Escritas

Lista de Poemas

3

Ah vastidão de pinhos, rumor de ondas quebrando,
lento jogo das luzes, campana solitária,
crepúsculo caindo em teus olhos, boneca,
caracol terrestre, em ti a terra canta!

Em ti os rios cantam e minha alma neles se perde
tal como tu desejas e para onde tu queres.
Marca meu caminho em teu arco de esperança e
soltarei em delírio uma revoada de flechas.

Em torno de mim vejo tua cintura de névoa
e teu silêncio acossa mias horas perseguidas,
e és com teus braços de pedra transparente onde os
meus beijos ancoram e a minha úmida ânsia aninha.

Ah tua voz misteriosa que o amor tinge e dobra
no entardecer ressonante e moribundo!
Assim em horas profundas sobre os campos tenho visto
dobrarem-se as espigas na boca do vento.
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Manhã Com Ar

Do ar livre prisioneiro vai
um homem no meio da manhã
como um globo de cristal.
Que pode saber e conhecer
se está encerrado como um peixe
entre o espaço e o silêncio,
se as folhagens inocentes
lhe escondem as moscas do mal?

Ê meu dever de sacerdote,
de geógrafo arrependido,
de naturalista enganado,
abrir os olhos do viageiro.

Paro no meio do caminho
e detenho sua bicicleta:

Olvidas, digo-lhe, vilão,
ignorante cheio de oxigênio,
o tugúrio das desditas
e os rincões humilhados?

Ignoras que ali com punhal,
aqui com garrote e pedrada,
mais além com revólver negro
e em Chicago com tenazes
se assassinam as alimárias,
se despedaçam as pombas
e se degolam as melancias?

Arrepende-te do oxigênio,
disse ao viageiro surpreendido,
não se tem direito de entregar a vida
à exclusiva transparência.
E preciso entrar na casa escura,
entrar no beco da morte,
tocar o sangue e o terror,
compartir o mal espantoso.

O transeunte me cravou
seus dois olhos incompreensivos
e se afastou na luz do sol
sem responder nem compreender.

E me deixou — triste de mim —
Falando só pelo caminho.


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Declaro Quatro Cães

Declaro quatro cães:
um já está enterrado no jardim,
outros dois me surpreendem,
pequenos destruidores selvagens,
de patas grossas e presas duras
como agulhas de rocha.
E uma cadela grenhuda,
distante,
ruiva em sua cortesia.
Não se sentem seus passos
de ouro suave,
nem sua presença distante.
Só ladra tarde da noite
para certos fantasmas,
para que só certos ausentes
escolhidos
a ouçam nos caminhos
ou em outros lugares escuros.
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2

Em sua chama mortal a luz te envolve.
Absorta, doente pálida, assim voltada
contra as velhas hélices do crepúsculo
que em torno de ti dá voltas.

Muda, minha amiga,
Só na solidão desta hora de mortes
e cheia das vidas do fogo,
pura herdeira do dia destruído.

Do sol cai um cacho em teu vestido escuro.
Da noite as grandes raízes
crescem de súbito de tua alma,
e ao exterior regressam as coisas em ti ocultas,
de modo que um povo pálido e azul
de ti recém nascido se alimenta.

Ó grandiosa e fecunda e magnética escrava
círculo que em negro e dourado aparece:
erguida, tece e goza uma criação tão viva
que sucumbem tuas flores, e és plena de tristeza.
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Aliança (Sonata)

Nem o coração cortado por um vidro
num campo de espinhos,
nem as águas atrozes vistas nos cantos
de certas casas, águas como pálpebras e olhos,
poderiam sujeitar a tua cintura nas minhas mãos
quando o meu coração ergue as suas azinheiras
para o teu inquebrantável fio de neve.

Nocturno açúcar, espírito
das coroas,
redimida,
sangue humano, os teus beijos
desterram-me,
e um golpe de água com restos do mar
golpeia os silêncios que te esperam
rodeando as cadeiras gastas, gastando portas.

Noites com eixos claros,
partida, material, unicamente
voz, unicamente
nua em cada dia.
Sobre os teus seios de curso imóvel,
sobre as tuas pernas de dureza e água,
sobre a permanência e o orgulho
do teu cabelo nu,
quero estar, meu amor, já atiradas as lágrimas
para o áspero cesto onde se acumulam,
quero estar, meu amor, só com uma sílaba
de prata despedaçada, só com uma ponta
do teu seio de neve.

Já não é possível, às vezes,
ganhar a não ser caindo,
já não é possível, entre dois seres
tremer, tocar a flor do rio:
fibras de homem vêm como agulhas,
tramitações, pedaços,
famílias de coral repulsivo, tormentas
e duras travessias pelas passadeiras
de inverno.

Entre lábios e lábios há cidades
de grande cinza e húmida crista,
gotas de quando e como, indefinidas
circulações:
entre lábios e lábios como por uma costa
de areia e vidro, o vento passa.

Por isso és sem fim, recolhe-me como se fosses
toda solenidade, toda nocturna
como uma zona, até te confundires
com as linhas do tempo.

Avança na doçura,
vem ao meu lado até que as digitais
folhas dos violinos
se tenham calado, até que os musgos
ganhem raiz no trovão, até que do pulsar
de mão e mão as raízes baixem.
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Uma Estátua No Silêncio

Tanto ocorre no vozerio,
tantos sinos foram escutados
quando amavam ou descobriam
ou quando se condecoravam
que desconfiei da algazarra
e vim para viver a pé
nesta zona de silêncio.

