Escritas

Lista de Poemas

Mais Outro

Eu voltei do fundo do mar
odiando as coisas molhadas:
me sacudi como os cachorros
das ondas que me queriam
e de repente me senti
contente de meu desembarque
e unicamente terrestre.

Os jornalistas dirigiram
sua maquinaria extravagante
contra meus olhos e meu umbigo
para que lhes contasse coisas
como se eu estivesse morto,
como se eu fosse um vulgar
cadáver especializado,
sem levar em conta meu ser
que me exigia caminhar
antes de que eu regressasse
a meus costumes espantosos:
estive a ponto de voltar
a submergir na maré.

Porque minha história se duplica
quando em minha infância descobri
meu depravado coração
que me fez cair no mar
e acostumar-me a ser submarino.

Ali estudei para pintor,
ali tive casa e peixe,
sob as ondas me casei,
já não me lembro quais foram
minhas noivas das profundezas
e o certo é que tudo aquilo
era uma incólume rotina:
me aborrecia com os peixes
sem incidências nem batalhas
e eles pensaram que talvez
eu era um monótono cetáceo.

Quando por imaginação
pisei a areia de Ilha Negra
e vivi como todo o mundo,
me tocam tanto a sineta
e perguntam coisas idiotas
sobre os aspectos remotos
de uma vida tão comum
não sei que fazer para espantar
estes estranhos bisbilhoteiros.

Peço a um sábio que me diga
onde posso viver tranquilo.
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Canto XI - As flores de Punitaqui

I
O vale das pedras ( 1946)

Hoje caíu, 25 de abril,
sobre os campos de Ovalle,
a chuva esperada, a água de 1946.


Nesta primeira quinta-feira molhada, um dia de vapor
constrói sobre os cerros sua cinzenta ferragem.

É esta quinta-feira das pequenas sementes
que em suas bolsas guardaram os camponeses famintos:
hoje apressadamente furarão a terra e nela
deixarão cair seus grãozinhos de verde vida.


Ainda ontem subi o rio Hurtado acima:
acima, entre os ásperos cerros impertinentes,
eriçados de espinhos, pois o grande cacto andino,
como um cruel candelabro, aqui se estabelece.


E sobre seus agrestes espinhos, como vestimenta
escarlate, ou como uma mancha de terrível arrebol,
como sangue dum corpo arrastado sobre mil puas,
as parasitas acenderam as suas lâmpadas sangrentas.


As rochas são imensas bolsas coaguladas
na idade do fogo, sacos cegos de pedra
que rolaram até se fundirem nestas
implacáveis estátuas que guardam o vale.


O rio leva um doce e agônico rumor
de últimas águas entre o salgueiro escuro
multidão de folhagem, e os álamos
deixam tombar em gotas seu delgado amarelo.


É o outono do Norte Pequeno, o atrasado outono.


Pestaneja mais aqui a luz no cacho.


Como uma mariposa, detém-se mais tempo
o transparente sol até coalhar a uva,
e brilham sobre o vale seus panos moscatéis.




II
Irmão Pablo

Mas hoje os camponeses vêem ver-me: “Irmão,
não tem água, irmão Pablo, não tem água, não choveu.


E a corrente miúda
do rio
sete dias circula, sete dias se seca.


Nossas vacas morreram lá em cima na cordilheira.


E a sede começa a matar crianças.

Lá em cima, muitos não têm o que comer.

Irmão Pablo, você vai falar com o ministro”.


(Sim, o irmão Pablo vai falar com o ministro, mas eles não sabem
como me vêem chegar
essas poltronas de couro ignominioso
e depois a madeira ministerial, esfregada
e polida pela saliva bajulante.
)
Mentirá o ministro, esfregará as mãos,
e o gado do pobre comuneiro
com o burro e o cachorro, pelas esfiapadas
rochas, de fome em fome, tombará lá embaixo.




III
A fome e a ira

Adeus, adeus a tua quinta, à sombra
que ganhaste, ao ramo
transparente, à terra consagrada,
ao boi, adeus, à água avara,
adeus, às vertentes, à música
que não chegou na chuva, ao cinto pálido
da ressaca e da pedregosa aurora.


Juan Ovalle, te dei a mão, mão sem água,
mão de pedra, mão de parede e estiagem.

E te disse: à parda ovelha, às mais ásperas
estrelas, à lua como cardo roxo,
amaldiçoa, ao ramo partido dos lábios nupciais,
mas não toques no homem, não derrames ainda o homem
ferindo-lhe as veias, não tinjas ainda a areia,
não acendas ainda o vale com a árvore
dos tombados ramos arteriais.


Juan Ovalle, não mates.
E tua mão
me respondeu: “Estas terras
querem matar, buscam de noite
vingança, o velho vento ambarino
na amargura é vento de veneno,
e a guitarra é como um quadril
de crime, e o vento é uma faca”.




IV
Tiram-lhes a terra

Porque atrás do vale e da seca,
detrás do rio e da delgada folha,
espreitando o torrão e a colheita,
o ladrão de terras.


Olha que árvore de ressoante púrpura
contempla seu estandarte avermelhado,
e atrás de sua estirpe matutina,
o ladrão de terras.


Ouves como o sal do arrecife
o vento de cristal nas nogueiras,
porém sobre o azul de cada dia
o ladrão de terras.


Sentes entre as capas germinais
pulsar o trigo em sua flecha dourada,
porém entre o pão e o homem há uma máscara:
o ladrão de terras.




V
Aos minerais

Depois, às altas pedras
de sal e de ouro, à enterrada
república dos metais
subi:
eram os doces muros em que uma
pedra se amarra com outra,
com um beijo de barro escuro.


Um beijo entre pedra e pedra
pelos caminhos tutelares,
um beijo de terra e terra
entre as grandes uvas vermelhas,
e como um dente junto a outro dente
a dentadura da terra,
as paredes de matéria pura,
as que levam o interminável
beijo das pedras do rio
aos mil lábios do caminho.


