Escritas

Lista de Poemas

9

Ébrio de terebentina e longos beijos,
entorpecido, o veleiro das rosas dirijo,
voltado para a morte do delgado dia,
Cimentado no sólido frenesi marinho.

Pálido e amarrado à minha água devorante
atravesso o aroma acre do clima descoberto,
ainda vestido de gris e de sons amargos,
e de uma crista triste de espuma abandonada.

Vou, rijo de paixões,montado em minha onda única,
lunar, solar, ardente e frio, repentino,
adormecido na garganta das fortunosas
ilhas brancas e doces como tenros quadris.

Treme na noite úmida meu traje de beijos
loucamente impregnado de cargas elétricas,
heroicamente dividido em sonhos
e rosas embriagantes atando-se a mim.

Água acima, em meio a ondas externas,
a meus braços sujeitas teu corpo paralelo
como um peixe infinitamente preso à minha alma
rápido e lento na energia subceleste.
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O Tempo Que Não Se Perdeu

Não se contam as ilusões
nem as compreensões amargas,
não há medida para contar
o que não podia acontecer-nos,
o que nos rondou como besouro
sem que tivéssemos percebido
do que estávamos perdendo.
 
Perder até perder a vida
é viver a vida e a morte
não são coisas passageiras
mas sim constantes, evidentes,
a continuidade do vazio,
o silêncio em que cai tudo
e por fim nos mesmos caímos.
 
Ai! o que esteve tão cerca
sem que pudéssemos saber.
Ai! o que não podia ser
quando talvez podia ser.
 
Tantas asas circunvoaram
as montanhas da tristeza
e tantas rodas sacudiram
a estrada do destino
que já não há nada a perder.
 
Terminaram-se os lamentos.
 
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Chegaram Uns Argentinos

Chegaram uns argentinos,
eram de Jujuy-e Mendoza,
um engenheiro, um médico,
três filhos como três uvas.
Eu não tinha nada que dizer.
Tampouco meus desconhecidos.
Então não nos dissemos nada.
Só respiramos juntos
o ar brusco do Pacífico sul,
o ar verde
da pampa líquida.
Talvez o levaram de volta
às suas cidades
como quem leva um cão de outro pais,
ou umas asas estranhas,
uma ave palpitante.
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4

Eis a manhã cheia de tempestade
no coração do verão.

Como lenços brancos de adeus viajam as nuvens,
e o vento sacode-as com suas mãos viajantes.

Inumerável coração do vento
batendo em nosso silêncio enamorado.

Zunindo entre as árvores, orquestral e divino,
como uma língua cheia de guerras e de cantos.

Vento que leva num rápido arroubo a folhagem
e desvia as flechas latentes dos pássaros.

Vento que derruba em onda sem espuma
e substância sem peso, e fogos inclinados.

Irrompe e submerge seu volume de beijos
batendo na porta do vento do verão.
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O Sonho

Caminhando nas areias
decidi deixar-te.

Pisava um barro obscuro
que estremecia,
e afundando-me e voltando a sair,
decidi que saísses
de mim, que me eras pesada
como pedra cortante,
e planeei a tua perda
passo a passo:
cortar-te as raízes,
soltar-te sozinha ao vento.

Ai nesse minuto
coração meu, um sonho
com as suas asas terríveis
cobria-te.

Sentias-te engolida pelo barro,
e chamavas-me e eu não te acudia,
ias, imóvel,
sem defesa
até te afogares na língua de areia.

Depois
a minha decisão cruzou-se com o teu sonho,
e dessa ruptura
que nos partia a alma
surgimos de novo limpos, nus,
amando-nos
sem sonho, sem areia,
completos e radiantes,
selados pelo fogo.
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XXXIII

E por que o sol é tão mau amigo
do caminhante do deserto?

E por que o sol é tão simpático
no jardim do hospital?

São pássaros ou são peixes
nestas redes da lua?

Foi onde que a mim me perderam
que logrei enfim me encontrar?
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Enigmas Para Intranquilos

Pelos dias do ano que virá
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.

Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.

Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.

E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.
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Buscar

Do ditirambo à raiz do mar
se estende um novo tipo de vazio;
não quero mais, diz a onda,
que não sigam falando,
que não siga crescendo
a massa do concreto
na cidade;
estamos sozinhos,
queremos gritar por fim,
mijar frente ao mar,
ver sete pássaros da mesma cor,
três mil gaivotas verdes,
buscar o amor na areia,
sujar os sapatos,
os livros, o chapéu, o pensamento
até encontrar-te, nada,
até beijar-te, nada,
até cantar-te, nada,
nada sem nada, sem fazer
nada, sem terminar
o verdadeiro.
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8

Abelha branca zumbe, ébria de mel em minh’alma
e te torce em lentas espirais de fumo.

Sou o desesperado, a palavra sem eco,
o que perdeu tudo, e o que tudo teve.

Última amarra, estala em ti minha ansiedade última.
Em minha terra deserta és a última rosa.

Ah silenciosa!

Cerra teus olhos profundos. Lá esvoaça a noite.
Ah! Despe teu corpo de estátua temerosa.

Tens olhos profundos onde se agita a noite.
Frescos braços de flor e regaço de rosa.

Teus seios parecem os caracóis brancos.
Veio dormir em teu ventre uma mariposa de sombra.

Ah silenciosa!

Eis aqui a solitude de onde estás ausente.
Chove. O vento do mar caça gaivotas errantes.

A água anda descalça pelas ruas molhadas.
Daquela árvore queixam-se, meio enfermas, as folhas.

Abelha branca, ausente, zunindo em minha alma.
Renasces no tempo, delgada e silenciosa.

Ah silenciosa!
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5

Para que tu me ouças
minhas palavras
se adelgaçam às vezes
como as pegadas das gaivotas nas praias.

Colar, cascavel ébria
para tuas mãos suaves como as uvas.

E miro distantes minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando em minha velha dor como as heras.
Elas trepam assim pelas paredes úmidas.
És tu a culpada deste jogo sangrento.
Elas estão fugindo de minha caverna escura.
Tudo preenches tu, tudo preenches.

Povoaram antes de ti a solitude que ocupas,
e estão mais que tu habituadas à minha tristeza.

Quero agora que digam o que quero dizer-te
para que as ouças como quero que me ouças.

O vento da angústia tem por costume arrastá-las.
Furacões de sonhos também tombam-nas às vezes.

Escuta outras vozes em minha voz dolorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me,companheira. Não me abandones.Segue-me.
Segue-me, companheira, nessa onda de angústia.

Vão se tingindo do teu amor minhas palavras.
Tudo ocupas tu, tudo ocupas.

Vou fazendo de todas um colar infinito
para tuas mãos brancas, suaves como as uvas.
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