Problema Com Espanha
entrei no chuveiro
e queimei meus bagos
na última quarta-feira.
conheci este pintor chamado Espanha,
não, ele era um cartunista,
bem, conheci-o numa festa
e todos ficaram putos comigo
por eu não saber quem ele era
ou o que ele fazia.
ele era um cara bem bonito
e suponho que ele tenha ficado com ciúmes
por eu ser tão feio.
eles me disseram seu nome
e ele estava encostado contra a parede
parecendo bonito, e eu disse:
ei, Espanha, gosto desse nome: Espanha.
mas não gosto de você. por que não vamos
até o jardim para eu dar uma bica nesse seu
rabo?
isto deixou a anfitriã irritada
e ela foi em sua direção e lhe esfregou o pau
enquanto eu ia até o banheiro
e me aliviava.
mas todos estão brabos comigo
Bukowski, ele já não sabe escrever, está acabado.
vazio. vejam como ele bebe.
nunca teve o hábito de ir a festas.
agora vem às festas e bebe todas
e insulta aqueles que têm talento de verdade.
eu costumava ter admiração por ele quando cortou os pulsos
ou quando tentou se matar com
gás. olhem para ele agora secando aquela garota de 19
anos, e vocês sabem que ele
já não levanta.
eu não apenas queimei meus bagos naquele chuveiro
na última quarta-feira, eu me virei para escapar daquela água
fervente e queimei também o olho do
cu.
Direto Sem Parar
eu estou
suspenso por um prego
o sol derrete meu coração
eu estou
irmanado com a serpente
e tenho medo de quedas d’água
eu tenho
medo de mulheres e cercas vivas
a polícia me para e
me diz
enquanto as árvores se curvam ao vento
(estou de ressaca) que meu escapamento está furado e
minha ventarola não abre
e o farol da luz de ré está quebrado.
eu não tenho luz de ré,
assino a multa e me sinto grato,
já dentro,
que eles não tenham feito o que estou
pensando
a tristeza pinga como grandes gotas de água
num poço envenenado até a metade,
sei que minhas chances se afunilaram a ponto de chegar a
quase nada –
sou como um inseto no banheiro quando você acende o
interruptor às 3 da manhã.
o amor, por fim, como um pano de chão enfiado goela
abaixo, retratos de alegria
convertidos em clipes para papel, você
sabe você sabe você sabe.
uma vez que você tenha entendido este processo (o que você
precisa entender
é
que a maior parte das coisas
simplesmente não funciona, então
você não deve tentar
salvá-las, e ao tempo em que você aprender isto
seus anos já terão
rareado) – uma que tenha entendido este processo
você precisa ser queimado apenas 2 ou 3 vezes mais
antes que eles o transformem em entulho, e
é importante saber isso –
pare de ser tão fodidamente rápido com suas
respostinhas e relaxe –
você está prestes a ser liquidado, também, assim
como eu. não há motivo para
vergonha. posso entrar em qualquer bar e
pedir um uísque e água,
pagar,
e colocar a mão em volta do copo,
eles não sabem, eles não sabem,
nada sobre você nem sobre mim,
estarão todos falando sobre futebol e
sobre o tempo e sobre a crise energética,
e nossas mãos buscarão
o espelho observando as mãos
e então beberemos tudo –
Jane, Barbara, Frances, Linda, Liza, Stella,
o chinelo de couro marrom do pai
virado para baixo no banheiro,
cachorros mortos e sem nome,
o jornal de amanhã,
a água fervendo para fora do radiador numa
tarde de quinta-feira, queimando seu braço
até metade da distância do cotovelo, e sem ser sequer
capaz de se irritar com a dor,
arreganhando os dentes para os vencedores
arreganhando os dentes para o cara que trepa com sua garota
enquanto você está bêbado ou longe
e arreganhando os dentes para a garota que permite isso.
as rosas uivam
ao vento ameno,
já dissemos
as coisas necessárias, e
sair é a próxima, mas eu só gostaria
de dizer
não importa o que eles tenham dito
eu nunca me emputeci
com nada.
