Escritas

Lista de Poemas

Uma Entrevista aos 70

o entrevistador se inclina na minha
direção, "alguns dizem que você não é mais
tão selvagem como costumava
ser",
"bem", eu disse, "não posso continuar para
sempre escrevendo poemas sobre
derramar cerveja no colo das
putas.
um homem amadurece e se move em direção a outras
coisas."
"mas alguns ainda querem o mesmo
velho Chinaski!"
"e isso é o que eles
têm", eu digo.
"conte-nos sobre as corridas
de cavalos", ele sugere.
"não há nada para
contar."
"você tem que esperar
até ele ficar legal
até depois da meia-noite
para ouvir as coisas realmente
boas",
diz minha mulher.
o entrevistador não está
acostumado a esperar.
ele olha suas
anotações.
ele quer algumas
grandes declarações, algumas
grandes conclusões,
algo grande que
aconteça agora.
ele está confuso devido a seus
equívocos e
preconceitos.
e a pior coisa
nele?
ele não é
selvagem
o bastante.
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Perfeitos Dentes Brancos

eu finalmente comprei uma TV a cores
e a outra noite
deparei com esse filme
e lá está um cara em
Paris
ele não tem dinheiro
mas veste um terno muito bom
e o nó da sua gravata está perfeito
e ele não está nem preocupado nem bêbado
mas está em um café
e todas as mulheres maravilhosas estão
apaixonadas por ele
e de algum modo ele continua a pagar seu aluguel
e a subir e descer por escadarias
usando camisas muito limpas
e ele aconselha algumas das garotas
sobre não poderem escrever poesia
enquanto ele pode
mas que não está realmente com vontade de fazer isso
naquele momento -
em vez disso ele está procurando a Verdade.
enquanto isso ele tem um corte de cabelo perfeito
nenhuma ressaca
nada de tiques nervosos ao redor dos olhos e perfeitos
dentes brancos.
eu sabia o que ia acontecer:
ele conseguiria a poesia, as mulheres e
a Verdade.
desliguei o televisor
pensando, seu safado filho da puta
você merece
todas
as três.
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Encômios

após a morte
exageramos as boas qualidades de alguém,
nós as inflamos.
durante a vida
frequentemente sentimos repulsa pela mesma pessoa
enquanto falamos com ela ao telefone
ou só de estar no mesmo aposento.
e frequentemente criticamos o jeito como
andam, falam, vestem-se
vivem
creem.
mas é só morrerem
então que criaturas elas
se tornam.
se apenas em uma cerimônia fúnebre
alguém dissesse,
"que indivíduo odioso
esse aí foi!"
que em meu funeral
haja só um pouco de verdade,
e depois a boa e limpa
poeira.
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O Ódio a Hemingway

dei ao último livro de Hemingway
As ilhas da corrente
uma resenha ruim
enquanto a maioria dos outros lhe dava
boas resenhas.
mas o ódio a Hemingway
pelo escritor malsucedido
especialmente a mulher escritora
é incompreensível para mim.
essa mulher escritora malsucedida estava enfurecida.
tentei explicar porque achava que
Hemingway escrevia
desse modo.
essa coisa de vida-através-da-morte, ela disse,
absolutamente não é exclusiva de
Hemingway. do que mais toda
a nossa cultura ocidental trata? é a mesma história
mais uma vez e mais
uma vez. nada de novo
aqui!
é verdade, pensei, mas...
atirar em leões significava apenas atirar
em si mesmo? ela perguntou. é isso? é
isso? não quando esses leões estavam desarmados e
ele chegava neles com um rifle e
nem mesmo precisava
chegar perto. realmente! pobrezinho do Heming-
way.
é verdade, pensei, os leões não levam
rifles.
a tradição espanhola. entendo Goya porque ele consegue
ser tão real e completo, ela disse. não entendo
Hemingway como outra coisa a não ser um velho filme de Hollywood
protagonizado por... qual é o nome dele? aquele Cooper que era amigo
dele - aquele cara do Matar ou morrer. uau!
ela não gosta nem mesmo dos amigos dele,
pensei.
você aprende sobre a morte por morrer
não por olhá-la,
ela disse.
isso é verdade, pensei, mas então
como você escreve sobre isso?
você diz que Shakespeare o aborrece, ela disse -
o fato é
que ele sabia muito mais que Hemingway -
Hemingway nunca foi além de ser um
jornalista.
que aprendeu a escrever com Gertrude Stein, pensei.
ele lhe contava o que via, ela disse, mas ele não sabia
o que significava - como as coisas realmente
se relacionam... ele nunca
explicou.
estranho, pensei, era exatamente isso que eu
gostava
nele.
você fala um monte de típica
besteira, ela disse.
que pena, pensei,
ela tem pernas tão lindas
e longas. bem, Goya também tinha razão,
mas você não pode ir para a cama com
Goya.
bem, tudo certo, eu pensei, Hemingway puxou aqueles peixes grandes
para fora do mar e encarou algumas guerras
e assistiu a touros morrerem e atirou em alguns
leões;
escreveu alguns grandes contos
e nos deu 2 ou 3
bons romances
iniciais;
em seu derradeiro dia
Hemingway acenou para
alguns garotos indo para a escola,
eles acenaram de volta, e ele nunca tocou o suco de laranja
à sua frente;
então ele enfiou aquela arma em sua boca como um canudinho
e apertou o gatilho
e um dos poucos imortais da América
era sangue e miolos pelas paredes e pelo
forro da sala, e então todos eles sorriram,
eles sorriram e disseram,
ah, um fresco! ah, um covarde!
sim, ele se aproveitou de McAlmon,
ele se aproveitou de todo mundo
e não tratou Fitzgerald corretamente
e ele datilografava em pé
e uma vez ele esteve em um
hospício,
e Gertie Stein, aquele
canhão,
talvez ela o tivesse
ensinado a
escrever.
mas quem o convenceu de que era hora de morrer?
vocês fizeram isso, vocês
seus bundões
sujos.
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O Grande Debate