Subamos da agricultura ao ouro.

Tendes aqui os altos pedernais.


O peso da mão é como uma ave.

Um homem, uma ave, uma substância de ar,
de obstinação, de vôo, de agonia,
uma pálpebra talvez, mas um combate.


E de lá no transversal berço do ouro,
em Punitaqui, frente a frente
com os calados sapadores
da picareta, da pá, vem,
Pedro, com tua paz de couro,
vem, Ramírez, com tuas abrasadas
mãos que indagaram o útero
das cerradas minerações,
salve, nas grades, nos
calcários subterrâneos
do ouro, abaixo em suas matrizes,
ficaram as vossas digitais
ferramentas marcadas com fogo.




VI
As flores de Punitaqui

Era dura a pátria lá como antes.

Era um sal perdido o ouro,
era
um peixe enrubescido e no torrão colérico
seu pequeno minuto triturado
nascia, ia nascendo das unhas sangrentas.


Entre a alva corno uma amendoeira fria,
sob os dentes das cordilheiras,
o coração perfura seu buraco,
rastreia, toca, sofre, sobe, e na altura
mais essencial, mais planetária, chega
com a camiseta rasgada.


Irmão de coração queimado,
junta em minha mão esta jornada,
e baixemos uma vez mais às camadas adormecidas
em que tua mão como uma tenaz
agarrou o ouro vivo que queria voar
ainda mais profundo, ainda mais abaixo, ainda.


E lá como umas flores
as mulheres de lá, as chilenas de cima,
as minerais filhas da mina,
um ramo entre as minhas mãos, umas flores
de Punitaqui, umas rubras flores,
gerânios, flores pobres
daquela terra dura,
depositaram em minhas mãos como
se tivessem sido achadas na mina mais funda,
se aquelas flores filhas da água rubra
voltassem lá do fundo sepultado do homem.


Peguei suas mãos e suas flores, terra
despedaçada e mineral, perfume
de pétalas profundas e dores.

Soube ao olhá-las de onde vieram
até a solidão dura do ouro,
me mostraram como gotas de sangue
as vidas derramadas.


Eram em sua pobreza
a fortaleza florescida, o ramo
da ternura e seu metal remoto.


Flores de Punitaqui, artérias, vidas, junto
a meu leito, na noite, vosso aroma
se ergue e me guia pelos mais subterrâneos
corredores do luto
pela altura perfurada, pela neve, e ainda
pelas raízes que só as lágrimas alcançam.


Flores, flores da altura,
flores de mina c pedra, flores
de Punitaqui, filhas
do amargo subsolo: em mim, nunca olvidadas,
ficastes vivas, construindo
a pureza imortal, uma corola
de pedra que não morre.




VII
O ouro

Teve o ouro esse dia de pureza.

Antes de mergulhar de novo sua estrutura
na suja saída que o aguarda,
recém-chegado, recém-desprendido
da solene estátua da terra,
foi depurado pelo fogo, envolto
pelo suor e as mãos do homem.


Lá se despediu o povo do ouro.

E era terrestre o seu contacto, puro
como a matriz cinzenta da esmeralda.

Igual era a mão suarenta
que recolheu o lingote emaranhado
ao cepo de terra reduzida
pela infinita dimensão do tempo,
à cor terrenal das sementes,
ao solo poderoso dos segredos,
à terra que lavra os racimos.


Terras do ouro sem manchar, humanos
materiais, metal imaculado
do povo, virginais minerações,
que se tocam sem se verem na implacável
encruzilhada de seus caminhos:
o homem continuará mordendo o pó,
continuará sendo terra pedregosa,
e ouro subirá sobre seu sangue
até ferir e reinar sobre o ferido.




VIII
O caminho do ouro

Entrai, senhor, comprai pátria e terreno,
casas, bênçãos, ostras,
tudo se vende aqui aonde chegastes.

Não há torre que não caia em vossa pólvora,
não há presidência que rechace nada,
não há rede que não reserve o seu tesouro.


Como somos tão “livres” como o vento,
podeis comprar o vento, a cachoeira,
e na desenrolada celulose
ordenar as impuras opiniões,
ou recolher amor sem alvitre,
destronado no linho mercenário.


O ouro mudou de roupa usando
formas de trapo, de papel puído,
frios fios de lâmina invisível, cinturões de dedos enroscados.


À donzela em seu novo castelo
levou o pai de aberta dentadura
o prato de cédulas
que devorou a bela disputando-o
no chão e a golpes de sorriso.

Ao bispo subiu a investidura
dos séculos de ouro, abriu a porta
dos juízes, manteve as alfombras,
fez tremer a noite nos bordéis,
correu com os cabelos no vento.


(Eu vivi a idade em que reinava.

Eu vi consumida podridão,
pirâmides de esterco angustiadas
pela honra: conduzidos e trazidos
césares da chuva purulenta,
convencidos do peso que punham
nas balanças, rígidos
bonecos da morte, calcinados
por sua cinza dura e devorante.
)



IX

Fui além do ouro:
entrei na greve.

Lá durava o fio delicado
que une os seres, lá o cordão puro
do homem está vivo.

A morte os mordia,
o ouro, ácidos dentes e veneno
lançava para eles, mas o povo
pôs os seus pedernais na porta,
foi torrão solidário que deixava
transcorrer a ternura c o combate
como duas águas paralelas,
fios
das raízes, ondas da estirpe.


Vi a greve nos braços reunidos
que apertam o desvelo
e em uma pausa trêmula de luta

vi pela primeira vez o único vivo!
A unidade das vidas dos homens!

Na cozinha da resistência
com seus fogões pobres, nos olhos
das mulheres, nas mãos insignes
que com torpor se inclinavam
para o ócio de um dia
como em um mar azul desconhecido,
na fraternidade do pão escasso,
na reunião inquebrantável, em todos
os germes de pedra que surgiam,
naquela romã valorosa
elevada no sal do desamparo,
achei por fim a fundação perdida,
a remota cidade da ternura.




