Escritas

Lista de Poemas

Junk

sentado num quarto escuro com 3 junkies,
mulheres.
sacos de papel cheios de lixo estão por toda
parte.
é uma e meia da tarde.
elas falam de manicômios,
hospitais.
esperam por uma dose.
nenhuma delas trabalha.
é a assistência e os vale-refeições e
plano de saúde.
os homens se tornam objetos
à espera de uma dose.
é uma e meia da tarde
e do lado de fora crescem pequenas plantas.
os filhos delas ainda estão na escola.
as mulheres fumam cigarros
e tragam indiferentes suas cervejas e
tequilas
pagas por mim.
me sento com elas.
espero pela minha dose:
sou uma poesia junkie.
eles empurraram Ezra pelas ruas
numa gaiola de madeira.
Blake estava certo da existência de Deus.
Villon era um embusteiro.
Lorca chupava paus.
T.S. Eliot estava preso a um caixa de banco.
grande parte dos poetas são cisnes,
garças-reais.
eu me sento com 3 junkies
à uma e meia da tarde.
a fumaça mija para cima.
eu espero.
a morte não é nada descomunal.
uma das mulheres diz que curte
minha camisa amarela.
acredito numa violência simples.
isto é
uma parte dela.
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Concurso de Poesia

mande quantos poemas você quiser, mantenha
apenas cada um deles a dez linhas no máximo.
nenhum limite quanto ao estilo ou conteúdo
embora prefiramos poemas de
afirmação.
espaço duplo
com seu nome e endereço na
parte superior do cabeçalho
esquerdo.
os editores não se responsabilizam pelos
manuscritos
sem envelope de retorno
todos os esforços
serão feitos para
julgar os trabalhos num prazo de 90
dias.
após uma cuidadosa seleção
a escolha final será feita por
Elly May Moody,
editora-geral responsável.
por favor envie dez dólares
para cada poema
apresentado.
um prêmio final de
75 dólares será
entregue ao vencedor
do
Prêmio de ouro Elly May Moody de
poesia,
junto com um certificado
assinado por
Elly May Moody.
também serão premiados com certificados os 2º, 3º e
4º lugares
todos com a assinatura de
Elly May Moody.
as decisões são
irrevogáveis.
os vencedores do prêmio serão
publicados no número de primavera de
O coração do paraíso.
os vencedores do prêmio também receberão
uma cópia da revista
junto com
a última coletânea de
poesia de
Elly May Moody,
O lugar onde morreu
o inverno.