Vozes
1.
meu bigode está engomado
assim como minha peruca e minhas sobrancelhas
e até mesmo meus olhos...
então alguma coisa me atordoa...
o balanço da pantalha, escuto
borbulhos e mágica e
sons incríveis.
2.
sei que enlouqueci, quase como
um ato de teoria:
o perdido é encontrado
o doente se põe saudável
os não-criadores são os
criadores.
3.
mesmo que eu fosse um ser sofisticado, confortável
e domesticado jamais poderia beber o
sangue das massas e
chamá-lo de vinho.
4.
por que eu tinha que erguer o carro daquela
bela garota pelo para-choque porque o macaco emperrou?
fiquei entrevado
e eles me levaram como se eu fosse um pretzel e me ajeitaram
mas ainda assim não conseguia me mexer...
a culpa era do hospital, dos médicos.
então aqueles dois rapazes me largaram a caminho da
sala de raio X... eu gritei PROCESSO!
mas acho que a culpa era daquela garota –
ela não devia ter me mostrado toda aquela perna
e aquela bunda.
5.
escute, escute, BARROESPACIAL DO AMOR, DESPEDACE PINGUE,
BARROESPACIAL DO AMOR, AMOR, AMOR; MATE APRENDA A USAR UMA
ARMA; ÁREAS ABERTAS, PERCEBA, SEJA DIVINA, BARROESPACIAL
DO AMOR, ESTÁ SE aproximando...
6.
decolei de E.H. no meu primeiro romance,
tenho vivido numa boa desde então. é provável
que seja o melhor jornalista que a América já teve, posso
enrolar sobre qualquer assunto, e isso tem lá
seu valor. você me admira muito mais do que
o primeiro homem que encontra na rua
pela manhã. basicamente, no entanto, é um
fato, vivi durante uma era em que não há
escritores, então ganhei destaque
porque nada mais apareceu. ok,
é uma época ruim. suponho que eu seja o número
um. mas é um pouco diferente do tempo em que tínhamos
os gigantes a nos estimular. esqueça:
estou numa boa.
7.
eu era um mau escritor, matei N.C. porque fiz
dele mais do que ele era, e então os descolados
fizeram dos meus livros mais do que eles eram. havia
até então apenas 3 maus escritores na literatura americana
aceitável. Drieser, claro, foi o pior.
então tivemos Thomas Wolfe, e depois tivemos a mim. mas
quando tento escolher entre mim e Wolfe, tenho
que escolher Wolfe. digo, como o pior. gosto
de pensar no que Capote, outro mau escritor, disse
sobre mim: ele apenas datilografa. às vezes mesmo
maus escritores dizem a verdade.
8.
meu problema, como o da maioria, é o preciosismo artístico. eu
existo, cheio de batatas fritas e glória
e então eu olho em volta, vejo a forma da Arte, mergulho
nela e digo o quão excelente eu sou e o que penso.
este é o mesmo aborrecimento que quase des-
truiu a arte ao longo dos séculos. fiz uma vez uma gravação
de minha leitura dos meus poemas para um leão no zoológico. ele realmente
rugiu, como se estivesse sentindo dor. todos os poetas tocam
essa gravação e riem quando ficam bêbados.
9.
lembra-se do meu romance sobre a cadeia em que
fotos de heróis e de amantes flutuavam contra as
paredes de pedra?
eu me tornei famoso. cheguei até aqui.
me aborreço com os motociclistas negros do Valley
West e Bakersfield
que me tomaram a fama e a esmagaram
e me fizeram sorver sua demência e sua solidão
e seus sonhos de Cadillac alma branca e
Cadillac alma negra
e eles encheram meu rabo de creme
e minhas narinas e meus ouvidos
enquanto eu dizia, Comunismo, Comunismo
e eles escarneciam e sabiam que eu não falava a sério.
