Lista de Poemas
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Mel de Carvalho
epístola do acordar
acordo sempre
com as pálpebras cerzidas ainda no bornal das trovoadas
em que se ocultam os morcegos da luz do vida,
acordo
com as pontas dos dedos avermelhadas
e ânsias embrulhadas em pele de cobra ou de molusco
tenro.
pouco importa.
não sou do mar
nem d’água tão-pouco.
não sou, que saiba, sequer dalgum lugar,
e, se pó for sendo, serei fuligem incendiada de cauda d’astro
esparsa à deriva do vento.
epistolar
retorno ao umbigo de Java, ao eufemismo de ser não sendo, absoluto zero elevado ao expoente do nada,
se
entre o ontem que se foi e o dia d’amanhã,
em calcanhar de tua errática jornada
sou e serei, ermitério, teu afã, o risco mais profundo do teu verbo
e, ouso dizer, vaticinando, que, na pele esfolada ad eternum da linha dum imaginário firmamento
deste pó de estrela minguada antes do tempo, abortada luz-ferrete, a ferros, a êmbolo,
se fará júbilo ou, quiçá, assombro
de renúncia imprevidente;
reafirmo:
- acordo sempre
com harpas eléctricas no olhar e a boca a saber a pautas derrotadas de música
se de mim regurgitas nos socalcos da madrugada, raiz e folha,
nenúfar em lagos de mulher,
se em mim és singelo pente de dentes pontiagudos de platina e de marfim
que me desliza a alma em fio e fogo
e que fuzila soldadesca de chumbo na raiz de primevos medos… na candura d'inocência. de era ida.
na hora certa,
dou corda ao relógio dos dias de hastes desmembradas,
visto o sorriso de te ser “escrava de Córdoba”
submeto-me ao sarcástico da minha própria derrota
quando, sem público, sem palmas,
subo o pano do palco
exalto a democracia, e te exulto em elixir e júbilo, no panteão profano dos deuses
e confundo o sacro e o dissoluto
se te não sei “Senhor de mim“, in pólis-reino.
… e, em passinhos (de)mente desperta,
ora lépidos
ora dengosos
definho e fio a roca dos dias luminosos
em epitáfios jacobinos de mesuras, vénias, plumas e enigmas. aplaudo-te de pé!
resta-me o nimbo
o resplendor do sol d’ Inverno, e esta rouquidão d'alma enferma que muda se não cala
e, a forma dis_formada de me re_fundir carta epistolar.
Rabs
As Vezes
Escrevo por não ter palavras pra descrever o que sinto, por que sinto
As vezes me pego abatido, enciumado, cabisbaixo e distraído
E nem ao menos sei o motivo pelo qual assim me sinto
As vezes disfarço o sorriso entre as lágrimas contidas
Sem saber por que as contenho
As vezes me ponho em máscara e faço outros sorrirem
Como se aquilo acalmasse minha dor... ou fingisse acalmar
As vezes eu encontro impurezas que se alojam em mim
Sem saber como tirar, as deixo quietas, até descobrir-se
As vezes me engasgo com meu espasmo e minha fúria
Me surpreendo com minha força inexistente
As vezes o mundo parece não girar, o tempo não passar
Por que meus erros eu tenho que descobrir sozinho?
As vezes tudo se conspira contra mim, e eu caio
Mas sempre dou um jeitinho de levantar
As vezes me machuco sem saber onde me cortei
E quem me cortou geralmente também não sabe que o fez
As vezes meu silêncio me atordoa
Essa falta de ter com quem conversar... esse penar...
...
As vezes eu falho... aliás, sempre falho, mas isso é bom
Toda falha vem com sua lição, aprendo
As vezes me deito sozinho e me passo a mão no cabelo
Como não notar a solidão!?!
As vezes me sinto carente, olhos acoados...
Existe sentimento demais reprimido aqui dentro
As vezes eu sonho, mas sonhar, no meu caso faz mal
Tenho sonhos pequenos, porém não vejo suas concretizações
As vezes tenho amigos, mas não os vejo, jamais
Ao menos a certeza de que alguém me ama
As vezes falo demais...
As vezes eu sorrio...
Francisca Bastos
Assalto
Procurei nos ventos, o sopro de outros tempos.
Pendurei-me neles e fugi.
Assaltei o mundo e o tempo
E o tempo fez-se em mim um todo.
Ponteiros, tic-tacs insuportáveis.
Mas era eu, toda tempo e toda vento.