A cena da banheira era simples. Francine sentava-se dentro e Jack Bledsoe no chão, do lado de fora, recostado na banheira, enquanto Francine falava de várias coisas, principalmente sobre um assassino que vivia no prédio e se achava em liberdade condicional. O homem, que morava com uma velha, espancava-a continuamente. Ouviam-se o assassino e sua dona discutindo e se xingando através das paredes.
Pinchot me pedira para escrever diálogos de pessoas brigando do outro lado das paredes, e eu lhe dera várias páginas. Basicamente, essa fora a parte mais gostosa da criação do argumento.
Muitas vezes, nessas pensões e apartamentos baratos, não se tinha nada a fazer quando se estava duro, morrendo de fome e reduzido à última garrafa. Não se tinha nada a fazer senão escutar aquelas discussões cabeludas. Elas faziam a gente compreender que não era o único desiludido do mundo, não era o único à beira da loucura.
Não podíamos ver a cena da banheira, porque não havia espaço suficiente lá dentro, por isso Sarah e eu ficamos esperando na porta da frente do apartamento, com a cozinha para um lado. Na verdade, trinta anos atrás eu tinha morado por pouco tempo naquele mesmo prédio da Rua Alvarado, com a dona sobre a qual escrevera o argumento. Era de fato estranho e arrepiante. “Tudo que passa, volta.” De uma maneira ou de outra. E trinta anos depois, o lugar parecia mais ou menos o mesmo. Só que as pessoas que eu conhecera tinham todas morrido. A dona morrera três décadas atrás, e ali estava eu sentado, tomando uma bebida naquele mesmo prédio cheio de câmeras e som e técnicos. Bem, eu ia morrer também, muito breve. Sirva um por mim.
Preparavam comida na pequena cozinha, e a geladeira regurgitava de cervejas. Fiz algumas incursões por lá. Sarah encontrou pessoas com quem conversar. Tinha sorte. Toda vez que alguém falava comigo, eu sentia vontade de saltar pela janela ou descer no elevador. As pessoas simplesmente não tinham interesse algum. Talvez não devessem ter. Mas os animais, pássaros, até mesmo os insetos tinham. Eu não entendia.
Jon Pinchot continuava adiantado um dia em relação ao cronograma de filmagens, e eu estava satisfeito pra burro com isso. Tirava a Firepower do nosso pé. Os grandolas não apareciam. Tinham seus espias, é claro. Eu os via.
Alguns membros da equipe tinham livros meus. Pediam autógrafos. Os livros que traziam eram curiosos. Quer dizer, eu não os considerava os melhores. (Meu melhor livro é sempre o último que escrevi.) Alguns deles tinham um livro de minhas primeiras histórias pornográficas, Batendo punheta no demônio. Alguns livros de poemas, Mozart na figueira e Você deixaria esse homem tomar conta de sua filhinha de auatro anos? Também A latrina do bar é minha capela.
O dia passava, em paz mas sem alegria.
Bela cena de banheira, eu pensava. Francine deve estar bem lavada a essa altura.
Jon Pinchot entrou correndo no quarto. Parecia descomposto. Até o zíper estava meio aberto. Despenteado. Os olhos pareciam ao mesmo tempo ensandecidos e vazios.
– Meu Deus! – disse. – Aqui está você!
– Como vai indo?
Ele se curvou sobre mim e me sussurrou no ouvido:
– É terrível, é de enlouquecer! Francine está preocupada com a possibilidade do bico do peito dela aparecer acima d’água! Fica perguntando: “Meus peitos estão aparecendo?”
– Que mal faz um peitinho?
Jon se curvou mais ainda.
– Ela não é mais tão jovem quanto gostaria... E Hyans odeia aquela iluminação... Não suporta a iluminação e está bebendo cada vez mais...
Hyans era o câmera. Ganhara quase todos os prêmios do ramo, um dos melhores câmeras vivos, mas, como a maioria das almas grandes, gostava de seu traguinho de vez em quando.
Jon prosseguiu, sussurrando freneticamente:
– E Jack não diz uma fala certa. Temos de cortar o tempo todo. Tem alguma coisa nas falas que incomoda ele, e ele fica com aquele sorriso idiota no rosto quando as diz.
– Qual é a fala?
– É: “Ele tem de masturbar o agente da condicional quando o cara aparece”.
– Tudo bem, experimente: “Ele tem de tocar punheta no agente da condicional quando o cara aparece”.
– Nossa, obrigado! ESTA VAI SER A décima nona TOMADA!
– Meu Deus – eu disse.
– Me deseje sorte...
– Sorte...
