Lista de Poemas
Chove Sobre a Areia
sobre o teto
o tema da chuva,
os largos eles da chuva lenta
caem sobre as páginas
de meu amor sempitemo,
o sal de cada dia,
regressa chuva a teu ninho anterior,
volta com tuas agulhas ao passado,
hoje quero o espaço branco,
o tempo de papel para um ramo
de roseira verde e de rosas douradas,
algo da infinita primavera
que hoje esperava,
quando voltou a chuva
a tocar tristemente
a janela,
depois a dançar
com fúria desmedida
sobre meu coração e sobre o teto,
reclamando
seu lugar,
pedindo-me um cálice
para enchê-lo uma vez mais de agulhas,
de tempo transparente,
de lágrimas.
Juntos Nós
que triunfal desmedida a tua órbita de branco,
e o teu peito de pão, alto de clima,
a tua coroa de árvores negras, bem amada,
e o teu nariz de animal solitário, de ovelha selvagem
que cheira a sombra e a precipitada fuga tirânica.
Agora, que armas esplêndidas são minhas mãos,
digna a sua pá de osso e o seu lírio de unhas,
e o lugar do meu rosto, e a renda da minha alma
situam-se no alicerce da força terrestre.
Que puro o meu olhar de nocturna influência,
caído de olhos obscuros e de feroz acicate,
a minha simétrica estátua de pernas gémeas
sobe até estrelas húmidas todas as manhãs,
e a minha boca de exílio morde a carne e a uva,
os meus braços de varão, o meu peito tatuado
em que penetra o cabelo como asa de estanho,
o meu rosto branco feito para a profundidade do sol,
o meu cabelo feito de ritos, de minerais negros,
a minha testa, penetrante como golpe ou caminho,
a minha pele de filho maduro, destinado ao arado,
os meus olhos de ávido, de casamento rápido,
a minha língua amiga branda do dique e do navio,
os meus dentes de horário branco, de equidade sistemática,
a pele que faz à minha frente um vazio de gelos
e nas minhas costas roda, e voa nas minhas pálpebras,
e reentra sobre o meu mais profundo estímulo,
e cresce até às rosas nos meus dedos,
no meu queixo de osso e nos meus pés de riqueza.
E tu como um mês de estrela, como um beijo fixo,
como estrutura de asa, ou começos de outono,
menina, minha defensora, minha amorosa,
a luz faz a sua cama sob as tuas grandes pálpebras,
douradas como bois, e a pomba redonda
muitas vezes faz os seus ninhos brancos em ti.
Feita de onda em lingotes e pinças brancas,
a tua saúde de maçã enfurecida estende-se sem limite,
o trémulo tonel em que o teu estômago ouve,
as tuas mãos filhas da farinha e do céu.
Como és parecida com o mais longo beijo,
o seu fixo abalo parece alimentar-te,
e o seu impulso de brasa, de bandeira esvoaçante,
vai latejando nos teus domínios e subindo num tremor,
e então a tua cabeça adelgaça-se em cabelos,
e a sua forma guerreira, o seu círculo seco,
desaba subitamente em fios lineares
como fios de espadas ou heranças do fumo.
Ode Com Um Lamento
oh presídio de peixes e rosais,
a tua alma é uma garrafa cheia de sal sedento
e um sino cheio de uvas é a tua pele.
Por desgraça não tenho para te dar senão unhas
ou pestanas, ou pianos derretidos,
ou sonhos que me saem do coração aos borbotões,
sonhos poeirentos que correm como ginetes negros,
sonhos cheios de velocidade e desgraças.
Só te posso amar com beijos e papoilas,
com grinaldas molhadas de chuva,
olhando cavalos cinzentos e cães amarelos.
Só te posso amar com ondas atrás de mim,
entre vagos golpes de enxofre e águas ensimesmadas,
nadando contra os cemitérios que correm em certos rios
com pasto molhado crescendo sobre os tristes túmulos de gesso,
nadando através de corações submersos
e pálidos róis de crianças insepultas.
Há muita morte, muitos acontecimentos fúnebres
nas minhas desamparadas paixões e desolados beijos,
há a água que me cai na cabeça,
enquanto o cabelo me cresce,
uma água como o tempo, uma água negra imparável,
com uma voz nocturna, com um grito
de pássaros na chuva, com uma interminável
sombra de asa molhada que me protege os ossos:
enquanto me visto, enquanto
interminavelmente me olho nos espelhos e nos vidros,
ouço que alguém me segue e chama soluçante
com uma voz triste apodrecida pelo tempo.
Tu estás de pé sobre a terra, cheia
de dentes e relâmpagos.