Quando despenca uma ameixa,
quando uma onda desmaia,
quando rodam meninas douradas
na molície da areia,
ou quando uma sucessão
de aves imensas me precede,
em minha calada exploração
não sonha nem uiva nem troveja,
não se sussurra nem murmura:
por isso me quedei vivendo
na música do silêncio.

O ar está mudo ainda,
os automóveis resvalam
sobre algodões invisíveis
e as multidões políticas
com ademanes enluvados
transcorrem em um hemisfério
onde não voa uma mosca.
As mulheres mais tagarelas
afogaram-se nos tanques
ou navegam como os cisnes,
como as nuvens no céu,
e vão os trens do verão
repletos de frutas e bocas
sem um apito nem uma roda
que range, como ciclones
encadeados ao silêncio.

Os meses são como cortinas,
como taciturnas alfombras:
bailam aqui as estações
até que dorme no salão
a estátua imóvel do inverno.

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Gatos Noturnos

Quantas estrelas tem um gato
me perguntaram em Paris
e comecei tigre por tigre
a espreitar as constelações:
porque dois olhos espreitantes
são palpitações de Deus
os olhos frios do gato
e duas centelhas no tigre.

Mas é uma estrela a cauda
de um gato eriçado no céu
e é um tigre de pedra azul
a noite azul de Antofagasta.

A noite gris de Antofagasta
se eleva sobre as esquinas
como uma derrota elevada
sobre a fadiga terrestre
e sabe-se que é o deserto
o outro rosto da noite
tão infinita, inexplorada
como o não ser das estrelas.

E entre as duas taças da alma
cintilam os minerais.

Nunca vi um gato no deserto:
a verdade é que nunca tive
para dormir mais companhia
que as areias da noite,
as circunstâncias do deserto
ou as estrelas do espaço.

Porque assim não são e assim são
minhas pobres averiguações.

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Recordações da Amizade

Era uma tal obstinação
a de meu amigo Rupertino
que dedicou seu desinteresse
a empresas sempre inúteis:
explorou reinos explorados,
fabricou milhões de buracos,
abriu um clube de viúvas heróicas
e vendia fumaça engarrafada.

Eu desde criança me fiz de Sancho
contra meu sócio quixotesco:
argumentei com força e prudência
como uma tia protetora
quando quis plantar laranjeiras
nos tetos de Notre Dame.
Logo, cansado de aturá-lo,
eu o deixei em nova indústria:
“Bote Ataúde”, “Lancha Sarcófago”
para presuntos suicidas.
Minha paciência não aguentou
e abandonei sua vizinhança.

Quando meu amigo foi eleito
Presidente de Costaragua
me nomeou Generalissimo,
a cargo de seu território:
era sua ordem invadir
as monarquias cafeeiras
regidas por reis furiosos
que ameaçavam sua existência.

Por fraqueza de caráter
e amizade antiga e pueril
aceitei aquele comando
e com quarenta involuntários
avancei sobre as fronteiras.

Ninguém sabe o que é
morder o pó da derrota:
entre Marfil e Costaragua
derreteram de calor
meus aguerridos combatentes
e eu fiquei só, cercado
por cinquenta reis raivosos.

Voltei arrependido das guerras,
sem título de General.
Busquei meu amigo quixoteiro:
ninguém sabia onde estava.

Logo o encontrei no Canadá
vendendo penas de pinguim
(ave implume por excelência,
o que não tinha importância
para meu compadre obstinado).

No dia em que menos se espere
pode aparecer em sua casa:
acredite em tudo o que conta
porque depois de tudo é ele
o que sempre teve razão.

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Rechaça Os Relâmpagos

Centelha, tu me dedicaste
a lentidão de meus trabalhos:
com a advertência equinocial
da tua fosfórica ameaça
recolhi minhas preferências,
renunciei ao que não tinha
e encontrei a meus pés e a meus olhos
as abundâncias do outono.

Me ensinou o raio a ser tranquilo,
a não perder luz no céu,
a procurar dentro de mim
as galerias da terra,
a cavar no solo duro
até encontrar na dureza
o mesmo lugar que buscava,
agonizando, o meteoro.

Aprendi a velocidade
para deixá-la no espaço
e de meu lento movimento
fiz uma escola desnecessária
como uma tertúlia de peixes
cujo passeio cotidiano
se desenvolve entre ameaças,
Este é o estilo das profundezas,
do manifesto submarino.
E não o penso desdenhar
por uma lei da centelha:
cada um com seu sinal,
com o que teve neste mundo,
e me remeto à minha verdade
porque me falta uma mentira.

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A Rainha

Nomeei-te rainha.
Há maiores do que tu, maiores.
Há mais puras do que tu, mais puras.
Há mais belas do que tu, há mais belas.

Mas tu és a rainha.

Quando andas pelas ruas
ninguém te reconhece.
Ninguém vê a tua coroa de cristal, ninguém olha
a passadeira de ouro vermelho
que pisas quando passas,
a passadeira que não existe.

E quando surges
todos os rios se ouvem
no meu corpo, sinos
fazem estremecer o céu,
enche-se o mundo com um hino.

Só tu e eu,
só tu e eu, meu amor,
o ouvimos.
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