Jon deixou o quarto. Sarah se aproximou.
– Que é que há?
– A décima nona tomada. Francine está com medo de mostrar os peitos, Jack não consegue dizer sua fala, e Hyans não gosta da iluminação.
– Francine precisa de um trago – ela disse. – Vai fazer ela se soltar.
– Hyans não precisa de um trago.
– Eu sei. E Jack vai conseguir dizer a fala quando Francine se soltar.
– Talvez.
Nesse momento Francine entrou no quarto. Parecia inteiramente perdida, completamente por fora. Usava um roupão, uma toalha amarrada na cabeça.
– Vou dizer a ela – disse Sarah.
Aproximou-se de Francine e falou-lhe baixinho. A outra escutou. Assentiu levemente com a cabeça, saiu do quarto por uma porta à esquerda. Num instante, Sarah emergiu da cozinha com uma xícara de café. Bem, tinha scotch, vodca, uísque e gim naquela cozinha. Sarah preparara alguma coisa. A porta abriu-se, fechou-se e a xícara de café desapareceu.
Sarah aproximou-se.
– Ela vai ficar bem agora...
Passaram-se dois ou três minutos, e a porta do quarto abriu-se de repente. Francine saiu e dirigiu-se para o banheiro e a câmera. Quando passava, seus olhos encontraram os de Sarah:
– Obrigada!
Bem, não havia nada a fazer senão ficar sentado e bater mais papo.
Eu não podia deixar de lançar uma olhada ao passado. Aquele era o mesmo prédio do qual eu fora despejado por levar três mulheres para meu quarto certa noite. Naquele tempo não tinha essa de Direitos do Inquilino.
– Sr. Chinaski – dissera a senhoria –, aqui moram pessoas religiosas, pessoas trabalhadoras, pessoas com filhos. Eu nunca recebi uma queixa dessas sobre outros inquilinos. E soube também que o senhor... aquelas cantorias, aqueles xingamentos... quebra-quebra... palavrões e risadas... Em toda a minha vida, eu jamais soube de nada parecido com o que aconteceu em seu quarto ontem à noite!
– Tudo bem, eu saio...
– Obrigada.
Eu devia estar louco. Sem me barbear. A camiseta cheia de buracos de cigarro. Meu único desejo era ter mais de uma garrafa na cômoda. Não era feito para o mundo nem o mundo pra mim, e encontrara outros como eu, e em sua maioria esses outros eram mulheres, mulheres com as quais a maioria dos homens jamais iria querer ficar num mesmo quarto, mas que eu adorava, elas me inspiravam, eu fazia teatro, xingava, saltava pelo quarto de cueca dizendo-lhes que era grande, mas só eu acreditava nisso. Elas apenas berravam: “Foda-se! Sirva mais um pouco de álcool!” Aquelas donas do inferno, aquelas donas no inferno comigo.
Jon Pinchot entrou rápido no quarto:
– Deu tudo certo! Que dia! Agora, amanhã recomeçamos tudo!
– Agradeça a Sarah! – eu disse. – Ela sabe preparar uma bebida mágica.
– Quê?
– Ela soltou Francine com uma coisa numa xícara de café.
Jon voltou-se para Sarah.
– Muito obrigado...
– Disponha – respondeu Sarah.
– Nossa – disse Jon –, estou neste ramo há muito tempo e nunca fiz dezenove tomadas!
– Eu soube – eu disse – que Chaplin às vezes fazia cem tomadas até conseguir o que queria.
– Isso era Chaplin – disse Jon. – Cem tomadas, e nosso orçamento vai embora.
E foi isso aí por esse dia. A não ser por Sarah, que disse:
– Diabos, vamos ao Musso’s.
O que fizemos. E conseguimos uma mesa na Sala Velha e pedimos umas bebidas enquanto olhávamos o menu.
– Lembram? – perguntei. – Lembram dos velhos tempos quando a gente vinha aqui ver as pessoas nas mesas e tentar localizar os tipos, os atores, os diretores ou produtores, os tipos do pornô, os agentes, os aspirantes? E a gente pensava: “Veja só eles, discutindo suas negociatas de filmes, ou os contratos sobre seus últimos filmes”. Que toupeiras, que desajustados. Melhor desviar o olhar quando chegarem o peixe-espada e o linguado.
– A gente achava eles uns merdas – disse Sarah – e agora nós é que somos.
– Tudo que passa, volta...
– Certo! Acho que vou querer o linguado...
O garçom pairava acima de nós, arrastando os pés, franzindo o cenho, os pelos das sobrancelhas caindo sobre os olhos. Musso estava ali desde 1919, e tudo era um pé no saco para ele: nós, e todos os demais na casa. Eu concordava. Decidi pelo peixe-espada. Com batatas fritas.
– Hollywood
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Estrangeiro Em Uma Cidade Estranha