Propagas os beijos e matas as formigas.
Choras de saúde, de cebola, de abelha,
de abecedário em fogo.
És como uma espada azul e verde
e ondulas ao tocar-te, como um rio.
Vem até à minha alma vestida de branco, com um ramo
de ensanguentadas rosas e taças de cinzas,
vem com uma maçã e um cavalo,
porque ali há uma sala obscura e um candelabro partido,
umas cadeiras retorcidas que esperam o inverno,
e uma pomba morta, com um número.
Meio-Dia - LIII
o ofício do homem, a mulher e a vida:
a este lugar corria a paz vertiginosa,
por esta luz ardeu a comum queimadura.
Honra a tuas duas mãos que voam preparando
os brancos resultados do canto e a cozinha,
salve! a inteireza de teus pés corredores,
viva! a bailarina que baila com a escova.
Aqueles bruscos rios com águas e ameaças,
aquele atormentado pavilhão da espuma,
aqueles incendiários favos e recifes
são hoje este repouso de teu sangue no meu,
este leito estrelado e azul como a noite
esta simplicidade sem-fim da ternura.
Conheci Ao Mexicano
faz alguns séculos, em Jalapa,
e depois, cada vez, ao encontrá-lo
na Colômbia, em Iquique, em Arequipa,
comecei a suspeitar de sua existência.
Tinha-me parecido estranho
seu chapéu, quando aquele homem,
oleiro de ofício, vivia da argila
mexicana e depois tomou-se arquiteto,
mordomo de uma ferragem na Venezuela,
mineiro e aguazil na Guatemala.
Como, pensei, com a mesma idade,
só trezentos anos,
eu, com o mesmo ofício, ensimesmado
em minha fábrica de sinos,
a bater sempre pedras ou metais
para que alguém ouça meus sinos
e conheça minha voz,
minha única voz,
este homem, desde mortos anos
por rios que não existem,
muda de ofício?
Então compreendi que ele era eu,
que éramos um sobrevivente a mais
entre outros de perto ou daqui,
outros de linhagens iguais enterrados
com as mãos sujas de areia,
nascendo sempre em qualquer parte,
dispostos a um trabalho interminável.
19
os trigos, que dá os frutos e que torce as algas,
fez teu corpo alegre, teus olhos luminosos
e tua boca que tem o sorriso da água.
Um sol negro e ansioso te enrola nos raios
de negras madeixas, quando esticas os braços.
Tu brincas com o sol como com o estuário
e ele te põe nos olhos escuros remansos.
Menina morena e ágil, nada em ti acerca.
Tudo de ti me afasta, como do meio dia.
És a delirante juventude da abelha,
a embriaguez da onda, e a força da espiga.
Meu coração sombrio te busca, sem demora,
e amo teu corpo alegre, a voz solta e delgada.
Mariposa morena, doce e inalterável,
como o trigal e o sol, a papoula e a água.
Regressando
que por isso não morro,
sou incapaz de fazê-lo,
me buscam e não me acham
e saio com o que quero,
com meu pobre destino
de cavalo perdido
nos porteiros solitários
do sul do Sul da América
— sopra um vento de ferro,
as árvores se dobram
desde seu nascimento,
devem beijar a terra,
a planície —
chega depois a neve
feita de mil espadas
que nunca terminam.
Eu tenho regressado
de onde estarei,
desde amanhã Sexta,
eu regressei
com todos os meus sinos
e fiquei plantado
procurando a pradaria,
beijando terra amarga
como o arbusto dobrado.
Porque é obrigatório
obedecer ao inverno,
deixar crescer o vento
também dentro de ti,
até que cai a neve,
unem-se o hoje e o dia,
o vento .e o passado,
cai o frio,
ao fim estamos sozinhos,
por fim nos calaremos.
Obrigado.
Pedrafina
companheiro deves medir-te,
me aconselharam um a um,
me aconselharam pouco a pouco,
me aconselharam muito a muito,
até que me fui desmedindo
e cada vez me desmedi,
me desmedi cada dia
até chegar a ser sem dúvida
horripilante e desmedido,
desmedido apesar de tudo,
inaceitável e desmedido,
desmedidamente ditoso
em minha insurgente desmesura.
Quando no rio navegável
navegava como os cisnes
pus em perigo a barcaça
e produzi tão grandes ondas
com minhas estrofes vendavais
que caímos todos na água.
Ali os peixes me olharam
com olhos frios e reprovadores
enquanto sardônicos caranguejos
ameaçavam nossos rabos.