X
O poeta

Antes andei pela vida, em meio
a um amor doloroso: antes retive
uma pequena página de quartzo
cravando-me os olhos na vida.


Comprei bondade, estive no mercado
da cobiça, respirei as águas
mais surdas da inveja, a inumana
hostilidade de máscaras e seres.

Vivi um mundo de lamaçal marinho
no qual a flor de súbito, a açucena
me devorava em tremor de espuma,
e onde pus o pé resvalou minha alma
pelas dentaduras do abismo.

Assim nasceu minha poesia, apenas
resgatada de urtigas, empunhada
sobre a solidão como um castigo,
ou apartou no jardim da impudicícia
sua mais secreta flor até enterrá-la.

Asilado assim como a água sombria
que vive em seus profundos corredores,
corri de mão em mão, ao insulamento
de cada ser, ao ódio cotidiano.

Soube que assim viviam, escondendo
a metade dos seres, como peixes
do mais estranho mar, e nas lodosas
imensidades encontrei a morte.

A morte abrindo portas e caminhos.

A morte deslizando pelos muros.




XI
A morte no mundo

A morte ia mandando e recolhendo
em lugares e tumbas seu tributo:
o homem com punhal ou com bolso,
ao meio-dia ou na luz noturna,
esperava matar, ia matando,
ia enterrando seres e ramagens,
assassinando e devorando mortos.

Preparava as suas redes, esmagava,
sangrava, saía nas manhãs
cheirando o sangue da caçada,
e ao voltar de seu triunfo estava envolto
por fragmentos de morte e desamparo,
e então matando-se enterrava
com cerimônia funeral os seus passos.


As casas dos vivos eram mortas.

Escória, tetos rotos, urinóis,
vermiculadas ruelas, covas
acumuladas com o pranto humano.

- Assim deves viver - disse o decreto.

- Apodrece em tua substância - disse o chefe.

- És imundo - arrazoou a Igreja.

- Estende-te no lodo - te disseram.

E uns tantos armaram a cinza
para que ela governasse e decidisse,
enquanto a flor do homem se batia
contra as paredes que lhe construíram.


O cemitério teve pompa e pedra.

Silêncio para todos e estatura
de vegetais altos e afiados.


Por fim estás aqui, por fim nos deixas
um vazio nu meio da selva amarga,
por fim te encontras teso entre paredes
que não transpassarás.
E cada dia
as flores como um rio de perfume
se juntaram ao rio dos mortos.

As flores que a vida não tocava
caíram sobre o vazio que deixaste.




XII
O homem

Aqui encontrei o amor.
Nasceu na areia,
cresceu sem voz, tocou os pedernais
da dureza e resistiu à morte.

Aqui o homem era vida que juntava
a intacta luz, o mar sobrevivente,
e atacava e cantava e combatia
com a mesma unidade dos metais.

Aqui os cemitérios eram terra
apenas erguida, cruzes partidas,
sobre cujas madeiras derretidas
adiantavam-se os ventos arenosos.




XIII
A greve

Estranha era a fábrica inativa.

Um silêncio na planta, uma distância
entre máquinas e homem, como um fio
cortado entre planetas, um vazio
das mãos do homem que consomem
o tempo construindo, e as desnudas
estâncias sem trabalho e sem um som.

Quando o homem deixou as tocas
da turbina, quando desprendeu
os braços da fogueira e decaíram
as entranhas do forno, quando tirou os olhos
da roda e a luz vertiginosa
se deteve em seu círculo invisível,
de todos os poderes poderosos,
dos círculos puros de potência,
da energia surpreendedora,
ficou um montão de inúteis aços
e nas salas sem homem, o ar viúvo,
o solitário aroma do azeite.


Nada existia sem aquele fragmento
batido, sem Ramírez,
sem o homem de roupa rasgada.

Lá estava a pele dos motores,
acumulada em morto poderio,
como negros cetáceos no fundo
pestilento dum mar sem ondulação,
ou montanhas escondidas de repente
sob a solidão dos planetas.




XIV
O povo

Passeava o povo suas bandeiras rubras
e entre eles na pedra que tocaram
estive, na jornada fragorosa
e nas altas canções da luta.

Vi como passo a passo conquistavam.

Somente a resistência dele era caminho,
e isolados eram como troços partidos
duma estrela, sem boca e sem brilho.

Juntos na unidade feita em silêncio,
eram o fogo, o canto indestrutível,
o lento passo do homem na terra
feito profundidades e batalhas.

Eram a dignidade que combatia
o que foi pisoteado, e despertava
como um sistema, a ordem das vidas
que tocavam as portas e se sentavam
na sala central com suas bandeiras.




XV
A letra

Assim foi.
E assim será.
Nas serras
calcárias, à beira
da fumaça, nas oficinas,
há uma mensagem escrita nas paredes
e o povo, só o povo, pode vê-la.

Suas letras transparentes se formaram
com suor e silêncio.
Estão escritas.

Amassaste-as, povo, em teu caminho
e estão sobre a noite como o fogo
abrasador e oculto da aurora.

Entra, povo, nas margens do dia.

Anda como um exército, reunido,
e bate a terra com teus passos
e com a mesma identidade sonora.

Seja uniforme o teu caminho como
é uniforme o suor da batalha,
uniforme o sangue poeirento
do povo fuzilado nos caminhos.


Sobre esta claridade irá nascendo
a granja, a cidade, a mineração,
e sobre esta unidade como a terra
firme e germinadora se há disposto
a criadora permanência, o germe
da nova cidade para as vidas.

Luz dos grêmios maltratados, pátria
amassada por mãos metalúrgicas,
ordem que saiu dos pescadores
como um ramo do mar, muros armados
pela alvenaria transbordante,
escolas cereais, armaduras
de fábricas amadas pelo homem.

Paz desterrada que regressa, pão
compartilhado, aurora, sortilégio
do amor terrenal, edificado
sobre os quatro ventos do planeta.