Toda longe demais para ser real
No mundo por mim assaltado e vasculhado,
Qual armário de sapatos assaltado em criança.
E se o tempo foge e me leva com ele,
Porque sou parte dele e ele parte de mim ou apenas porque sim,
Bocados de mim ficam na calçada:
Sonhos e planos e pessoas
Ou, tão somente, memórias...
Nessa calçada, nesses paralelos desalinhados,
Fica também desalinhada minha vida.
E assim termina a história do saque ao mundo,
O anseio de quem, ansiando, ansiou demais
E morreu ali, na calçada...
Vida desalinhada.Fevereiro de 2009
Szabó Tibor
Tempo de Solidão
O relógio bate...
Meia noite.
Alguns, morrem...cansados de seu dia.
Outros...se mantém acordados, todavia.
Uma bela coruja de olhos grandes,
Anuncia: Eles chegaram!
A terra estremece...
O céu escurece...
Todos se deitam.
Mas ninguém adormece.
Eles chegaram...
São eles, que minha alma perturbam,
Que do horizonte surgem cada dia mais...
São uma razão dentre tantas outras.
Donde sem Eles morreria.
Valem da vida aquilo que carregam.
Sentir e viver é algo que nunca negam.
Com Eles morro a cada dia.
E toda noite renasço de suas cinzas.
Pois me lembram daqueles momentos,
Em que a felicidade está escondida,
Muitas vezes entre a sombra e a própria luz.
Entre a alma e a própria pele.
Está em ti.
Me trazem dor e felicidade.
Do fundo de meu peito, abordam minha respiração.
Toda vez...toda santa vez...
Na calada da noite.
Morro-me por Eles.
O relógio bate:
Meia noite.
Uma bela coruja de olhos grandes,
Anuncia: Os sentimentos chegaram!
LUIZ GONZAGA DE PAULA
SEXTO SENTIDO
SEXTO SENTIDO
De mim não sei mais da espera,
O que pondera o meu inconsciente.
Deixei o sol banhando a paisagem,
Segui apenas o meu sexto sentido.
Em cada ponta de centelha,
Ficou cravado o meu semblante,
O medo de voar sem deixar pista,
Completa a nossa fuga inconseqüente.
Sementes dos desejos sentimentos!
Momentos de nós dois a solidão.
Por mais que eu procure as estrelas,
Vou ter fincados os pés no chão.
Levanto de manhã ainda aflito,
E desafio o lume da decência.
Assim inconteste a sua fúria,
Resta-me ainda o afago do farol.
No colo raso dos deleites,
Inflama a sua terna cobiça.
Atiça a minha voz despudorada,
E deixa em meus beiços seu sabor.
Quando desperta vespertino na ribalda,
E nenhum outro ousa acreditas.
Esquece toda magoa e se ascende,
Estende pára quem tende o seu olhar.
Pedro Barreiros
Gente
Gente da terra que sente
Gente bonita e má.
Mente, ri e fala abruptamente Gente
do povo que vive do que crê e vê
Gente que fala calada, verdadeiramente
como só sabe esta minha Gente
Gente desta vida que não perdoa
fere, mata e só anda prà frente
Gente que quer ser ouvida
como nunca antes quis Gente
escondida que quer ser vista
por quem nunca antes viu Gente
cujo coração quente bate forte,
forte como nunca antes bateu Gente
alheia que anseia crer. Gente
que espera o salvador que outra Gente
um dia lhes disse haver
Madalena Palma
Corpo cansado
Fatigado,
o corpo deixo-o cair por entre os véus
Com
os braços prostrados sobre o ventre
Assim
permaneço
Sem
que o tempo ocupe espaço
Os
olhos deixo-os seguirem o seu rumo
Como
a folhagem de Outono também eles caem e se fecham
Não
sei se acordada ou a dormir
Reclino
a cabeça deixando os cabelos caídos pelo chão
Sonho
Viajo
para uma noite de Verão em que o horizonte te traz
E
contigo vem toda a vontade e loucura
Que
tornou a distância vazia
Ou
a estrada um paralelo que se cruza
Contigo
vieram histórias e narrativas
Dúvidas
que metamorfoseamos em verdade
Mãos
que se tornam asas
E
gestos incessantes que depravam, viciam e seduzem
Contigo
veio também o destempero
De
querer consumir num momento
Tudo
aquilo que não cabe numa vida
Wolf
Saudade
Creio que existes
Mas não te vejo.