Puxe Uma Corda, a Marionete Se Move...
cada homem deve perceber
que tudo pode desaparecer depressa
demais:
o gato, a mulher, o emprego,
o pneu da frente,
a cama, as paredes, o
quarto; todas as nossas necessidades
incluindo o amor,
apoiam-se sobre fundações de areia –
e qualquer causa,
não importa o quão aleatória:
a morte de um garoto em Hong Kong
ou uma nevasca em Omaha...
pode estar no lugar do que você não fez.
toda sua porcelana se espatifando no
chão da cozinha, sua garota entrará
e você estará ali parado, bêbado,
no meio de tudo e ela vai perguntar:
meu deus, o que está acontecendo?
e você responderá: eu não sei,
eu não sei...
Queimado
o garoto voltou para Nova York para viver com uma mulher
que ele conhecera num kibutz.
ele deixou a mãe aos 32
anos, um camarada bem cuidado, bom senso de humor e
nunca usava o mesmo par de cuecas
por mais de um dia, lá estava ele
na zona porto-riquenha, ela tinha um
emprego. ele queria barras de ferro nas janelas e
comia muito frango frito às 10
da manhã depois que ela saía para
trabalhar. ele tinha algum dinheiro guardado ao longo dos
anos e ele trepava mas sentia um medo
tremendo de
boceta.
eu estava sentado com Eileen em Hollywood
e disse:
preciso alertar o garoto
de modo que quando ela vier para cima
ele esteja
preparado.
não, ela disse, deixe-o ser feliz.
eu deixei-o ser
feliz.
agora ele voltou a morar com a
mãe, ele pesa cento e quarenta quilos
e come o tempo inteiro
e ri o tempo inteiro
mas você precisa ver os olhos
dele...
os olhos estão assentados no meio de toda aquela
carne...
ele morde uma coxinha de galinha:
eu amei aquela mulher, ele me diz.
eu amei.
Inferno Não Guarda Nenhuma Fúria...
ela estava esperando em seu fusca laranja
enquanto eu caminhava pela rua
com 2 fardos e meio litro de uísque
e ela saltou do carro
e começou a agarrar as garrafas de cerveja e
espatifá-las contra a calçada
e ela apanhou o uísque e
também o espatifou,
dizendo: ah, então você ia embebedar ela
com isso tudo e depois meter nela!
continuei até a entrada onde a outra mulher
estava na metade dos degraus,
então ela veio correndo da rua
e escada acima e acertou a outra mulher
com a bolsa, dizendo:
ele é meu homem! ele é meu homem!
e então ela saiu correndo e
pulou dentro do fusca laranja
e arrancou dali.
busquei uma vassoura
e comecei a varrer os cacos de vidro
quando escutei um som
e lá estava o fusca laranja
avançando por sobre a calçada
e sobre mim –
mal consegui dar um salto e me colar contra uma parede
enquanto o carro passava.
então voltei a pegar a vassoura e a varrer
os cacos mais uma vez,
e de repente ela estava novamente ali;
me tomou a vassoura e a partiu em três
partes.
então ela encontrou uma garrafa de cerveja inteira
e jogou-a através da janela de vidro da porta.
o buraco que se formou era perfeito
e a outra mulher gritou para mim da
escada: pelo amor de Deus, Bukowski, vá com
ela!
eu entrei dentro do fusca laranja e nós
seguimos juntos dentro do carro.
Mais Potente do Que de Carne Moída Com Batata –
o movimento do coração humano:
estrangulado no Missouri;
recoberto por cera quente em Boston;
assado feito batata em Norfolk;
perdido nas Montanhas Allegheny;
encontrado mais uma vez numa cama de mogno com dossel
em Nova Orleans;
ensopado e moído com feijões-rajados
em El Paso;
suspenso numa cruz como um cão embriagado
em Denver;
cortado ao meio e tostado em
Kalamazoo;
tomado de câncer num barco pesqueiro
para além da costa do México;
enganado e encurralado em Daytona Beach;
chutado por uma babá
usando um vestido verde e branco de algodão,
que atende mesas numa rodoviária
da Carolina do Norte;
besuntado em azeite e mijo de cabra
por uma puta enxadrista no East Village;
pintado de vermelho, branco e azul
por um ato do Congresso;
torpedeado por uma loira aguada
com o maior rabo em Kansas;
estripado e barbarizado por uma mulher
com a alma de um touro
em East Lansing;
petrificado por uma garota de dedos minúsculos,
faltava a ela um dente,
um da frente na arcada superior, e bombeando gás
em Mesa;
o movimento do coração humano segue
e segue
e segue e segue
por algum tempo.