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Canto XII - Os Rios do Canto

I
Carta a Miguel Otero Silva, em Caracas (1948)

Um amigo me trouxe a tua carta escrita
com palavras invisíveis, sobre sua roupa, em seus olhos.

Como és alegre, Miguel, como somos alegres!
Nada resta num mundo de úlceras estucadas
senão nós, indefinidamente alegres.

Vejo passar o corvo e não me pode fazer mal.

Tu observas o escorpião e limpas a tua guitarra.

Vivemos entre as feras, cantando, e quando tocamos
um homem, a matéria de alguém em quem acreditávamos,
e este homem se desmorona como um pastel podre,
tu em teu venezuelano patrimônio recolhes
o que pode salvar-se, enquanto eu defendo
a brasa da vida.

Que alegria, Miguel!
Me perguntarás onde estou? Te contarei
- dando só detalhes úteis ao governo -
que nesta costa cheia de pedras selvagens
unem-se o mar e o campo, ondas e pinheiros,
águias e procelárias, espumas e prados.

Já viste de muito perto e o dia todo
como voam os pássaros do mar? É como
se levassem as cartas do mundo a seus destinos.

Passam os alcatrazes como barcos do vento,
outras aves que voam como flechas e trazem
as mensagens dos reis defuntos, dos príncipes
enterrados com fios de turquesa nas costas andinas,
e as gaivotas feitas de brancura redonda,
que esquecem continuamente as suas mensagens.

Como é azul a vida, Miguel, quando pusemos nela
amor e luta, palavras que são o pão e o vinho,
palavras que eles ainda não podem desonrar,
porque nós saímos para a rua de escopeta e cantos.

Eles estão perdidos conosco, Miguel.

Que podem fazer senão matar-nos, e ainda assim
não lhes é um bom negócio, só podem
tratar de alugar um andar diante de nós e seguir-nos
para aprender a rir e a chorar como nós.

Quando eu escrevia versos de amor, que me brotavam
de todos os lados, e me morria de tristeza,
errante, abandonado, roendo o alfabeto,
me diziam: “Como és grande, ó Teócrito!”
Eu não sou Teócrito: tomei a vida,
me pus diante dela, dei-lhe beijos até vencê-la,
e logo me fui pelas vielas das minas
para ver como viviam outros homens.

E quando saí com as mãos manchadas de imundícies e dores,
eu as levantei a mostrá-las nas cordas de ouro,
e disse: “Eu não compartilho do crime”.

Tossiram, ficaram muito desgostosos, me cortaram o cumprimento,
deixaram de me chamar de Teócrito, e acabaram
por me insultar e mandar toda a polícia para prender-me,
porque eu não continuava preocupado exclusivamente de assuntos
[metafísicos.

Mas eu tinha conquistado a alegria.

Desde então me levantei para ler as cartas
que trazem as aves do mar de tão longe,
cartas que chegam molhadas, mensagens que pouco a pouco
vou traduzindo com lentidão e segurança: sou meticuloso
como um engenheiro neste estranho ofício.

E saio de repente à janela.
É um quadrado
de transparência, é pura a distância
de ervas e penhascos, e assim vou trabalhando
entre as coisas que amo: ondas, pedras, vespas,
com uma embriagadora felicidade marinha.

Mas ninguém gosta de que estejamos alegres, a ti te incumbiram
de um papel bonachão: “Mas não exagere, não se preocupe”,
e a mim me quiseram espetar num insectário, entre as lágrimas,
para que estas me afogassem e eles pudessem fazerseus discursos
[em meu túmulo.


Eu me lembro que um dia no pampa arenoso
do salitre, havia quinhentos homens
em greve.
Era a tarde abrasadora
de Tarapacá.
E quando os rostos haviam recolhido
toda a areia e o exangue sol seco do deserto,
vi chegar a meu coração, como uma taça de ódio,
a velha melancolia.
Naquela hora de crime,
na desolação das salinas, nesse minuto débil
da luta, em que poderíamos ter sido vencidos,
uma menina pequenina e pálida chegada das minas
disse com uma voz valente em que se juntavam o cristal e o aço
um poema teu, um velho poema teu que roda entre os olhos enrugados
de todos os operários e lavradores de minha pátria, da América.

E aquele pedaço de teu canto refulgiu de repente
em minha boca como uma flor purpúrea
e desceu pelo meu sangue, enchendo-o de novo
com uma alegria transbordante nascida de teu canto.

E eu pensei não só em ti, mas em tua Venezuela amarga.

Há anos, vi um estudante que tinha nos tornozelos
o sinal das cadeias que um general lhe havia imposto,
e me contou como os acorrentados trabalhavam nos caminhos
e os calabouços onde a gente se perdia.
Porque assim foi a nossa América:
uma planura com rios devoradores e constelações
de mariposas (em alguns lugares, as esmeraldas são espessas
[como maçãs),
porém sempre ao longo da noite e dos rios,
há tornozelos que sangram, antes perto do petróleo,
hoje perto do nitrato, em Pisagua, onde um déspota sujo
enterrou a flor de minha pátria para que morra, e ele
[possa comerciar com os ossos.

Por isso cantas, por isso, para que a América desonrada e ferida
faça tremer as suas mariposas e recolha suas esmeraldas
sem o espantoso sangue do castigo coagulado
nas mãos dos verdugos e dos mercadores.

Eu compreendi como estarias alegre, perto do Orenoco, cantando,
certamente, ou então comprando vinho para a tua casa,
ocupando o teu posto na luta e na alegria,
largo de ombros, como são os poetas deste tempo,
- com roupas claras e sapatos de uso para caminhar.

Desde então, fiquei pensando em escrever-te algum dia,
e quando Guillén chegou, todo cheio de histórias tuas
que se desprendiam de toda a roupa
e que sob as castanheiras de minha casa se derramaram,
me disse: “Agora”, nem assim comecei a escrever-te.

Mas hoje foi demais: passou pela minha janela
não apenas uma ave do mar, mas milhares,
e recolhi as cartas que ninguém lê e que elas levam
pelas praias do mundo, até perdê-las.

