Escritas

Lista de Poemas

2 Vistas

meu amigo diz, como é que você pode escrever tantos poemas
daí desta janela? eu escrevo, do útero,
ele me diz. a coisa escura da dor,
a ponta da pena da dor.
bom, isso impressiona muito
mas acontece que eu sei que nós dois recebemos uma boa quantidade de
cartas de recusa, fumamos uma boa quantidade de cigarros,
bebemos demais e tentamos roubar as mulheres
um do outro, o que não é poesia de jeito nenhum.
e ele me lê seus poemas
ele sempre me lê seus poemas
e eu ouço e não digo muita coisa,
olho pela janela,
e lá está a mesma rua
minha rua,
minha rua bêbada, ensolarada, enchuvarada, da
criançada,
e à noite olho para esta rua
às vezes
quando ela pensa que não a estou olhando,
os 1 ou 2 carros movendo-se silenciosamente,
o mesmo velho, ainda vivo, em sua
caminhada noturna,
as cortinas das casas cerradas,
o amor falhou mas
se aguenta
então vamos em frente.
mas agora é dia claro e as crianças
que algum dia serão homens velhos e mulheres velhas
caminhando através de seus últimos momentos,
essas crianças correm ao redor de um carro vermelho
gritando qualquer bobagem,
então meu amigo pousa seu poema.
bem, o que você acha?, ele pergunta.
tente assim e assim, eu cito uma revista
e então estranhamente
penso em guitarras sob o mar
tentando tocar música;
isso é triste e bom e quieto.
ele me vê parado à janela.
o que há lá fora?
olhe, eu digo,
e veja...
ele é 11 anos mais novo que eu.
ele se afasta da janela. eu preciso de uma cerveja,
não tenho mais cerveja.
caminho até a geladeira
e o assunto está encerrado.
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9 Da Manhã

em chamas como um forte incendiado
a primeira nota de "impromptu" -
luz do sol -
agressora traidora
irrompendo através de beijos e perfume e nylon,
mostrando uma cidade com dentes quebrados
e leis loucas,
trazendo um beco em ruínas ao olho,
este diamante bruto;
e na palma da minha mão
uma pequena ferida
vermelho-cereja
que nem Cristo iria ignorar
enquanto as mulheres passam
arranhando suas mudanças de marcha arrebentadas
e cercas vivas e cães mimados
soltando fogo enquanto
você queima:
o sol das 9 da manhã
nos dá maçãs e putas
e agora agradecido
posso novamente me lembrar
de quando eu era jovem
de quando eu caminhava em ouro
de quando rios tinham espelhos
e não havia fim.
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Nunca Trago Minha Mulher