eu havia acabado de chegar
a outra cidade estranha
e havia deixado meu quarto e
me encontrava caminhando ao longo
do que devia ter sido
uma avenida principal
na qual os automóveis corriam indo
e vindo com o que parecia ser
um propósito
definido.
aquele bulevar movimentado parecia
estender-se sem fim
à minha frente e
parecia seguir
direto até a beirada
da Terra,
e então
depois de caminhar por um tempo
eu me dei conta
de que estava
perdido, de que
havia esquecido o nome
da rua em que meu
quarto ficava
ou
onde estava.
não havia deixado nada
naquele quarto
a não ser a diária paga
por uma semana
mais uma mala
amarrotada
cheia de minhas roupas velhas
mas aquilo era
tudo o que
eu tinha
então comecei a examinar
as travessas
procurando
meu quarto
e logo fiquei
com medo, um
terror paralisante como uma doença
fatal
espalhando-se em mim
enquanto
eu continuava a andar
para cima e para baixo por ruas
desconhecidas
até que minha mente
me dissesse:
você está louco, é só
isso, você deveria
desistir e tentar
resolver
isso.
mas eu só continuava a andar.
havia sido uma
longa tarde e agora
deslizava
noite adentro.
meus pés doíam
em meus sapatos
baratos.
então foi
escurecendo, já era noite,
mas eu continuei
a caminhar.
sentia como se
tivesse caminhado
para cima e para baixo
pelas
mesmas ruas
de novo e de novo.
então finalmente
reconheci meu
prédio!
e subi correndo
os degraus
e pela escadaria até
o segundo andar
e meu quarto ainda estava
láeeu
abri a porta,
fechei-a depois de entrar,
e fiquei
seguro lá dentro.
lá estava a
mala
no assoalho,
ainda cheia das minhas
roupas velhas.
eu ouvi um homem
rir
em outro
dos quartos e subitamente
me senti muito
melhor.
eu tirei meus sapatos,
camisa, calças,
sentei-me na beirada
da cama e
enrolei um
cigarro.
e aí me reclinei no
travesseiro e
fumei.
eu tinha 20 anos de idade
e 14 dólares
na minha carteira.
então me lembrei
da minha garrafa de vinho.
puxei-a sob a
cama, destampei-a
e tomei um bom
trago.
resolvi que
não estava louco.
peguei um jornal
do chão
e fui para a seção de
empregos:
lavador de pratos, auxiliar
aduaneiro, estoquista,
guarda noturno...
joguei o jornal
no chão.
eu procuraria um
emprego
depois de
amanhã.
então apaguei
o cigarro
satisfeito
e fui
dormir.
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O Mockingbird