E aí, em cada uma lia palavras tuas
e eram como as que eu escrevo e sonho e canto,
e aí decidi enviar-te esta carta, que aqui termino
para olhar pela janela o mundo que nos pertence.




II
A Rafael Alberti
(Puerto de Santa María, Espanha)

Rafael, antes de chegar à Espanha me apareceu a caminho a tua poesia, rosa literal, cacho biselado,
e ela até agora tem sido para mim não uma lembrança
mas uma luz olorosa, emanação de um mundo.


A tua terra ressequida pela crueldade trouxeste
o orvalho que o tempo havia esquecido,
e a Espanha acordou contigo na cintura,
outra vez coroada de aljôfar matutino.


Recordarás o que trazia: sonhos despedaçados
por implacáveis ácidos, permanências
em águas desterradas, em silêncios
de onde as raízes amargas emergiam
como paus queimados no bosque,
Com posso esquecer, Rafael, aquele tempo?
A teu país cheguei como quem cai
em uma lua de pedra, encontrando em todas as partes
águias do agreste, secos espinhos,
mas a tua voz, marinheiro, esperava
para dar-me as boas-vindas e a fragrância
da flor de laranjeira, o mel dos frutos marinhos.


E a tua poesia estava na mesa, nua.


Os pinheirais do sul, as raças da uva
deram a teu diamante cortado suas resinas,
e ao tocar tão formosa claridade, muita sombra
da que traz ao mundo se desfez.


Arquitetura feita na luz, como as pétalas,
através de teus versos de embriagador aroma,
eu vi a água de antanho, a neve hereditária,
e a ti mais que ninguém eu devo a Espanha.

Com teus dedos toquei colméia e páramo,
conheci as praias gastas pelo povo
como por um oceano, e os degraus
em que a poesia foi rasgando
toda a sua vestimenta de safiras.


Tu sabes que só se ensina ao irmão.
E nessa
hora não só aquilo me ensinaste,
não só a apagada pompa de nossa estirpe,
mas a retidão de teu destino,
e quando mais uma vez chegou o sangue à Espanha
defendi o patrimônio do povo que era meu.


Já sabes, já todo mundo sabe estas coisas.

Eu quero somente estar contigo,
e hoje que te falta a metade da vida,
tua terra, a que tens mais direito que uma árvore,
hoje que das desgraças da pátria não só
o luto do que amamos, mas também a tua ausência cobrem
a herança da oliveira que devoram os lobos,
te quero dar, ai!, se pudesse, irmão grande,
a estrelada alegria que então me deste.


Entre nós dois a poesia
se toca como pele celeste,
e contigo gosto de recolher um cacho de uvas,
este pâmpano, aquela raiz das trevas.


A inveja que abre portas nos seres
não pôde abrir a tua porta nem a minha.
És belo
como quando a cólera do vento
desencadeia seu vestido lá fora
e estão o pão, o vinho e o fogo conosco,
deixar que uive o vendedor de fúria,
deixar que silve o que passou entre teus pés,
e levantar a taça cheia de âmbar
com todo o rito da transparência.


Alguém quer esquecer que és o primeiro?
Deixa-o navegar e encontrará o teu rosto.

Alguém quer enterrar-nos precipitadamente?
Está bem, mas tem a obrigação do vôo.


Virão, mas quem pode sacudir a colheita
que com a mão do outono foi erguida
até tingir o mundo com o tremor do vinho?

Dá-me esta taça, irmão, e escuta: estou rodeado
de minha América úmida e torrencial, às vezes
perco o silêncio, perco a corola noturna,
e me rodeia o ódio, talvez nada, o vazio
dum vazio, o crepúsculo
dum cão, duma rã,
e então sinto que tanta terra minha nos separe,
e quero ir a tua casa, em que eu sei, me esperas,
só para sermos bons como só nós
podemos sê-lo.
Não devemos nada.

E a ti, sim, é que devem, e és uma pátria: espera.


Voltarás, voltaremos.
Quero contigo um dia
em tuas ribeiras ir embriagados de ouro
até teus portos, portos do sul que então não atingi.

Me mostrarás o mar onde sardinhas
e azeitonas disputam as areias,
e aqueles campos com os touros de olhos verdes
que Villalón (amigo que também
não veio me ver, pois estava enterrado)
tinha, e os tonéis de xerez, catedrais
em cujos corações gongorinos
arde o topázio com pálido fogo.


Iremos, Rafael, aonde jaz
aquele que com suas mãos e as tuas
a cintura da Espanha sustentava.

O morto que não pôde morrer, aquele a quem guardas,
porque só a tua existência o defende.


Lá está Federico, mas há muitos que, mergulhados, enterrados,
entre as cordilheiras espanholas, tombados
injustamente, derramados,
perdido cereal nas montanhas,
são nossos, e nós estamos em sua argila.


Vives porque sempre foste um deus milagroso.

A ninguém mais que a ti procuraram, queriam
devorar-te os lobos, quebrar teu poderio.

Cada um queria ser verme em tua morte.


Pois bem, se enganaram.
É talvez a estrutura
de tua canção, intacta transparência,
armada decisão de tua doçura,
dureza, fortaleza delicada,
o que salvou teu amor para a tua terra.


Eu irei contigo para provar a água
do Genil, do domínio que me deste,
a olhar na prata que navega
as efígies adormecidas que fundaram
as sílabas azuis de teu canto.


Entraremos também nas forjas: agora
o metal dos povos aí espera
nascer nas facas: passaremos cantando
junto às redes vermelhas que move o firmamento.

Facas, redes, cantos apagarão as dores.

Teu povo levará com as mãos queimadas
pela pólvora, como loureiro dos prados,
o que o teu amor foi debulhando na desgraça.


Sim, de nossos desertos nasce a flor, a forma
da pátria que o povo reconquista com trovões,
e não é um dia só o que elabora
o mel perdido, a verdade do sonho,
mas também cada raiz que se faz canto
até povoar o mundo com as suas folhas.