ele me mandou seu último livro.
houve um tempo em que gostava muito
de seus escritos.
ele havia sido maravilhosamente cru, simples,
perturbado.
agora ele havia aprendido a graciosamente
arrumar suas palavras e pensamentos
no papel.
agora ele dava aulas nas
universidades.
mas eu me perguntei,
sobre o quê?
agora suas palavras estavam
muito pálidas.
elas se espalhavam pela página
como um nevoeiro
preenchendo-a
mas dizendo
muito pouco.
ele não parecia ser o
mesmo homem.
para onde fora?
por que
tais mortes parecem ser
misteriosas?
está bem que
novos poetas venham chegando
novos zagueiros
novos "matadores"
novos ditadores
novos revolucionários
novos açougueiros
novos penhoristas.
pois a morte espiritual chega
muito mais rápida e inesperada que
a morte física.
eu jogo seu novo livro
na cesta de papéis.
eu não o quero
por perto.
agora ele é um
escritor de sucesso
o que significa
que seu trabalho
não deixa mais
ninguém
zangado
enojado
ou triste.
nunca faz
ninguém
rir.
nunca faz
ninguém
ter aquele arrepio de maravilhamento
ao ler
aquilo.
mas em um mundo
no qual até
o desaparecimento do dinossauro
permanece um mistério
devemos aceitar
o misterioso fato do
poeta evaporar-se.
e quando aceitamos
isso
simplesmente
estamos abrindo as portas para
nossa própria
invisibilidade final.
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Dia Maldito

nos velhos tempos
após as corridas eu costumava terminar com uma
amarela alta ou uma branca louca em algum quarto
de motel
mas agora estou com 70 e tenho que levantar quatro vezes
toda noite para mijar
e quase que a única coisa a me preocupar é
o tráfego nas vias expressas.
hoje eu perdi $810,00 nas corridas e quando
tentei entrar na via expressa um
tipo em um Camaro vermelho quase me jogou
fora da estrada (automóveis vermelhos sempre
me aborreceram) então me mandei atrás dele e dirigimos lado a lado.
dando uma olhada nele vi que era um cara magro
que parecia com um contador, então baixei
minha janela e berrei para ele enquanto
buzinava, informando-o de que ele era um pedaço de
merda subnormal mas ele só continuou a olhar
para a frente por isso pisei fundo e o deixei para
trás e meu pensamento seguinte foi, será que
devo contar isso à minha mulher?
e então rapidamente uma voz de algum lugar
respondeu, não seja trouxa, meu chapa, ela
só vai tornar isso uma piada sem graça.
"oh, hahaha! ele provavelmente nem viu
que você estava lá!"
se um homem vive por 70 anos ele aprende
duas ou três coisas - a primeira sendo: não faça confidências
desnecessárias
para sua mulher.
a segunda sendo: outros podem às vezes
entendê-lo mas
ninguém o entenderá
melhor que sua
mulher.
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Passagem

e seus navios queimaram, galeões, galeras, veleiros,
e eles naufragavam enquanto as nuvens baixavam
como reis em seus tronos e os pegaram:
servos, escravos, leões, sábios, loucos, mercadores,
matadores; depois as algas, betume, alabastro, conchas
se apresentaram, e depois vieram as sombras,
escuras como muralhas sob um sol poente: e belicoso e
maldoso o mar pisoteou os navios que naufragavam e as
ramagens embalaram os crânios em exame, as
algas marinhas ergueram os crânios e você os via
lá, tão estranhos e livres e soltos: todos os
amantes solitários mortos.
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Meu Fiel Servo Índio