Ritmo Acelerado
voltei cansadíssimo com um dedo decepado e geada
nos pés e o relâmpago despencando pelo papel de parede;
enforcaram três homens nas ruas e o prefeito estava bêbado
de doces, e afundaram a maldita frota e os abutres
fumavam charutos Havana; ok, posso ver onde certa beldade
banhada cortou seu pulso esquerdo e a encontraram em estado
de coma no quarto dela – provavelmente sofrendo de amor
por minha causa, mas preciso me mudar dessa cidade: achei que eu fosse um
rapaz tranquilão, uma rocha, mas acabo de descobrir um
cabelo grisalho acima da
minha orelha esquerda.
Incapazes de Sonhar
velhas e grisalhas garçonetes
à noite nos cafés
já desistiram,
e enquanto eu avanço por calçadas
luminosas e olho através das janelas
das casas de repouso
posso ver que alguma coisa não está mais
com eles.
vejo pessoas sentadas nos bancos dos parques
e posso ver pelo modo como
sentam e olham
que essa coisa se foi.
vejo pessoas dirigindo carros
e vejo pelo modo como
dirigem seus carros
que eles não amam nem sequer são
amados –
nem levam o sexo em
consideração. está tudo apagado
feito um filme antigo.
vejo pessoas em lojas de departamento e
supermercados
caminhando pelos corredores
comprando coisas
e posso ver pelo jeito como vestem suas
roupas e pelo modo como caminham
e por seus rostos e olhos
que não se importam com nada
e que nada se importa
com eles.
posso ver umas cem pessoas por dia
que desistiram de tudo
completamente.
se vou até o hipódromo
ou a um evento esportivo
posso ver milhares
que não têm apreço por nada ou
ninguém
e não obtêm nenhum sentimento
em troca.
em toda parte eu vejo aqueles
implorando por nada além de
comida, abrigo, e
roupas; eles se concentram
nisso,
incapazes de sonhar.
não consigo entender por que essas pessoas não
desaparecem
não consigo entender por que essas pessoas não
expiram
por que as nuvens
não os assassinam
ou por que os cães
não os assassinam
ou por que as flores e as crianças
não os assassinam,
não consigo entender.
suponho que eles sejam assassinados
ainda que não consiga me adequar
ao fato deles
porque eles são
muitos.
a cada dia,
a cada noite,
há mais deles
nos metrôs e
nos prédios e
nos parques
eles não sentem nenhum terror
por não amarem
ou não
serem amados
tantos tantos tantos
de meus camaradas
humanos.
Metido de Novo Em Alguma Enrascada Impossível
e o cara do pé grande, o imbecil, nem se mexeu
enquanto eu passava entre os bancos; naquela noite na festinha
de dança típica Elmer Whitefield perdeu um dente brigando com o grande
Eddie Green;
a gente pega o rádio dele e o relógio dele, disseram,
apontando para mim, ianque desgraçado; mas não sabiam
que eu era um poeta insano e fiquei lá encostado bebendo vinho
e amando todas as mulheres deles
com meus olhos, e eles ficaram assustados e intimidados
como vaquinhas de cidade pequena
tentando bolar um jeito de me matar
mas primeiro
tolamente
precisando de um motivo; eu poderia ter contado a eles
como não muito tempo atrás
eu quase matara por falta de motivo;
em vez disso, peguei o ônibus das 8:15
para Memphis.