Lá estás, não há nada que não mova
a lua diamantina que deixaste:
a solidão, o vento nos rincões,
tudo toca o teu puro território,
e os últimos mortos, os que caem
na prisão, leões fuzilados,
e os das guerrilhas, capitães
do coração, estão umedecendo
a tua própria investidura cristalina,
teu próprio coração com suas raízes.


Passou o tempo desde aquele dia em que compartilhamos
dores que deixaram uma ferida radiante,
o cavalo da guerra que com suas ferraduras
atropelou a aldeia destroçando as vidraças.

Tudo aquilo nasceu debaixo da pólvora,
tudo aquilo te aguarda para erguer a espiga,
e nesse nascimento te envolverão de novo
o fumo e a ternura daqueles duros dias.


Vasta é a pele da Espanha e nela a tua espora
vive como uma espada de ilustre punho,
e não há olvido, não há inverno que te apague,
irmão fulgurante, dos lábios do povo.

Assim te falo, esquecendo talvez uma palavra,
respondendo por fim às cartas de que não te lembras
e que quando os climas do leste me cobriram
como aroma escarlate, chegaram
até a minha solidão.

Que teu rosto dourado
encontre nesta carta um dia de outro tempo,
e outro tempo de um dia que virá.

Me despeço
hoje, 1948, 16 de dezembro,
em algum ponto da América na qual canto.




III
A González Carbalho
(no Rio da Prata)

Quando a noite devorou os sons humanos, e desaprumou
sua sombra linha a linha,
ouvimos, no silêncio acrescentado, além dos seres,
o rumor do rio de González Carbalho,
sua água profunda e permanente, seu transcurso que parece
imóvel como o crescimento da árvore ou do tempo.

Este grande poeta fluvial acompanha o silêncio do mundo,
com sonora austeridade, e o que desejar no meio
do tráfego ouvi-lo, que coloque (como faz nos
bosques ou nos lhanos o explorador extraviado) seu ouvido
sobre a terra: e ainda mesmo no meio da rua ouvirá subir
entre os passos do estrondo esta poesia: as vozes
profundas da terra e da água.


Então sob a cidade e seu atropelo, sob as lâmpadas
de fralda escarlate, como o trigo que nasce, irrompendo em
toda latitude, este rio que canta.

Sobre seu leito, assustadas aves de
crepúsculo, gargantas de arrebol que dividem o espaço,
folhas purpúreas que descem.


Todos os homens que se atrevam a olhar a solidão:
os que toquem a corda abandonada, todos os
imensamente puros, e aqueles que da nau escutaram
sal, solidão e noite se reunirem,
ouvirão o coro de González Carbalho surgir alto e cristalino
da sua primavera noturna.

Lembrais outro? Príncipe de Aquitânia: à sua torre abolida
substituiu na hora inicial, o rincão das lágrimas
que o homem milenário extravasou taça a taça.

E que o saiba aquele que não olhou os rostos, o vencedor
ou o vencido:
preocupados pelo vento de safira ou pela taça amarga:
além da rua e rua, além de uma hora,
tocai estas trevas, e continuemos juntos.


Então, no mapa desordenado das pequenas vidas
com tinta azul: o rio, o rio das águas que cantam,
feito da esperança, do padecer perdido,
da água sem angústia que sobe à vitória.


Meu irmão fez este rio:
de seu alto e subterrâneo canto se construíram
estes graves sons molhados de silêncio.

Meu irmão é este rio que rodeia as coisas.


Onde estiverdes, na noite, de dia, a caminho,
sobre os desvelados trens dos prados,
ou junto à empapada rosa da alva fria,
ou ainda
entre as roupas, tocando
o torvelinbo,
caí por terra, que o vosso rosto receba
este grande pulsar de água secreta que circula.


Irmão, és o rio mais longo da terra:
atrás do orbe, soa a tua voz grave de rio,
e eu molho as mãos em teu peito
fiel a um tesouro nunca interrompido,
fiel à transparência da lágrima augusta,
fiel à eternidade agredida do homem.




IV
A Silvestre Revueltas, do México, em sua morte
(Oratório menor)

Quando um homem como Silvestre Revueltas
volta definitivamente à terra,
há um rumor, uma onda
de voz e pranto que prepara e propaga sua partida.

As pequenas raízes dizem aos cereais: “Morreu Silvestre”,
e o trigo ondula o seu nome nas encostas
e logo o pão o sabe.

Todas as árvores da América já o sabem
e também as flores geladas da nossa região ártica.


As gotas d'água o transmitem,
os rios indomáveis da
Araucania já sabem a notícia.

Da nevada ao lago, do lago á planta,
da planta ao fogo, do fogo ao fumo:
tudo o que arde, canta, floresce, dança e revive,
todo o permanente, alto e profundo da nossa América o acolhem,
pianos e pássaros, sonhos e sons, a rede palpitante
que une na aragem todos os nossos climas,
treme e traslada o coro funeral.

Silvestre morreu, Silvestre entrou em sua música total,
em seu silêncio sonoro.


Filho da terra, menino da terra, desde hoje entras no tempo.

Desde hoje o teu nome cheio de música voará quando
[se toque tua pátria, como de um sino,
com um som jamais ouvido, com o som do que foste, irmão.

Teu coração de catedral nos cobre neste instante como o firmamento
e teu canto grande e grandioso, tua ternura vulcânica,
enche toda a altura como uma estátua ardendo.

Por que derramaste a vida? Por que verteste
em cada taça o teu sangue? Por que buscaste
como um anjo cego, ferindo-se pelas portas escuras?

Ah, mas de teu nome sai música
e de tua música, como de um mercado,
saem coroas de louro fragrante
e maçãs de olor e simetria.


Neste dia solene de despedida és tu o despedido,
mas já não ouves,
teu nobre rosto falta e é como se faltasse
uma grande árvore no meio da casa do homem.