Outra vez assistindo a um longo,
a um funeral interminável,
entre os discursos funestos
me quedei dormindo na tumba
e ali com grave negligência
me jogaram terra, me enterraram:
durante os dias escuros
me alimentei das coroas,
de crisântemos putrefatos.
E quando ressuscitei
ninguém tinha percebido.
Com uma bela me ocorreu
uma aventura desmedida.
Pedrafina, assim se chamava,
se parecia com uma cereja,
com um coração desenhado,
com uma caixinha de cristal.
Quando me viu naturalmente
se enamorou de meu nariz,
prodigou-lhe ternos cuidados
e pequenos beijos celestes.
Então desencadeei
meus inaceitáveis instintos
e a insaciável vaidade
que me leva a tantos erros:
com esforço desenrolei
meu nariz até convertê-lo
em uma tromba de elefante.
E com mortais malabarismos
levei a tal grau a destreza
que Pedrafina ergui até
os ramos de uma cerejeira.
Aquela mulher rechaçou
minhas homenagens desmedidas
e nunca mais desceu dos ramos:
me abandonou. Soube depois
que pouco a pouco, com o tempo,
se converteu em uma cereja.
Não há remédio para estes males
que me fazem feliz tristemente
e amargamente satisfeito:
o orgulho não leva a nada,
mas a verdade seja dita:
não se pode viver sem ele.
1
pareces-te ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de camponês selvagem te escava
e faz com que do fundo salte o filho da terra.
Fui só como um túnel. De mim fugiram os pássaros,
e em mim penetrava a noite sua invasão feroz.
Para sobreviver te forjei como uma arma,
uma flecha em meu arco, uma pedra em minha fisga.
Mas eis que cai a hora da vingança, e eu te amo.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávida e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher mia, persistirei em tua graça.
Mia sede, mia ânsia sem fim, meu caminho indeciso!
Escuros leitos por onde a sede eterna segue,
e onde a fadiga segue, e a dor é infinita.
7
a teus olhos oceânicos.
Nela se estende e arde na mais alta fogueira
minha solidão que agita os braços como um náufrago.
Faço sinais rubros para teus olhos ausentes
que ondulam como o mar à beira de um farol.
Guardas apenas escuridão,fêmea distante e minha,
de teu olhar emerge às vezes a costa do espanto.
Inclinado à tarde jogo minhas tristes redes
a esse mar que sacode teus olhos oceânicos.
Os pássaros noturnos bicam as primeiras estrelas
que cintilam como minha alma quando te amo.
Galopa a noite em sua égua sombria
esparramando espigas azuis sobre o campo.
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Com treze anos, começou a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña. Foi em 1920 que surgiu o pseudônimo Pablo Neruda – uma homenagem ao poeta tchecoslovaco Jan Neruda. Vários dos poemas desse período estão presentes em Crepusculário, o primeiro livro do poeta, publicado em 1923.
Além das suas atividades literárias, Neruda estudou francês e pedagogia na Universidade do Chile. No período de 1927 a 1935, trabalhou como diplomata, vivendo em Burma, Sri Lanka, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri. Em 1930, casou-se com María Antonieta Hagenaar, de quem se divorciaria em 1936. Em 1955, conheceu Mathilde Urrutia, com quem ficaria até o final da vida.
Em meio às turbulências políticas do período entre-guerras, publicou o livro que marcaria um novo período em sua obra, Residência na terra (1933). Em 1936, o estouro da Guerra Civil Espanhola e o assassinato de García Lorca aproximaram o poeta chileno dos republicanos espanhóis, e ele acabou destituído de seu cargo consular. Em 1943, voltou ao Chile, e, em 1945 foi eleito senador da república, filiando-se ao partido comunista chileno. Teve de viver clandestinamente em seu próprio país por dois anos, até exilar-se, em 1949. Um ano depois foi publicado no México e clandestinamente no Chile o livro Canto geral. Além de ser o título mais célebre de Neruda, é uma obra-prima de poesia telúrica que exalta poderosamente toda a vida do Novo Mundo, denuncia a impostura dos conquistadores e a tristeza dos povos explorados, expressando um grito de fraternidade através de imagens poderosas.
Após viver em diversos países, Neruda voltou ao Chile em 1952. Muito do que ele escreveu nesse tempo tem profundas marcas políticas, como é o caso de As uvas e o vento (1954), que pode ser considerado o diário de exílio do poeta. Em 1971, Pablo Neruda recebeu a honraria máxima para um escritor, o Prêmio Nobel de Literatura. Morreu em Santiago do Chile, em 23 de setembro de 1973, apenas alguns dias após o golpe militar que depusera da presidência do país o seu amigo Salvador Allende.
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