o mockingbird estivera seguindo o gato
por todo o verão
zombando zombando zombando
provocador e arrogante;
o gato se arrastava debaixo dos ganchos nas varandas
a cauda lampejando
e dizia alguma coisa raivosa ao mockingbird
que eu não conseguia entender.
ontem o gato caminhava calmamente pela entrada da garagem
com o mockingbird vivo em sua boca,
as asas como leques, belas asas abanando e se deixando desfalecer,
as penas separadas como pernas de mulher,
e o pássaro já não zombava,
perguntava, rezava
mas o gato
avançando a passos largos através dos séculos
não lhe daria ouvidos.
vi quando ele rastejou para baixo de um carro amarelo
com o pássaro
para dar-lhe cabo em outro lugar.
o verão estava encerrado.
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8 de Contagem

da minha cama
observo
3 passarinhos
sobre o fio do
telefone.
um deles
voa.
depois mais
outro.
resta um,
que
logo também
se vai.
minha máquina de escrever está
imóvel como uma
lápide.
e estou
reduzido a um observador de
pássaros.
apenas para
mantê-lo
informado,
otário.
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Só Mais Um Bebum

o garoto tinha 20 anos, estivera na estrada
por 5 ou 6 anos e agora estava sentado no sofá
tomando minha cerveja, seu nome era Red,
e ele falava sobre a estrada:
"aqueles 2 caras estavam tentando me amedrontar
para valer, fazer com que eu ficasse quieto, porque eu tinha visto eles
matarem um
cara".
"matarem um cara? como?"
"com uma pedra."
"para quê?"
"ele tinha sua carteira, uma boa
carteira, e 7 dólares. era um bebum. estava
bebado e bateram nele com a pedra,
arrebentaram seus miolos."
"você viu isso?"
"eu vi. na próxima parada do trem
eles o descarregaram, descarregaram em algum
mato alto, aí o trem partiu
de novo."
dei mais uma cerveja para o garoto.
"quando a polícia encontra esses caras esfarrapados, sem
identificação, cara avermelhada de vinho, eles dizem "só mais um
bebum",
nem investigam, só
esquecem."
conversamos quase a noite toda
sobre a estrada. eu lhe contei umas histórias
minhas. então fui para a cama. ele dormiu no
sofá. eu entrei no quarto de dormir com a mulher e
a criança. dormi.
quando acordei para mijar pela manhã
Red estava sentado em uma cadeira
lendo jornal de ontem.
"preciso ir", ele disse, "não posso dormir
mais, mas tive uma boa noite, foi uma boa
conversa. obrigado."
"eu também, Red. vá com calma."
"com certeza."
então ele saiu pela porta e seguiu pela rua,
partiu.
de volta ao quarto, ela perguntou, "Red foi embora?"
"para onde ele foi?"
"não sei. Texas. O inferno. Boston. qualquer lugar."
a menininha acordou:
"eu quero mamar!"
"você pode pegar a mamadeira para ela? você está em pé."
"claro."
eu fui para a cozinha e misturei algum
leite. e em todo lugar todas as coisas iam correndo,
cruéis e não cruéis, aranhas e vagabundos
e soldados e jogadores e loucos e
factótuns e bichas e bombeiros, assim mesmo,
e voltei para o quarto e passei a mamadeira para a menina
voltei para a cama
e ouvi a criança chupando aquela coisa -
chupa chupa chupa,
e logo nós tomaríamos nosso próprio
café da manhã.
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Não é Muito

suponho que assim como outros
eu tenha atravessado ferro e fogo,
o amor que deu errado,
quedas de cabeça, bêbado no mar,
e escutei o simples rumor da água escorrendo
nos encanamentos
e desejei afogar-me
mas simplesmente não conseguia aguentar os outros
carregando meu corpo três lances de escada abaixo
até os curiosos boquiabertos;
a psique foi queimada
e nos deixou insensíveis,
o mundo tem estado mais escuro que um apagão
dentro de um cubículo cheio de morcegos famintos,
e o uísque e o vinho penetraram em nossas veias
quando o sangue estava fraco demais para continuar;
e isso acontecerá com outros,
e nossos poucos bons momentos serão raros
porque temos um senso crítico
e não somos fáceis de enganar com risadas;
minúsculos insetos rastejam em nossa tela
mas podemos enxergar através dela
uma paisagem devastada
e que eles possam ter sua vez;
só pedimos que leopardos guardem
nossos ralos sonhos.
certa vez estive internado em um
hospital branco
para os moribundos e os egos
moribundos, onde algum deus mijou uma chuva de
razões para fazer com que as coisas crescessem
só para morrer, onde de joelhos
eu rezei por LUZ,
eu rezei por I*u*z,
e rezando
arrastei-me como uma lesma cega para a
teia
na qual fios de vento se enroscaram em minha mente
e morri de piedade
pelo Homem, por mim,
em uma cruz sem pregos,
olhando atemorizado enquanto
o porco arrota em seu chiqueiro, peida,
pisca e come.
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Pode Ir Dando Adeus a Sua Bunda