Mas a luz que vemos é desde hoje outra luz,
a rua que viramos é uma nova rua,
a mão que tocamos desde hoje tem a tua força,
todas as coisas adquirem vigor em teu descanso
e tua pureza subirá das pedras
para mostrar-nos a claridade da esperança.


Repousa, irmão, o dia teu terminou,
com a tua alma doce e poderosa o encheste
de luz mais alta que a luz do dia
e de um som azul como a voz do céu.

Teu irmão e teus amigos me pediram
que repita o teu nome pelos ares da América,
que o conheça o touro do pampa, e a neve,
que o arrebate o mar, que o discuta o vento.


Agora são as estrelas da América a tua pátria
e desde hoje a tua casa sem portas é a Terra.




V
A Miguel Hernández,
Assassinado nos presídios da Espanha

Chegaste a mim diretamente do Levante, Me trazias,
pastor de cabras, tua inocência enrugada,
a escolástica de velhas páginas, um odor
de Frei Luis, de flor de laranjeira, de esterco queimado

sobre os montes, e em tua máscara
a aspereza cereal da aveia segada
e um mel que media a terra com teus olhos.


Também o rouxinol em tua boca trazias.

Um rouxinol manchado de laranjas, um fio
de incorruptível canto, de força desfolhada.

Ai, rapaz, na luz sobreveio a pólvora
e tu, com rouxinol e com fuzil, andando
sob a lua e sob o sol da batalha.


Já sabes, filho meu, o quanto não pude fazer, já sabes
que para mim, de toda a poesia, tu eras o fogo azul.

Hoje sobre a terra ponho o meu rosto e te escuto,
te escuto, sangue, música, colméia agonizante.


Não vi deslumbrante raça como a tua,
nem raízes tão duras, nem mãos de soldado,
nem vi nada mais vivo que o teu coração
a se queimar na púrpura de minha própria bandeira.


Jovem eterno, vives, comuneiro de antanho,
inundado de germes de trigo e primavera,
enrugado e escuro como o metal inato,
esperando o minuto que erga a tua armadura.


Não estou só desde que morreste.
Estou com os que te buscam.

Estou com os que um dia chegarão a vingar-te.

Reconhecerás os meus passos entre esses
que se despenharão sobre o peito da Espanha
esmagando Caim para que nos devolva
os restos enterrados.


Que saibam os que te mataram que pagarão com sangue.

Que saibam os que te deram tormento que me verão um dia.

Que saibam os malditos que hoje incluem o teu nome
em seus livros, os Dámasos, os Gerardos, os filhos
de cadela, silenciosos cúmplices do verdugo,
que não será apagado o teu martírio, e tua morte
tombará sobre toda sua lua de covardes.

E os que te negaram em seu loureiro apodrecido,
na terra americana, o espaço que cobres
com a tua fluvial coroa de raio sangrado,
deixa-me dar-lhes eu o desdenhoso esquecimento
porque a mim quiseram mutilar com a tua ausência.


Miguel, longe da prisão de Osuna, longe
da crueldade, Mao Tsé-tung dirige
tua poesia despedaçada no combate
para a nossa vitória.

E Praga rumorosa
a construir a doce colméia que cantaste,
Hungria verde limpa seus celeiros
e dança junto ao rio que despertou do sonho.

E de Varsóvia sobe a sereia nua
que edifica a mostrar sua cristalina espada.

Mais além a terra se agiganta,
a terra,
que visitou o teu canto, o aço
que defendeu a tua pátria estão seguros,
acrescentados pela firmeza
de Stálin e seus filhos.


Já se achega
a luz a tua morada.


Miguel da Espanha, estrela
de terras arrasadas, não te esqueço, filho meu,
não te esqueço, filho meu!

Mas aprendi a vida
com a tua morte: meus olhos apenas se velaram,
e encontrei em mim não o pranto
mas as armas
inexoráveis!
Espera-as! Espera-me!
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A Boca Que Canta

Vou desde os pinhais
até as bocas descidas do Danúbio,
o ar azul sacode
as vidas e a vida.
O ar limpa o fundo
dos salões, entra
pelas janelas
um vento de bandeiras populares.
Apagando nesta hora,
Romênia, com tuas mãos os farrapos
de teu povo, mostraste
uma nova cabeça, novos olhos,
nova boca que canta,
e não só uma raça de pastores
mostras hoje na terra,
mas uma deslumbrante
construção que caminha.
 
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Primeira Aparição do Anjo

E ali transpondo o rio,
quando as águas duplicavam
a ação das cavalgaduras,
e de repente uma aragem entrava
como uma flecha na minha garganta,
quando tropeçava a besta
e eram as águas a meu lado
um torrencial lance de agulhas,
e a catarata esperava
como um relâmpago nas pedras,
olhei ali atrás de mim,
e sem barbear-se, enrugado,
com uma pistola e um laço
vi pela primeira vez o anjo.
Ia cuidando-me o anjo,
ia sem asas junto a mim
o anjo do Comitê Central.
 
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Foi Sangrenta

Foi sangrenta toda a terra do homem.
Tempo, edificações, rotas, chuva,
apagam as constelações do crime,
o certo é que um planeta tão pequeno
foi mil vezes coberto pelo sangue,
guerra ou vingança, armadilha ou batalha,
caíram homens, foram devorados,
depois o esquecimento foi limpando
cada metro quadrado: alguma vez
um vago monumento mentiroso,
às vezes uma cláusula de bronze,
depois conversações, nascimentos,
municipalidades, e o esquecimento.
Que artes temos para o extermínio
e que ciência para extirpar lembranças!
Está florido o que foi sangrento.
Preparar-se, rapazes,
para outra vez matar, morrer de novo,
e cobrir com flores o sangue.
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Ode E Germinações

I

O sabor da tua boca e a cor da tua pele,
pele, boca, meu fruto destes dias velozes,
diz-me, se sempre estiveram ao teu lado
durante anos e viagens e através de luas e sóis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou se só agora, só
saem das tuas raízes
como à terra seca a água traz
um germinar que não conhecia,
ou aos lábios do cântaro esquecido
sobe na água o gosto da terra?