eu me virei para acender
a luz. a luz já estava
acesa. eu não estava legal. "Hudnuck!"
berrei para meu fiel servo
índio. "vá chupar meu saco," ele respondeu.
na luz mortiça
eu o vi no sofá com
minha mulher. eu saí
e toquei minha corneta.
3 camelos responderam a meu chamado e vieram
correndo atravessando o quintal.
"Hudnuck!", eu berrei.
"segure a sua onda, paizinho", ele respondeu,
"até eu acabar."
toquei minha corneta. nada aconteceu.
estava cheia de cuspe e
lágrimas.
Hudnuck apareceu na
varanda, fechando seu zíper.
"quero um aumento", ele disse,
"estou trabalhando para nada."
"e eu estou vivendo para nada, Hud:
você não percebe que
eu estou acabado?"
"não fale assim", ele disse,
"você tem uma boa mulher."
minha mulher apareceu na
varanda, "o que você vai querer para
o desjejum, querido?", ela
perguntou.
"bacon e ovos", eu respondi.
"você não, seu maluco!", ela gritou.
"bife e salsicha de fígado", disse
Hudnuck.
"obrigada, querido", disse minha boa
mulher, retornando a nosso
ninho.
toquei minha corneta. um corvo respondeu.
Hudnuck arrancou a corneta
da minha mão. ele a esfregou
na frente da minha melhor
camisa. (ele a estava
usando.)
ele tocou "Hearts and Flowers"
na maldita coisa. meus olhos
ficaram marejados de lágrimas.
resolvi dar-lhe um
aumento. olhando sobre o ombro, eu o vi
retorcer minha cometa até que ela
tomasse a forma de uma cruz
enquanto ele tocava "It Ain't Gonna
Rain No More".
ele tinha mãos fortes, delicadas,
belas. olhei para minhas próprias
mãos, primeiro não consegui achá-las, então
rapidamente
eu as tirei dos meus bolsos
eo
aplaudi.
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Olhando Para Os Colhões Do Gato

sentado aqui junto à janela
suando suor de cerveja
atormentado pelo verão
estou olhando para os colhões do meu gato.
não é por minha escolha.
ele dorme em uma velha cadeira de balanço
na varanda
e dali ele me olha
dependurado em seus colhões de gato.
aí está seu rabo, coisa danada,
dependurada de lado
de modo que eu possa
ver seus felpudos reservatórios mas
em que pode um homem pensar
enquanto olha para as bolas de um gato?
certamente não sobre a nave naufragada após uma
grande batalha naval.
certamente não sobre um programa para salvar os
pobres.
certamente não sobre um mercado de flores ou uma dúzia de
OVOS.
certamente não sobre um interruptor de luz quebrado.
colhões são colhões, é isso aí,
e com muita certeza isso é verdade a respeito
dos colhões de um gato.
os meus são bem moles e macios e
diz-me minha atual mulher
bem grandes:
"você tem colhões enormes, Chinaski!"
mas os colhões do gato:
eu não consigo entender se ele está dependurado neles
ou se eles estão dependurados nele.
você vê, há essa batalha de atravessar quase toda a noite
pela fêmea
e isso não é nada fácil para nenhum de nós.
veja:
falta um pedaço da sua orelha esquerda.
certa vez pensei que um de seus olhos tinha sido
arrancado
mas quando o sangue seco
descascou
uma semana depois
aí estava seu puro
olho verde-dourado
me encarando.
todo o seu corpo está coberto de escaras de mordidas
e no outro dia,
tentando acariciar sua cabeça
ele gemeu e quase me mordeu -
a pele do seu crânio
havia sido rasgada até o osso.
com certeza não é fácil para nenhum de nós,
pobre coitado.
ele dorme
e agora sonha
o quê?
um gordo pardal em sua boca?
ou rodeado por gatas com tesão?
ele sonha seus sonhos diurnos
e nós saberemos o que é
esta noite.
boa sorte, velho camarada,
a vida não é fácil,
estamos dependurados em nossos colhões, é assim que estamos, ou seja,
estamos no cativeiro de nossos colhões,
e eu deveria me conter um pouco
quando se trata de mulheres.
enquanto isso
olharei seus olhos e me defenderei com jabs de esquerda
e correrei como do diabo
quando nada mais
adiantar.
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Um Resíduo

parado no meio do voo,
maldosamente retalhado,
sonhando com
dactilozoides.
recusado,
preparado para parar
no Zero,
apagado,
retalhado,
desmobilizado
onde está o riso
comum?
a simples alegria?
aonde
foram?
que truque
enganador,
esse.
até os céus
rosnam.
que rancor,
que
amargor...
o grito
abafado
do coração,
agora
lembrando
tempos
melhores
selvagens e
maravilhosos.
agora o triste
soturno
presente
se abre.
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Mário Quintana
Mário Quintana
2025-02-15

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