estaciono, saio, tranco o carro, é um dia perfeito, calmo
e agradável. eu me sinto bem, começo a caminhar em direção à
entrada e um gordinho se junta a mim. ele caminha a meu lado.
não sei de onde saiu.
"oi", ele diz, "como vai você?"
"tudo bem", eu digo.
ele diz, "acho que você não se lembra de mim. você me viu
talvez duas ou três vezes".
"pode ser", eu digo. "venho às pistas todo dia."
"eu venho talvez três ou quatro vezes por mês", ele diz.
"com sua mulher?", eu pergunto.
"oh, não", ele diz, "nunca trago minha mulher."
"qual você prefere para a ponta?", ele pergunta.
eu lhe digo que ainda não comprei meu boletim do turfe.
seguimos e eu ando mais depressa. ele se esforça para me acompanhar.
"onde você fica?", ele pergunta.
eu lhe digo que fico em diversos lugares.
"esse maldito Gilligan", ele diz, "é o pior
jóquei aqui. eu perdi uma nota nele o outro dia. por que
eles o usam?"
eu digo a ele que Whittingham e Longden acham que está tudo certo
com ele.
"com certeza, eles são amigos", ele responde. "sei alguma coisa sobre
Gillingan. quer saber?"
eu lhe digo para esquecer.
estamos chegando perto da banca de jornal junto da entrada
e me viro na direção dela como se fosse comprar
um jornal.
"boa sorte", eu digo e desvio.
ele parece perplexo. seus olhos parecem chocados. ele me lembra
uma mulher que só se sente segura quando o polegar de alguém está
em seu rabo.
ele olha ao redor, acha um homem de cabelo grisalho que
manca, apressa-se, alcança o velho e começa
a conversar com ele.
compro meu ingresso, acho um lugar longe de todo mundo, sento.
tenho sete ou oito bons minutos sossegados, então escuto um
movimento: um cara senta-se perto de mim, não a meu
lado mas a um assento de distância embora haja centenas de
assentos vazios.
outro Mickey Mouse, eu penso. por que será que eles sempre me
acham?
continuo a fazer meus cálculos.
então ouço a voz dele: "Blue Baron vai levar
a ponta."
faço uma nota para riscar aquele cachorro e dou uma olhada e
me parece que essa observação me foi dirigida; não há
mais ninguém em 15 jardas ao redor.
vejo a cara dele.
ele tem uma cara que a maioria das mulheres adoraria: extremamente
macia e
branca.
ele permaneceu quase intocado pelas circunstâncias, é um
milagre do zero.
eu o encaro encantado.
é como olhar um lago de leite
nunca perturbado nem por uma pedrinha.
volto a olhar para meu boletim.
"qual você prefere?", ele pergunta.
"senhor", eu lhe digo, "prefiro não falar."
ele me olha por trás de seu bigode negro perfeitamente
aparado, não há nenhum pelo fora do lugar;
eu tentei bigodes; nunca liguei o bastante para espelhos
para deixar um bigode parecer tão antinatural.
ele diz, "ouvi falar de você. você não gosta de falar
com ninguém".
levanto, pego meus papéis, caminho por três fileiras para baixo e 16
assentos adiante. chego a meu último refúgio, pego meus
protetores de ouvido vermelhos, enfio-me neles.
ser o guardião de meu irmão só iria fazer com que eu me recolhesse
entre muros em um lugar
onde tudo é a mesma coisa.
sinto pelos solitários, sinto por suas necessidades, mas também sinto
que os solitários são feitos uns para os outros e que eles deveriam se
encontrar
uns aos outros e me deixar em paz.
assim, de protetores de ouvido, perco a cerimônia de hasteamento da
bandeira, mergulhado no boletim.
eu teria gostado de ser humano
se eles deixassem que eu fosse.
ir às pistas de corrida é como ir a qualquer outro lugar exceto,
falando genericamente,
que há mais pessoas solitárias por lá, o que não adianta muito.
elas têm o direito de estar lá e eu tenho o direito de estar lá.
isto é uma democracia e todos nós fazemos parte de uma
família infeliz.
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O Porco na Cerca