Outrora estiveste aqui,
Agora existo só.
Deixo cair uma lágrima
Do sentimento ferido,
Onde nubla o ateado sofrimento
De não te ver.
E o coração bate no profundo vazio
Do nada.
Madalena Palma
Cansada de ser mulher
Estou
cansada de ser mulher
Esgotada
de ser aquela que os homens procuram
Para
viver momentos de prazer
Estou
cansada de ser carne e gozo
Fatigada
de ser um ser vazio e sem alma
De
ser fonte de desejo e de não beijar
Estou
farta de mandar embora da minha vida
Quem
nunca deixei verdadeiramente entrar
Estou
sem sangue frio nas veias
Para
implacavelmente continuar a ser mulher
Petra Correia
Sentimento
Petra Correia
Alma e Corpo
Pensamentos ocorrem numa cabeça fatigada, frustrada, (por vezes) reabilitada, mas extremamente baralhada. Essa cabeça ligada a um corpo que mal o seu suor suporta, pesa na alma, no sacrifício, na dor.
E a alma?
Essa deixou de reagir há bastante tempo, mas continua lá, como prisioneira numa cela em que as paredes se movem numa ilusão óptica porém na realidade (infelizmente) firmes e inquebráveis, onde o tempo passa cada segundo e debilita a sua capacidade de sobrevivência.
Uma Alma. Um Corpo.
Antagónicos
Carlos Geraldino
demografia
suas crianças expelidas
engravidam de lombrigas
Fátima Encarnado
- Choro Nocturno -
deixo o desenho em branco
Porque do sol as núvens escondem o brilho,
ponho os olhos no chão
Porque nas pedras não perduram pegadas,
aquieto...
Fico sem estar
Oculto-me na lágrima incontida
Mel de Carvalho
beijo de Crisfal
são duros agora o tempo embaciou
o espelho
onde me via
formosa e bela
e as searas há muito apodrecidas
nas raízes
na borda-d’água
aprumam-se distâncias
a linha corre
maquiavélica
esmaecendo o cinza da fuselagem.
de norte a sul
e seu inverso
inverto-me, ampulheta
de areia cauterizada
não existe tensão
nem o sal se inquieta em pousio de pele
apenas
sarças insistem num perecível rasgão …
são duros agora,
os meus olhos que atentam na baba calcinada
p’lo congelo - em baba de caracol
o beijo de Crisfal
e o momento exacto em pêndulo:
o longe
e o perto.
solto
uma valente gargalhada. pérfida, é de mim que rio,
e de mais nada.
um corvo sobe
e, num lapso em que a memória acorda d’amnésia branca,
recito aos sete ventos
um extracto excelso de poema
“Parado, o relógio mudo/Repete a imensa charada/– Sempre viva e já safada –
De que tudo é nada-nada,/Se o Nada não tem o Tudo.” (1)
(1)José Régio, «Cântico Suspenso»
Jota Ninos
Espelho
Sou aquele
do lado de lá do espelho
ficando vermelho
ao saber que não sou
o real...
...e que passa mal
ao pensar que a verdade
é ele, refletida em mim
que estou
do lado de cá do espelho
ficando vermelho
ao saber que ele é
o real...
...e que passo mal
ao pensar que a verdade
não sou eu, refletida nele...
sidney arruda
O Amanhã
Quero acordar de manhã
com sabiá cantando.
Quero ver Homem
E natureza se abraçando.
Que as crianças de hoje
Ame a natureza amanhã.
Que no amanhã
haja natureza para
As crianças amar.
Que todos os dias
Tenha um sabiá
Para cantar.
Sidney Arruda
Madalena Palma
Ouço-te
Estou
sempre a ouvir-te
Em
frases e perguntas
Umas
que fizeste e outras que ficaram por fazer
Já
tentei na minha mente calar-te
Mas
esse vazio foi mais triste que o silêncio
Escolho
o sabor doce das tuas palavras
Que
me sustentam e escoram
E
sobre o linho da noite
Me
aconchegam
Fábio Ferraz
Epílogo
a vida segue o seu destino a seco
e suicidas, perdidos nesta vertigem
confundem coragem com desapêgo
( in Cavalos Mortos e outros lutos, 2007 )
LUIZ GONZAGA DE PAULA
VITORIA
VITÓRIA
Não cresças tão depressa,
Não tenha pressa de ser gente grande.
Crescer e sair de casa,
Gente grande é tão indefesa!
