Lista de Poemas

DESPRETENSÃO

Sinto o sol bater na janela enquanto o seu contato aquece tudo por dentro,

Com esse jeito meio desbocado, infantil, sempre querendo me fazer sorrir,

Produzir tenros frutos que a amizade gera, qual a mãe, deveras cuidadosa.

Não importa se pela voz, perfume, presença, pelo roçar do cabelo de anjo,

Esbanjo a alegria que vem desse amor, desse abraço que aperta e estala,

Feito pipoca na panela, feito a alma leve que resvala no chão e repica alto.

Seguimos por caminhos separados, mas, que se esbarram com frequência,

Mesmo em dias de indolência, quando o frio deveria frustrar idas ao parque,

Fazemos desembarque na Praça dos Porquinhos, é próximo ao portão seis.

Gosto dessa gente feliz que transita entre jardins, bicicletas, patins e skates,

Que abre a toalha, faz piquenique, adora pegar um instrumento e sair por aí

Empunhando o sax, o violino, violão, um playback, soltando a voz para valer.

Este circuito, que nem imaginava percorrer toda a semana, veio para encher

A vida com as cores que saltam da tela, com o pé que erra, se suja na terra,

Com este beijo despretensioso, que você ainda não sabe se recusa ou pega.
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O VENTO NÃO PERCEBE A BRISA

No começo tudo era lindo, o seu pai na calçada

O muro ruindo a três quadras da minha casa

O ônibus subindo e eu sempre atrasado

Quanto entrei afobado, meu mundo parou

 

E dando tudo certo, eu sempre quis você na minha vida

E ela aturdida te acenou na multidão

Quem sabe você me dê alguma pista

E encha então de paz o meu coração

 

No domingo sessão de cinema, eu sentado ao seu lado

A pipoca caindo, me deixando encabulado

Num gesto inusitado, apoiei o dedo em sua mão

Ela aninhou-se por baixo e um beijo selou

 

A herança que eu trago desse dia são duas maravilhas

É por elas que eu vou atravessar o turbilhão

Foi duro ter que abrir a porta da saída

Agora vou seguir sem direção

 

E se tudo der errado, saiba o vento não percebe a brisa

E ela, por sua vez, vencida, se perde no furacão

Quem sabe ainda exista uma fagulha viva

Mas, sei, choveu demais neste verão
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CORDÃO UMBILICAL

Eu carrego uma dor que é feito terra arrasada, vida abreviada,

Cordão umbilical que se corta e é como se estivesse grudado,

Chuva que o vento leva, mas, tanto insiste, termina por voltar.

Tenho rios que não param de correr porque olham para você,

Um mundo cheio de cores, mas, que ainda não conhece o sol,

Um velotrol empoeirado como os porões, salões, minha alma.

Para que buscar razões, a vida é tão insana, só falta de grana

Não justificaria a inquietação, tudo é tão louco, já estou rouco

De tanto explicar, mostrar que não há motivo para separação.

Decisões assim são traumáticas, lunáticas como as emoções,

Quero mais é sair do atoleiro, cruzar o canteiro, livre ser feliz,

Como é bom dar o primeiro choro de vida e conseguir respirar.

Quero mais é tirar dos peitos o alimento, todo o meu sustento,

Aninhar-me neste colo enquanto amolo, quero tanto continuar,

Quem sabe depois de um sono, finalmente viveremos em paz.
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QUINTA-FEIRA

Meus olhos choram o mar quando penso que ele já levou muitas vidas,

Quem sonhou águas tranquilas e se deparou com ondas intimidadoras,

Não sabe ainda, mandar que elas obedeçam aos sinais, dores e medos.

Sempre guardei segredo, temendo que ele ouvisse, que se aproveitasse

De qualquer fraqueza, qualquer insegurança, desta criança livre e pura,

Que estendeu as mãos, que trouxe o verão, que ofereceu sua amizade.

Já é quinta-feira e o barco partiu como proposto, com gosto de navegar,

O vento se engraçou pela vela, bela, envolta apenas nela e dela quis mais,

Acariciá-la por vezes, agitá-la demais, fazê-la seguir para onde se recusara.