você sabe, dirigindo através desta cidade ou de qualquer cidade
caminhando através desta cidade ou de qualquer cidade vejo
gente com narinas, dedos, pés,
olhos, boca, ouvido, queixo, sobrancelhas e assim por diante.
entro em uma lanchonete e peço o desjejum,
olho ao redor e estou consciente de crânios e esquele-
tos enquanto observo um homem enfiar
um pedaço de bacon em sua boca e morrer um pouco
e não gosto de contemplar a morte porque
pode haver algum outro lugar aonde tenhamos que ir depois
e já encarei confusões o bastante só por estar bem aqui
mas
talvez seja a culpa de todas as cobras em viveiros de vidro,
elas não podem mover-se, respirar ou matar e eles
deveriam soltá-las e eles deveriam esvaziar as
prisões também assim que eu arrumar minha Luger[1] e
soltar meus cachorros.
os prédios são todos pobremente construídos e o corpo
humano também; às vezes assisto a dançarinas dando pulos
por aí e penso, isso é feio e desajeitado,
o corpo humano foi construído de modo errado, é desengonçado e
estúpido... comparado a quê? comparado ao cacto
e ao leopardo. bem,
minhas mulheres sempre me disseram, "você é tão negativo!"
e eu olhava para elas e respondia, "eu acho que a reali-
dade é negativa". comparada a quê? irrealidade.
no entanto mesmo assim tive mais alegrias que qualquer um
deles, eles foram positivos e deprimidos, e eu sou negativo
e feliz. bem,
tudo isso pode ser culpa de bombeiros parados esperando
por um incêndio. pode ser culpa de algum cara em Moscou
estuprando uma menina de
6 anos, ou pode ser porque a neblina não é
mais a neblina do jeito como costumava ser - fresca, molhada,
refrescante,
mas tudo está machucando agora. eles acharam algum cara jogando
futebol na U.C.L.A. que nem sabia ler ou escrever
mas por Cristo como ele tinha força, que corpo, ele podia ter se dado
bem mas ele se aborreceu e matou seu fornecedor
de drogas e depois descobriram que ao final das contas ele nem era
muito um universitário, só uma espécie de peixinho dourado criado
o que me lembra
dificilmente mais alguém cria peixes dourados: você sabe quando eu
era criança, um domicílio em cada 3 tinha peixes dourados.
o que aconteceu com eles? alguns tinham até
laguinhos de peixes dourados no quintal com um fino musgo e
dúzias de peixes dourados, pequenos, médios, grandes,
viviam de migalhas de pão e alguns desses fodões se tornaram
tão gordos e estúpidos que simplesmente subiram até a superfície e se
deitaram
de lado, um olho para o sol, largados, como uma má mensagem
de Deus, mas as pessoas também desistem quando não deviam.
certa vez
houve um campeão, recebeu 5 milhões por uma disputa de campeonato,
o Macho Man, nunca havia sido derrotado mas deu de cara com
um sujeito que podia enfrentá-lo e depois de uns rounds ele
deu as costas e disse,
"no más".
imagine só, por 5 milhões um homem poderia aguentar alguma
dor, eu vi homens com suas vidas inteiras destruídas por
55 centavos a hora ou menos.
bem,
talvez seja a alvenaria ou talvez seja a bomba d'água, ou talvez seja o
porco na cerca, ou talvez seja o fim da sorte. anjos estão voando
baixo hoje com asas em chamas, sua mãe é a vítima de
seus pesadelos ordinários enquanto 40 torneiras gotejam, o gato está com
leucemia, faltam só 245 dias até o Natal e meu
protético me odeia.
assim agora
eu acordo com o pescoço duro em vez do pau
duro e
você
sempre poderá me achar aqui
em East Hollywood mas
por favor por favor por favor
não
tente.
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Um Grande Escritor

um grande escritor fica na cama
cortinas cerradas
não quer ver mais ninguém
não quer escrever mais nada
não quer tentar mais nada;
os editores e donos de editora se admiram:
alguns dizem que ele está louco
alguns dizem que ele morreu;
sua mulher agora responde a toda a correspondência:
"ele não quer..."
e alguns outros até dão voltas
pelo lado de fora da sua casa
olham para as cortinas
cerradas;
alguns até sobem e tocam a
campainha.
ninguém responde.
o grande escritor não quer ser
incomodado. será que o grande escritor não está
em casa? será que o grande escritor foi
embora?
mas todos querem saber a verdade,
ouvir sua voz, ficar sabendo de algum bom
motivo para tudo isso.
se ele tem um motivo
não o revela.
talvez não haja nenhum
motivo?
estranhos e perturbadores acertos são
feitos; seus livros e quadros são silenciosamente
leiloados;
nenhum trabalho novo apareceu em
anos.
no entanto, o público não quer aceitar seu
silêncio -
se ele está morto
eles querem saber; se ele está
louco eles querem saber; se ele tem um
motivo, por favor, nos conte!
eles passam por sua casa
escrevem cartas
tocam a campainha
eles não podem entender e não irão
aceitar
O jeito como as coisas são.
eu prefiro
assim.
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Porrada Importada