Não sei, não me digas nada, não o sabes.
Ninguém sabe estas coisas.
Mas quando aproximo os meus sentidos
da luz da tua pele, desapareces,
dissolves-te como o ácido
aroma de um fruto
e o calor de um caminho,
o odor do milho que se desfolha,
a madressilva da tarde pura,
os nomes da terra empoeirada,
o perfume infinito da pátria:
magnólia e mato, sangue e farinha,
galope de cavalos,
a lua poeirenta da aldeia,
o pão recém-nascido:
ai toda a tua pele volta à minha boca,
volta ao meu coração, volta ao meu corpo,
e de novo serei contigo
a terra que tu és:
és em mim profunda primavera:
em ti volto a saber como germino.


II


Esses teus anos que devia ter sentido
crescer perto de mim como cachos
até teres visto como o sol e a terra
te tinham feito para as minhas mãos de pedra,
até que uva a uva tivesses feito
cantar nas minhas veias o vinho.
O vento ou o cavalo
ao desviarem-se puderam
fazer com que eu tivesse passado pela tua infância,
viste o mesmo céu todos os dias,
o mesmo barro do inverno obscuro,
a ramagem sem fim das ameixieiras
e a sua doçura de cor arroxeada.
Apenas alguns quilómetros de noite,
as distâncias molhadas
da aurora campestre,
um punhado de terra nos separou, os muros
transparentes
que não atravessámos, para que a vida,
depois, pusesse todos
os mares e a terra
entre nós, e nos aproximássemos
não obstante o espaço,
passo a passo em busca um do outro,
de um oceano a outro,
até ver que o céu se incendiava
e voavam na luz os teus cabelos
e chegaste aos meus beijos com o fogo
de um meteoro desenfreado
e ao derreteres-te no meu sangue, recebi
na boca a doçura
da ameixa selvagem da nossa infância,
e abracei-te contra mim como
se readquirisse a terra e a vida.


III


Minha rapariga selvagem, tivemos
de recuperar o tempo
e andar para trás, na distância
das nossas vidas, beijo a beijo,
recolhendo de um lugar o que demos
sem alegria, descobrindo noutro
o caminho secreto
que foi aproximando os teus pés dos meus,
e assim sob a minha boca
voltas a ver a planta insatisfeita
da tua vida estendendo as suas raízes
até ao meu coração que te esperava.
E uma a uma as noites
entre as nossas cidades separadas
juntam-se à noite que nos une.
A luz de cada dia,
a sua chama ou o seu repouso,
nos entregam, tirando-os do tempo,
e assim se desenterra
na sombra ou na luz o nosso tesouro,
e assim beijam a vida os nossos beijos:
todo o amor no nosso amor se encerra:
toda a sede termina no nosso abraço.
Aqui estamos por fim frente a frente,
encontrámo-nos,
nada perdemos.
Percorremo-nos lábio a lábio,
mil vezes trocámos
entre nós a morte e a vida,
tudo o que trazíamos
como mortas medalhas
atirámo-lo para o fundo do mar,
tudo o que aprendemos
não nos serviu de nada:
começamos de novo,
terminamos de novo
morte e vida.
E aqui sobrevivemos,
puros, com a pureza que criamos,
mais vastos do que a terra que não nos pôde apartar,
eternos como o fogo que arderá
enquanto durar a vida.
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Este Sino Roto

Este sino roto
quer ainda cantar,
o metal agora é verde,
o sino tem a cor da selva,
cor da água de poça no bosque,
cor do dia nas folhas.

O bronze roto e verde,
o sino de bruços
e dormido
foi enredado pelas enredadeiras
e a cor de ouro duro do bronze
passou à cor da rã,
foram as mãos da água,
a umidade da costa
que deu verdura ao metal,
ternura ao sino.

Este sino roto
arrastado no brusco matagal
do meu jardim selvagem,
sino verde, ferido,
funde suas cicatrizes na erva,
não chama a mais ninguém,


não congrega
junto à sua copa verde
mais que uma borboleta que palpita
sobre o metal caído e voa
fugindo com asas amarelas.
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VI - A ilha

Oh Melanésia, espiga poderosa,
ilhas de vento genital, criadas,
cedo multiplicadas pelo vento.

De argila, bosques, barro, de sêmen que voava
nasceu o colar selvagem dos mitos:
Polinésia: pimenta verde, espargida
na área do mar pelos dedos errantes
do dono de Rapa Nui, o Senhor Vento.

A primeira estátua foi de areia molhada,
ele a formou e a desfez alegremente.
Construiu de sal a segunda estátua
e o mar hostil a derrubou cantando.
Mas a terceira estátua que fez o Senhor Vento
foi um moai de granito, e este sobreviveu.

Esta obra que lavraram as mãos do ar,
as luvas do céu, a turbulência azul,
este trabalho fizeram os dedos transparentes:
um torso, a ereção do Silêncio desnudo,
o olhar secreto da pedra,
o nariz triangular da ave ou da proa
e na estátua o prodígio de um retrato:
− porque a solidão tem este rosto,
porque o espaço é esta retidão sem rincões,
y a distância é esta claridade do retângulo.
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XXIV - A ilha

Adeus, adeus, ilha secreta, rosa
de purificação, umbigo de oro:
voltamos uns e outros para as obrigações
de nossas enlutadas profissões e ofícios.

Adeus, que o grande oceano te guarde
longe de nossa estéril aspereza!
Chegou a hora de odiar a solidão:
esconde, ilha, as chaves antigas
debaixo dos esqueletos
que nos censurarão até que sejam pó
em suas covas de pedra
nossa invasão inútil.

Regressamos. E este adeus, esbanjado e perdido
é mais um, um adeus
sem mais solenidade que a que ali fica:
a indiferença imóvel no centro do mar:
cem olhares de pedra que olham para dentro
e para a eternidade do horizonte.


FIM
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