E veio a aurora, quando a noite selou a tarde e sem alarde te avistou feliz,

Não era a sua primeira vez, mas, era como se fosse, tamanha a descoberta,

Tamanha a oferta de gemidos e sussurros, de gritos que já não eram de dor.

Foi quando se deu conta que era hora de voltar, de aceitar que acabou,

De contabilizar o que restou depois de tantos naufrágios e presságios,

Era só você, a porta destrancada e um frio gostoso na pele e na alma.
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INTUMESCIMENTO

Sinto a eletricidade, sangue novo nas veias, as meias foram costuradas,

O pé já reconhece o chão, o pão já chega ao estômago e os olhos riem,

Estamos prontos e excitados para a aventura, de ternura nos vestimos,

Sentimos que é o momento exato de romper o hiato que nos paralisou.

Somos a criança, o adolescente, o jovem expoente de seu tempo, tudo,

Menos cadeira de balanço, porque ganso é que costuma ficar sentado,

O dia deve ser regado a vinho, rostos rubros externam seus excessos,

Que às vezes são convenientes, sob medida, cabem doses de loucura.

Você queria companhia, agora tem, valentia e coragem só fazem bem,

Quem nunca precisou devia conhecer a adrenalina de estar sem freios,

Sem rodeios me beijou e a mágica aconteceu, que venha o jantar farto,

O quarto mal pode esperar, o lençol mais afoito, resolveu se desnudar.

A água morna do banho não relaxa se encaixa a vida, o sonho, o gozo,

Mas, é gostoso vê-la escorrer, satisfazer este instinto natural, profano,

Engano acreditar que arrefeceu os anseios com os seios intumescidos,

Os tecidos já não cabem mais nos corpos que se descobriram quentes.
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O AMOR POR UM TRIZ

Acordo cedo, procuro a foto, será que ela parece com o sonho?

Quando penso em carinho, sinto meus pés deslizando na areia,

Minhas mãos tocando o rosto, bagunçando o cabelo, movendo,

São impulsos que fariam um moinho girar, alguém ressuscitar.

Penso em um lugar, cachoeira, lareira ou esteira, é muito mais,

Uma jóia rara, uma boa companhia, quem diria, o dia chegaria,

Cerveja ou vinho, um apartamento novinho, tudo é aconchego,

É deixar o medo do lado de fora da porta e crer no tempo certo.

Olha o livro aberto, o rio que passa perto e que sabe até cantar,

O pomar que ficou mais cheio de fruta, a gruta que vi se erguer

Entre girassóis e camélias, entre idéias que passam como avião,

Como embrião de um relacionamento que já existe aqui dentro.

De tanto armazenar amor, os celeiros estão cheios, como seios,

Recreios onde se pode amamentar um pequeno pedaço de ser,

Eu me sinto privilegiado, alguém abençoado, a vida quer sorrir,

Mostrar os dentes mais brancos, pelos flancos, um beijo surgir.
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NOSSOS PECADOS

Sei que gostar delas, sequelas vão lhe causar, quirelas alimentam os bicos

Que quando se bicam, provocam atrito, como delito, pretendem classificar,

Abandonam na terra as pedras que não podem jogar, valentes e covardes,

Pelos dias, noites e tardes, vivem sempre em maquinação, raça de víboras.

Quem recebeu perdão, ouviu também o não peques mais e arrependeu-se,

Essa parte não consigo mudar, flexibilizar nunca foi o meu forte, sem sorte

Na escolha da defesa, católico praticante, em nada melhor, sem vergonha,

Por conhecer o certo e não executá-lo, a minha cobrança será muito maior.

Como artista, acho lindo, como homem, mais ainda, ainda que irrelevante,

Uma opinião pessoal não significa muito, celebra nosso respeito, amizade,

Lá dentro ninguém quer saber disto, tudo será visto como o quiserem ver,

Eu sei que as coisas mudam, só não posso escrever o terceiro testamento.