eu finalmente o conheci. ele estava sentado em um velho roupão
e reclamou por 5 horas.
"olha," ele disse, "não confie em Krause,
Krause irá roubá-lo. ele me deve 10.000 dólares
e não tem jeito de eu arrancá-los
dele. um verdadeiro safado."
"Senhor", eu disse, "quando escreveu aquele primeiro romance,
tinha tanto humor, a verdade sempre é tão engraçada,
sabe, o jeito como as pessoas agem, como coisas mecânicas cegas,
matando sem razão, maravilhoso como conseguiu por tudo aquilo
no papel."
uma velha senhora entrou e serviu-lhe uma
xícara de chá. "eles arrebentaram minha motocicleta, roubaram meus
manuscritos,
me limparam. eles teriam me matado mas eu não estava
aqui. eles me chamaram de fascista, afirmaram que eu havia vendido os
planos
da Linha Maginot aos Krauts. agora, onde diabos eu poderia ter
conseguido os planos da Linha
Maginot?"
ele serviu-se de chá. ergueu a xícara. estava quente demais
ou algo assim. ele cuspiu tudo no tapete, um pouco em
meus sapatos e calças.
"Senhor", eu perguntei, "aquele primeiro romance, o senhor realmente
comeu sua própria
carne quando era um jovem escritor? estava tão
faminto assim? meu deus, que narrativa aquela, eu nunca
a esquecerei!"
"Martha!", ele chamou. "Martha!"
a velha senhora entrou.
"você esqueceu o limão e o açúcar, sua bruxa velha!"
a velha senhora saiu correndo
para pegar o limão e o açúcar.
"o governo reclama que eu lhe devo 70.000 dólares! eles não incomodam
Krause, o filho
da puta roda por aí em um Cadillac e tem uma propriedade
de cinco hectares. nunca confie em Krause. ele é um sanguessuga. ele
sugou
os corpos e talento de pelo menos 3 dúzias de escritores. ele é como uma
aranha
gigante, uma tarântula!
"Krause nunca me pediu nada..."
"se ele pedir, você pode ir dando adeus
a sua bunda!"
Martha entrou correndo com o limão e o açúcar.
"sua maldita puta sem vergonha! eu deveria chicotear sua bunda!"
"Senhor", eu disse, "o senhor é visto como
um dos mais poderosos escritores desde 1900."
"não confie em Krause! um sanguessuga!?"
ele se queixou por 5 horas. e eu ouvi. então sua cabeça caiu para trás,
sobre o encosto da sua cadeira de balanço, e eu vi aquele
famoso perfil de águia. então ele começou
a roncar.
ele era apenas um velho em um velho
roupão.
eu me levantei. Martha entrou.
"estou contente por ter tido uma chance de encontrá-lo",
disse a ela.
"tento lembrar-me de que ele já foi um grande escritor",
ela me disse.
"ele ainda tem um certo senso de humor",
disse a ela.
"eu não acho", ela disse,
"veja, eu sou
a mulher
dele."
"boa noite", eu
disse.
"boa noite", ela
respondeu.
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Lava-Rápido

saí, o camarada disse, “ei!”, caminhando na minha
direção, apertamos as mãos, ele me passou 2 cupons
vermelhos para lavar o carro de graça, “nos encontramos depois”,
eu lhe disse, segui em frente até área de
espera com a esposa, sentamos num banco do lado de fora.
um negro manco de uma perna apareceu, disse,
“ei, cara, como vai a parada?”
respondi, “beleza, mermão, e com tu?”
“na paz”, ele disse, então se afastou para
secar uma van.
“essas pessoas o conhecem?”, perguntou minha esposa.
“não”.
“então por que elas vêm falar com você?”
“gostam de mim, as pessoas sempre gostaram de mim,
é minha sina.”
então nosso carro ficou pronto, o camarada acenou com
a flanela pra mim, levantamos, fomos até o
carro, dei-lhe um dólar, entramos,
dei a partida, o gerente se
aproximou, um cara grande de óculos escuros, um cara enorme,
abriu um sorriso largo, “bom ver você,
cara!”
sorri de volta, “obrigado, gentileza sua,
cara!”
misturei-me ao tráfego, “eles te conhecem”,
disse minha esposa.
“claro”, eu disse, “já estive ali.”
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Mil Dólares

todo o meu conhecimento sobre corridas de cavalos
me dizia que esta era uma aposta garantida.
apostei mil para ganhar.
o cavalo estava cotado em primeiro
nos três quartos de milha.
a campainha tocou e eles
saíram do portão.
meu cavalo virou à esquerda
atravessou correndo a cerca
caiu e
morreu
lá mesmo
com 7/5 no páreo.
quando conto essa história
as pessoas não dizem
nada.
às vezes não há nada a dizer
sobre
a morte.
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Mário Quintana
Mário Quintana
2025-02-15

Mário Quintana