura
De ser mortal e impura.

E assim na Cruz se fez
A vida, para que a nós
Veja o melhor de nós.

V

O túmulo fechado
Aberto foi achado
E vazio encontrado.

Meu coração também
É o túmulo do Bem,
Que a vida bem não tem.

Mas há um anjo a me ver
E a meu lado a dizer
Que tudo é outro ser.


02/07/1934
👁️ 4 380

O vento sopra lá fora.

O vento sopra lá fora.
Faz-me mais sozinho, e agora
Porque não choro, ele chora.

É um som abstracto e fundo.
Vem do fim vago do mundo.
Seu sentido é ser profundo.

Diz-me que nada há em tudo.
Que a virtude não é escudo
E que o melhor é ser mudo.


27/12/1933
👁️ 5 108

Falhei. Os astros seguem seu caminho.

Falhei. Os astros seguem seu caminho.
Minha alma, outrora um universo meu,
É hoje, sei, um lúgubre escaninho
De consciência sob a morte e o céu.

Falhei. Quem sou vivi só de supô-lo.
O que tive por meu ou por haver
Fica sempre entre um pólo e o outro pólo
Do que me nunca há-de pertencer.

Falhei. Enfim! Consegui ser quem sou,
O que é já nada, com a lenha velha
Onde, pois valho só quanto me dou,
Pegarei facilmente uma centelha.


01/02/1933
👁️ 4 120

Nos jardins municipais

Nos jardins municipais
As flores também são flores.
Assim, na vida e no mais,
Que a vida é de estupores,

Podemos todos ser nossos
E fluir como quem somos.
Quando a casa é só destroços
É que a fruta é só de gomos.


1932
👁️ 4 178

Ah, só eu sei

Ah, só eu sei
Quanto dói meu coração
Sem fé nem lei,
Sem melodia nem razão.

Só eu, só eu,
E não o posso dizer
Porque sentir é como o céu,
Vê-se mas não há nele que ver.


10/08/1932
👁️ 4 679

Lâmpada deserta,

Lâmpada deserta,
No átrio sossegado.
Há sombra desperta
Onde se ergue o estrado.

No estrado está posto
Um caixão floral.
No átrio está exposto
O corpo fatal.

Não dizem quem era
No sonho que teve.
E a sombra que o espera
É a vida em que esteve.


10/08/1932
👁️ 4 219

No meu sonho estiolaram

No meu sonho estiolaram
As maravilhas de ali,
No meu coração secaram
As lágrimas que sofri.
Mas os que amei não acharam
Quem eu era, se era em si,
E a sombra veio e notaram
Quem fui e nunca senti.


10/08/1932
👁️ 3 965

É um campo verde e vasto,

É um campo verde e vasto,
Sozinho sem saber,
De vagos gados pasto,
Sem águas a correr.

Só campo, só sossego,
Só solidão calada.
Olho-o, e nada nego
E não afirmo nada.

Aqui em mim me exalço
No meu fiel torpor.
O bem é pouco e falso,
O mal é erro e dor.

Agir é não ter casa,
Pensar é nada ter.
Aqui nem luzes ou asa
Nem razão para a haver.

E um vago sono desce
Só por não ter razão,
E o mundo alheio esquece
À vista e ao coração.

Torpor que alastra e excede
O campo e o gado e os ver.
A alma nada pede
E o corpo nada quer.

Feliz sabor de nada.
Insciência do mundo,
Aqui sem porto ou estrada,
Nem horizonte ao fundo.


24/01/1933
👁️ 4 194

Canta onde nada existe

Canta onde nada existe
O rouxinol para seu bem,
Ouço-o, cismo, fico triste
E a minha tristeza também

Janela aberta, para onde
Campos de não haver são
O onde a dríade se esconde
Sem Ser imaginação.

Quem me dera que a poesia
Fosse mais do que a escrever!
Canta agora a cotovia
Sem se lembrar de viver...


07/12/1933
👁️ 4 437

A lavadeira no tanque

A lavadeira no tanque
Bate roupa em pedra bem.
Canta porque canta e é triste
Porque canta porque existe;
Por isso é alegre também.

Ora se eu alguma vez
Pudesse fazer nos versos
O que a essa roupa ela fez,
Eu perderia talvez
Os meus destinos diversos.

Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade...
Quem me lava o coração?


15/09/1933
👁️ 5 889

Comentários (17)

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Gabriel
Gabriel
2025-09-17

What?

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-07-27

Simplesmente um pensador ( tão grande) pois todos nós temos máscaras, nossos sentimentos são todos ocultos na nossa eterna alma. fantástico este texto para sua época vivida.

rodrigl
rodrigl
2023-12-01

cmt

tomaslopes
tomaslopes
2023-06-23

O maior e mais pensador poeta para a sua antiga época. O maior e mais revolucionista da literatura portuguesa, com os seus poemas e textos que enchem a alma de pensamentos. Tem um forma única de se expressar e ditar o que vem da sua alma, como ele dizia " Quem tem alma não tem calma".

mcegonha
mcegonha
2023-04-21

O profeta dos poetas!