Peça para o tempo esperar,
Não despreze o colo da mamãe,
Espere pelo menos o sol raiar.
Que a aurora da vida é tão linda!
Ponha a roupa mais bonita,
Que hoje é dia de festa,
Amanhã tudo isto termina,
Aproveitas enquanto tu podes!
Sem relógio da responsabilidade,
Aproveite esse doce de leite,
Calce sua sandália de palha,
Corra descalça pelo quintal.
Suba na cancela sem medo,
Escorregue pelo corrimão.
Não precisa ter medo de nada,
Não existe fantasma no porão.
TIO - LUIZ GONZAGA DE PAULA 116
sebastiao_xirimbimbi
Enquanto houver fome (11 de Novembro)
Como posso dizer que somos livres?
Se em Luanda ainda há mães
que dividem restos nos contentores com o cão,
e crianças que descobrem o sabor do lixo antes do sabor do pão.
Que independência é essa?
Se o povo carrega o estômago vazio como fardo e bandeira.
As ruas do Zango, do Prenda,
de Cacuaco, do Sambizanga,
de Viana e do Cazenga
todas gritam em silêncio nos choros do bebê nas costas da zungueira.
Gritam contra o esquecimento,
contra o discurso bonito
que não enche panela.
Gritam lembrando que a liberdade não vive de discursos,
vive do prato cheio e do coração tranquilo.
Angola, minha terra…
A tua independência só será completa quando nenhum dos teus filhos
tiver de procurar vida
entre os restos da vergonha.
Passando humilhação por um mísero “salário mínimo”
Não há independência quando o estômago do povo fala mais alto que o hino.
Enquanto houver fome,
o hino nacional será apenas um eco distante de um sonho ainda adiado.
Enquanto houver fome,
a bandeira é apenas um pano colorido a tremular sobre a miséria.
Enquanto houver crianças que se alimentam dos restos da indiferença,
Não haverá progresso, não haverá independência.
A verdadeira liberdade começa quando o povo deixa de escolher entre a dignidade e a sobrevivência.
Uma nação não se mede pelos anos que celebra,
mas pelo pão que chega à mesa
dos seus filhos.
Uma nação livre é aquela que garante saúde, alimentação,
segurança, educação,
e esperança a cada um dos seus filhos.
Não há verdadeira independência enquanto famílias buscam no lixo o que o Estado lhes negou à mesa. A fome é a maior traição aos que deram suas vidas lutando pela liberdade dessa terra.
Enquanto houver fome,
enquanto houver crianças sem futuro,
a nossa “independência” continuará dependente.
Por: Sebastião Xirimbimbi
PHPM2002
O Pássaro sem cor!
Era uma vez um pássaro sem cor.
Sem amor.
Vivendo atrás de galhos.
Se perguntando;
Por que das asas?
Se não pode voar,
Se não pode viver.
O momento em que as toca, ele não as sente.
O verdadeiro questionamento?
Ou o fato de não voar?
Tentando entender o que é viver.
Tempos e tempos sem viver
Tempos em tempos sem pensar
Só olhando para o passado
Que não irar mais voltar!
Raquel Gonçalves
Porta Fechada
Quis mais do que o teu corpo, quis partilhar coração,
vi em ti a chama viva, mas encontrei só negação.
Identifiquei-me contigo, com a tua forma de ser,
bati mil vezes à porta, e tu não quiseste me receber.
Não sei se é medo ou outra que guardas no peito,
mas sei que não fico a perguntar o que em mim não vês direito.
Procuro amor inteiro, não joguinhos a meio gás,
prefiro a minha paz firme a migalhas que não me satisfaz.
Não peço desculpa por amar, nem por ter me deixado sentir,
quem perde és tu por não te deixares descobrir.
Eu sigo em frente, de alma segura, sem medo de recomeçar,
porque sei que o verdadeiro amor um dia me há-de encontrar.
Pedro Rodrigues de Menezes
astrofísica do astro
tudo é denso e pesado
para quem já só tem asas.
(Pedro Rodrigues de Menezes, "astrofísica do astro")
Anna Flávia Schmitt Wyse Baranski
Lugar de Pacificação
Por força do destino
onde por oito estrelas
têm a sua régia orientação,
O Deus da Guerra
perderá a sua orientação;
Porque foi ali que a Virgem
deixou a relíquia nas mãos
do Cacique Coromoto
e dele obteve a conversão,
Ali a Via Láctea é mais visível,
e nasceu lugar de pacificação.
(Por mais que uns desejem que não).
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