eles seguem trazendo lutadores para cá
do Brasile da Argentina
com escores como 11-2-1 ou
7-4-0
e todos eles têm 27 ou 28 anos
de idade
e eles os pôem para enfrentar
nossos rapazes
com escores como
22-0-0, idades de 21 ou
22.
os brasileiros e argentinos
lutam orgulhosamente
e dificilmente lhes faltam
colhões
mas eles têm compleição
baixa e são lentos
ainda usam técnicas de
boxe
que já eram
nos anos
20.
é mais que triste
e eu me pergunto o que
esses brasileiros e
argentinos pensam
depois de
sangrarem
e então
serem nocauteados?
é só
mais uma porra de um voo besta
de volta à América do Sul
para eles
enquanto cruzam com seus
compatriotas
voando para o Norte
sem chance
alguma.
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Especial De 1990

gasto pelos anos
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
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Van Gogh e 9 Rodadas Do Jogo

as noites de navio de guerra na Geórgia
quando todos nós
naufragamos.
você sabe? houve esse russo que
saltava acompanhando a música tão bem que o fazia chorar
e ele ficou louco
e eles o puseram em algum lugar e o
alimentaram e
lhe deram choques com fios elétricos e água fria
e depois
água quente e ele escreveu livros sobre si mesmo
que ele não conseguia ler
ou lembrar.
lá fora no jogo
em Atlanta
eu os via correndo, suando,
e eu sentado lá pensando no
holandês
(em vez do russo)
o holandês com a pincelada com escova de
dentes
que nunca aprendeu a misturar suas tintas
apropriadamente e que nem mesmo conseguiu fazer
que uma puta o amasse
e então tudo acabou
para ele e para a puta
e ele cortou sua orelha e continuou a
implorar por tintas
e eles escrevem livros a seu respeito
agora
mas ele está morto e não os pode ler
e eu vi algumas das suas coisas em uma
galeria
ano passado - eles as haviam amarrado e
vigiado de modo que você não pudesse tocar as
obras.
alguém venceu o jogo em Atlanta e a
puta
não quis sua
orelha.
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Moro em Uma Vizinhança De Assassinatos

as baratas cospem clipes
enferrujados
e o helicóptero dá voltas e voltas
farejando sangue
holofotes esquadrinhando nossos
banheiros
procurando por nosso esconderijo com dupla tampa sob o
colchão
5 caras nesta quadra têm pistolas
um outro tem um
machete
nós somos todos assassinos e
alcoólatras
mas há piores no hotel
atravessando a rua;
eles ficam na entrada verde e branca
banais e depravados
esperando serem
presos.
aqui cada um de nós tem uma planta que está murchando
em nossa entrada
e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da madrugada
fazemos isso
em tons de sussurro
enquanto fora em cada varanda
fica um pequeno pires de ração
que sempre é comido pela manhã
supomos que
pelos
gatos.
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Calor

se alguma vez você esboçou seu último plano em
uma velha cartolina de camisa em um hotel do inverno na Zona Leste
com o aluguel da semana passada atrasado e um aquecedor morto
você saberá como são grandes as pequenas coisas
como você subindo pela escada
talvez pela última vez
com sua garrafa de vinho
pensando na mulher do 449
pondo sua cinta-liga
e na cômoda dela há um
copo vermelho escuro
que capta a luz da lâmpada do teto como um
suave sonho de Jerusalém
e ela se empoa
e desliza para dentro das suaves sedosas bainhas
pelas pontas dos pés
e desempregada e procurando emprego
e talvez procurando você
ela passa por você na
escadaria;
tamanha graça perturbadora
nos transforma.
assim como uma mosca azul explodindo no
céu de verão
você decide ficar por aí e
morrer mais tarde; você entra em seu quarto e serve-se de vinho como
sangue, para dentro, e decide que pela manhã você
acordará cedo e
lerá os classificados de oferta
de empregos.
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Mário Quintana
Mário Quintana
2025-02-15

Mário Quintana