Você sabe o quanto acredito em casamento, foi ele o meu projeto de vida,

Os filhos que não seguram o dos outros, seguraram o meu, só que morreu

Pouco antes de te conhecer, o que sobrou, não terá grande valia, nostalgia

Propícia para entender a impossibilidade de defesa, aceitemos a sentença.
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MMA

Nesta guerra de provocações, convido para que escolha as armas,

Quem sabe as marcas se tornem medalhas e somente sobreviver

Não signifique necessariamente a vitória, motivo de estupefação,

Há quem morra de prazer com sorriso nos lábios, sábios negarão.

No underground, apenas um round na base do ground and pound,

Próxima técnica será surpresa, cartas na mesa, veja a esperteza,

O aparente domínio não significa extermínio, exerce um fascínio,

A montada é gigante, tipo de elefante, bastará enxergar adiante.

Na situação adversa, quem tira um coelho da cartola, faz escola,

Se não pede esmola, ficará na sarjeta, escapou feito um cometa,

Segure essa treta, abriu a gaveta, agora é salve-se quem puder,

Se queria uma colher, ganhou o prato cheio, é só partir ao meio.

Se tem pegada mais forte, posicione o quadril, derrube o arredio,

Caindo com a guarda passada, é só evitar a raspada com o suor,

Trabalho incessante, é deixar o adversário inoperante, só faturar,

Mesmo o bicho mais bravo, engole o travo e dará os três tapinhas.
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LIMÃO AZEDO

Olhei mais de mil vezes a folha em branco, depois que vi e também ouvi
Cada frase sua musicada no ouvido, o som preferido de agora em diante,
O sorriso dominante e o último retrato, para o caso de você querer postar,
Ali perto da cama, antes de dormir, rezar, talvez, é incerto, me acomodar.
Tenho respirado muito ar puro, além desse muro, é tanto pó, é tanto mal
Que a alma não merece, esquece não de me ver, torço para não chover,
Só não pode querer mais que eu, já me convenceu, talvez, queira adotar,
Qualquer cantinho serve, a minha verve voltou, dela não lembrava mais,
Deixa eu mexer no cabelo, fazer um apelo para que vivamos dias de paz,
Que sejam águas tranquilas, que sejam vilas com famílias todas do bem,
Quem sabe eu seja o trilho para você correr sem medo, um limão azedo,
Que você adoçou, remoçou, já não tem perigo, só um amigo ao seu lado.
Peguei toalhas para o banho, se quiser companhia, não tenha vergonha,
Tá todo mundo dormindo, eu nem estou pedindo, mas, adoraria o convite,
Agora não tem pé descalço e não tem percalço que não se possa reparar,
Que não falte pão na mesa e, que a certeza do perdão nos ensine a amar.
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MORTE ANUNCIADA

Um dia eu vou morrer de tanto pensar, de tanto escrever,

Até dei de tocar, cismei de cantar e não consigo entender,

Se está tudo bem, sem mais, porém, ponho tudo a perder,

São ciclos disformes, vazios enormes, começou a chover.

É tanta inundação, tanta embarcação cortando as ondas,

Por onde andas, meu bem, meu amém termina em você,

Minha linda, a dinda que todo mundo sonhou, aí fechou,

Só dá um alô, que eu passo um café, venha hoje, se der.

Uma noite irei ressuscitar, por cansar de morrer e sofrer,

Até levantar uns trocados, assustar no halloween, enfim,

Está tudo bem, vamos pegar o trem e pedir uma cerveja,

Chame o garçom, mande encher a mesa, bora lá beber.

Quando cansar de loucuras, vamos falar bem mais sério,

Moramos no mesmo hemisfério, hora do namoro render,

Quero tanto ser pai, gêmeos, mesmo boêmios, pode ser?

Fica assim não, vai dar tudo certo, já podemos começar?
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Comentários (2)

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sergios
2020-02-03

Ania, querida! Muito obrigado pelos carinhosos elogios, apesar do tanto que me falta melhorar e que sigo em busca. Tenhas dias lindos e inspirados!

ania
ania
2020-02-03

Poeta, bom dia! Obrigada pelo carinhoso comentário ue me ensejou teus versos ler. Li alguns, e todos a alma me tocaram pelo lirismo, pela sensibilidade, parabéns! abraços, ania..